Plataformas de jogos online, como Discord e Roblox, podem funcionar como uma porta de entrada para que jovens avancem de trapaças e pirataria para crimes mais graves, segundo o delegado Sérgio Luiz Oliveira do Santos, de repressão a crimes cibernéticos de Pernambuco e pesquisador de cibersegurança no Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR).
Ele afirma que o ambiente dos games pode operar como uma espécie de incubadora para práticas de cibercrime. Na avaliação do delegado, o caminho costuma começar com tentativas de burlar regras, piratear jogos ou roubar itens virtuais, e pode evoluir para monetização ilícita e até fraudes bancárias. Entre os crimes mais sofisticados, ele cita golpes envolvendo PIX, boletos e criptomoedas.
O tema aparece em um cenário em que os jogos online também são espaços de socialização para jovens. A Pesquisa Game Brasil de 2025 aponta que 36,5% das pessoas entre 16 e 30 anos no Brasil jogam online e que, entre elas, 82% dizem que os games são a principal plataforma de entretenimento. Segundo o texto, o consenso entre pesquisadores é de que os jogos online já são uma fonte importante de socialização nessa faixa etária.
Sérgio Luiz Oliveira do Santos também mapeou o perfil atual dos criminosos virtuais no Brasil. Segundo ele, em geral são homens jovens, de classe média baixa, nativos digitais, com idades entre 18 e 30 anos. Apesar da familiaridade com o mundo digital, o delegado avalia que o domínio tecnológico costuma ser básico. Ele cita o uso de ferramentas prontas, como kits de phishing e painéis de controle comprados em fóruns da internet, além de falhas na tentativa de esconder a própria identidade.
O delegado também chama atenção para a exposição dos autores dos crimes nas redes sociais, quando passam a ostentar mudanças no padrão de consumo, como carros caros, festas e novos relacionamentos, muitas vezes com registros datados, geolocalizados e etiquetados.
No ambiente dos jogos, a venda de acessórios e habilidades virtuais também é citada como prática comum para ampliar lucros com entretenimento. Bruno Vilela, usuário da plataforma Discord, relata exemplos como as skins do Counter Strike, que podem ser trocadas e, em alguns casos, ter valores muito altos. Ele afirma ainda que é comum a tentativa de trapacear nos games, seja por meio de programação, seja pelo hackeamento de contas de outros usuários.
Para o delegado, o controle parental é decisivo para evitar o aliciamento de crianças e adolescentes. Ele cita o Estatuto Digital da Criança e Adolescente, conhecida como Lei Felca, que estabeleceu restrições e controles mais rígidos sobre conteúdos e interações virtuais de menores de idade. Ainda assim, reforça que pais que não monitoram os filhos podem não perceber o avanço desse tipo de abordagem no ambiente digital.
“Eles não nascem cibercriminosos. Eles foram cultivados no submundo digital, onde a linha entre trapaça e crime foi se tornando indistinta”, disse o delegado.