12/01/2026

Milei, recém-eleito na Argentina, estreita laços com Bolsonaro e ignora Lula.

Tomas Cuesta/Getty Images

Enquanto Lula considera a possibilidade de enviar um representante para a posse de Milei, o presidente eleito convidou Jair Bolsonaro para a cerimônia.

Após a vitória nas eleições do último domingo (19/11), o economista e deputado Javier Milei (Libertad Avanza) está se preparando para assumir a Presidência da Argentina em dezembro. As declarações e gestos tanto do lado brasileiro quanto do argentino indicam como deve ser a relação entre os países vizinhos diante da mudança de gestão na Argentina.

Poucas horas após a vitória, nesta segunda-feira (20/11), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) divulgou o trecho de uma ligação de vídeo que recebeu de Javier Milei. No contato, o presidente eleito convidou o ex-mandatário brasileiro para comparecer à posse, marcada para 10 de dezembro, em Buenos Aires. “Tenha certeza de que, para tudo que for possível fazer por você, estaremos à disposição”, afirmou Bolsonaro em um vídeo divulgado no X (antigo Twitter).

Entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Javier Milei não houve contato direto após a vitória. “Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos”, comentou o petista nas redes sociais, sem citar o presidente eleito.

Lula decidiu não ir à posse do argentino. Ele ainda avalia qual substituto enviará no lugar, se o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ou o chanceler Mauro Vieira. A decisão estaria relacionada com ofensas proferidas pelo argentino, que chegou a chamar Lula de “presidiário comunista” e “corrupto”.

Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, projeta mudança para a relação entre Brasil e Argentina com a ascensão do ultraliberal. Na avaliação do especialista, a relação não será tão próxima como é atualmente, ou como seria caso o rival Sergio Massa (Unión por la Patria) tivesse vencido o pleito.

“Isso não significa dizer que esse desalinhamento ideológico vá impactar de forma negativa a relação entre os dois países. Na verdade, o que prevalece, em grande medida na relação entre os Estados, é o pragmatismo”, avalia.

O professor ainda destaca que muito do que Milei defendeu durante a campanha depende de acomodação de interesses internos, além de ter que passar pelo crivo do Legislativo.

Ricardo, no entanto, prevê que algo negativo para o Brasil, e que tem chances de ocorrer, é a saída da Argentina do Mercosul, uma promessa de Milei.

O especialista acredita que Milei deve buscar aproximação com parceiros ideologicamente mais próximos, como o ex-presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump e, na América do Sul, o Uruguai e o Paraguai.

Nessa segunda-feira (20/11), segundo o jornal argentino Clarín, Milei anunciou que a primeira viagem como presidente eleito será para EUA e Israel. O roteiro, explicou, tem uma “conotação mais espiritual que outras características”. A iniciativa rompe, mais uma vez, uma tradição diplomática entre Brasil e Argentina — o mesmo ocorreu quando Bolsonaro elegeu-se presidente, em 2018, e priorizou visitar o Chile, e não o território argentino.

“Pode haver essa aproximação mais por causa dessa ideologia em nível político. Quando a questão é econômica e comercial, a Argentina vai continuar dependendo do Brasil e da China”, analisa Ricardo. “Ele vai ter de remodelar esse discurso, porque isso afeta, em grande medida, os interesses do empresariado argentino.”

Pedro Costa Júnior, cientista político e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), reforça que a China e o Brasil são os dois maiores parceiros comerciais da Argentina. Mas, para ele, a relação que se espera é fria e com dificuldades para sentar à mesa de negociações.

“O Milei está em uma estrutura maior, que é de influência da alt right, em que se insere o Bolsonaro e o Trump, por todas as declarações que ele deu em relação à política externa argentina, com a proximidade aos EUA e a rejeição ao Brasil, à China, ao Brics e ao Mercosul”, pontua.

O pesquisador pondera que entre as propostas e o que Milei vai conseguir fazer de fato “há um abismo”. “Ele vai ter de se sentar na cadeira, e a realidade é diferente. Ele vai ter

Tribuna Livre, com informações da Agência Estado

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