Nenhum município brasileiro oferece plenas condições para que mulheres vivam bem, aponta o IMG (Índice Municipal de Gênero 2026), desenvolvido pela consultoria socioambiental Tewá 225 e lançado na terça-feira (22).
O índice avalia o acesso a saúde, educação, trabalho, renda, mobilidade, proteção social e espaços de decisão, promovendo autonomia econômica, física e política às mulheres. A ferramenta reúne dados públicos dos 5.570 municípios do país, colhidos de bases como o Censo 2022 e a Rais (Relação Anual de Informações Sociais).
O levantamento mostra uma série de desafios para as brasileiras em diferentes áreas, como a insegurança alimentar, a violência doméstica, a falta de empregos e a insuficiência de serviços e infraestrutura.
“Viver bem é diferente de sobreviver. É por isso que o IMG tem uma tese objetiva: olhar para os aspectos observáveis da vida das mulheres, para podermos garantir condições de vida adequadas e dignas, com acesso a serviços e direitos”, afirma Luciana Sonck, mestre em planejamento territorial e diretora-executiva da Tewá 225.
Foram consideradas sete dimensões: saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, proteção social, infraestrutura e mobilidade, distribuídas entre 17 indicadores. Cada indicador foi pontuado em uma escala de 0 a 100, em que os resultados mais altos indicam condições mais favoráveis para a vida das mulheres, parâmetro semelhante ao utilizado no IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal).
“Como os desafios variam de acordo com cada território, o índice é aberto no nível municipal, permitindo retratar de forma customizada o desafio enfrentado por cada localidade”, completa.
A metodologia, semelhante à da ONU (Organização das Nações Unidas), mostra um descompasso entre o crescimento urbano e as condições de vida das mulheres. Enquanto em 2024 o Brasil ingressou pela primeira vez na faixa de “muito alto desenvolvimento humano”, com IDHM equivalente a 80,5 pontos em uma escala de 0 a 100, o IMG registrou média nacional de 50,60 quase 30 pontos mais baixo.
“Não é possível identificar, apenas por essa comparação, um grupo único que esteja se beneficiando. O que os dados permitem afirmar é que as mulheres estão ficando para trás. O desenvolvimento existe, mas seus benefícios não estão sendo direcionados na mesma proporção, às mulheres”, observa.
De acordo com ela, o índice permite concluir que nenhuma cidade oferece condições plenas para as mulheres porque nenhum município ultrapassa 70 pontos no IGM, nota de corte para um desempenho considerado alto ou muito alto.
Nove em cada dez municípios brasileiros estão concentrados entre 40 e 60 pontos. A cidade com maior pontuação é Águas de São Pedro, no interior de São Paulo, com 67,6. Já o pior desempenho é de Uiramutã, em Roraima, com 28,14 pontos.
As melhores cidades no IMG se concentram no Sul e Sudeste 5 em São Paulo, 4 no Rio Grande do Sul e 1 em Santa Catarina, enquanto Norte e Centro-Oeste reúnem os piores resultados.
Entre as capitais, Curitiba lidera, com IMG de 65,08, seguida por Florianópolis (64,11), Belo Horizonte (61,18), São Paulo (60,82) e Porto Alegre (60,04). Cinco das quatro capitais com os menores resultados estão na região Norte. Boa Vista tem o menor IMG, com 50,29 pontos, seguida por Manaus (50,81), Porto Velho (51,41) e Macapá (52,41). Maceió, no Nordeste, registra 53,08 pontos.
Os menores resultados concentram desigualdades raciais e territoriais, em que mulheres negras e indígenas são mais afetadas. Municípios com menos de 40 pontos são majoritariamente da região Norte, onde vivem 44,48% dos 1,69 milhão de indígenas do país e 67,2% da população é parda.
Em 87,18% dos municípios brasileiros, pelo menos 1 das 7 dimensões registra menos de 30 pontos. A participação política (29,59 pontos na média nacional) e o acesso à saúde (30,42 pontos) são os desafios mais frequentes enfrentados pelas mulheres nos municípios, afetando 9 de cada 10 cidades.
A participação local é baixa: 68,70% dos municípios não têm Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, 726 não elegeram vereadora e 526 reúnem ambas as ausências. O Nordeste tem média de 38,17 pontos, ante 22,14 no Sudeste.
Segundo a socióloga Edilza Sotero, os conselhos representam a participação popular. “A existência deles muitas vezes está atrelada a políticas públicas e de transferência de recursos para a prefeitura”, afirma ela.
Já a ausência de vereadoras reflete a política brasileira, em que a presença feminina é exceção em todas as esferas da representação, segundo ela.
Já no âmbito da saúde, mulheres enfrentam diferentes barreiras em cada etapa da vida. A região Sul aparece com a melhor média regional, com 37,29 pontos, e a Norte com a pior, 20,51 pontos.
Os pesquisadores apontam que os dados sobre segurança pública e violência exigem cautela na análise, uma vez que muitas cidades deixam de registrar ou documentam incorretamente casos de estupro, feminicídio e violência contra a mulher.
Embora tenha registrado a melhor média nacional do índice, com 91,88 pontos, essa é também a área em que a falta de dados aparece de forma mais evidente. No levantamento, 27% dos municípios (o equivalente a 1.480 cidades) não registraram nenhum caso de feminicídio nos últimos cinco anos.
Também há ausência de registros de estupro em 591 municípios e de violência doméstica em 84 deles.