A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, defendeu o fim da escala de trabalho 6×1, conhecida por oferecer apenas um dia de folga semanal, como uma ‘exigência do nosso tempo’. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil na quarta-feira (29), após evento no BNDES, no Rio de Janeiro, ela destacou que a mudança permitiria maior acesso das mulheres ao mercado de trabalho, além de benefícios para a saúde e as relações familiares.
Lopes enfatizou que as mulheres são as principais prejudicadas pela escala atual, devido à dupla ou tripla jornada imposta historicamente pela sociedade machista. ‘Às mulheres sempre coube, além do trabalho remunerado, uma grande parte do tempo com trabalho não remunerado, como cuidar da casa e dos filhos’, explicou a ministra. Ela acredita que o fim da 6×1, aliado à igualdade salarial, aumentaria a empregabilidade, especialmente para mulheres periféricas e negras.
No contexto legislativo, o Congresso analisa o Projeto de Lei 1838/2026, de iniciativa do governo federal, que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso remunerado sem corte salarial. O governo pediu urgência na tramitação, mas o PL aguardava despacho do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), até a tarde de quinta-feira (30). Além disso, tramitam as PECs 221/19 e 8/25 sobre o tema, e na quarta-feira (29) foi instalada uma comissão especial para analisá-las.
A desigualdade salarial persiste, conforme o 5º Relatório de Transparência Salarial, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 27 de abril, que revela que as brasileiras recebem em média 21,3% a menos que os homens no setor privado com 100 ou mais empregados – ou R$ 787 para cada R$ 1.000 pagos a eles. A Lei 14.611, de julho de 2023, reforça a igualdade para funções iguais e exige divulgação de salários por empresas com 100 ou mais funcionários.
Para Lopes, a medida traria reflexos positivos às empresas, como redução do absenteísmo, e à economia, promovendo dignidade e tempo livre para lazer, autocuidado e empreendedorismo. Estudos divergem sobre os impactos: a CNI estima perda de R$ 76 bilhões no PIB e alta de 6,2% nos preços; a CNC prevê aumento de 21% nos custos salariais e pressão inflacionária de 13%; já o Ipea argumenta que os efeitos seriam absorvíveis, semelhantes a reajustes do salário mínimo.
Grupos de mulheres articulam com os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, para pressionar pela aprovação. ‘As mulheres são fortes e mobilizadas’, disse a ministra, que preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher. No evento do BNDES, o banco anunciou R$ 80 milhões para iniciativas de mulheres empreendedoras e ‘trabalho do cuidado’ em periferias, como cozinhas comunitárias e lavanderias públicas. A diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, reforçou que o fim da 6×1 promove autocuidado e fim de semana para as mulheres.