O governo federal tem acelerado o “kit reeleição”, um pacote de gastos públicos com destino eleitoral que promete pressionar ainda mais a inflação em 2026. Mirando outubro, esse conjunto de medidas já soma quatro anúncios nos últimos 30 dias, e novos devem sair até 4 de julho, quando começam a vigorar as regras de conduta do período eleitoral. Ao todo, são quase R$ 190 bilhões — ou 1,4% do PIB.
Os principais componentes do kit são:
- Reforma do IRPF: isenções e descontos que injetam R$ 33,5 bilhões no bolso das famílias.
- Crédito subsidiado para motoristas de aplicativos e taxistas: linha de financiamento com aporte do BNDES, totalizando R$ 30 bilhões.
- Novo consignado para trabalhadores do setor privado: estimativa de R$ 28 bilhões.
- Desenrola 2.0: segunda fase de renegociação de dívidas, liberando R$ 22 bilhões.
- Programa Brasil Soberano: crédito subsidiado para empresas, R$ 21 bilhões.
- Programas “Move Brasil 1 e 2”: financiamento para renovação de frotas de caminhões e ônibus, R$ 20,5 bilhões.
- Setor imobiliário e construção: novo crédito imobiliário (R$ 10 bilhões), Reforma Casa Brasil (R$ 9,5 bilhões), ampliação do Minha Casa, Minha Vida (R$ 8 bilhões) e a iniciativa “Constrói Mais Brasil”.
- Subsídios diretos: Luz do Povo (R$ 4,5 bilhões) e Gás do Povo (R$ 1,7 bilhão).
A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a valorização do salário mínimo, por sua vez, já impulsionaram o consumo das famílias. No primeiro trimestre, o crescimento foi de 1,1%, o maior em um ano. Para Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, o dado confirma a força da demanda doméstica.
Bianca Lima e Rodolfo Margato, analistas da XP Investimentos, avaliam que o impacto das medidas tende a ser inferior aos valores divulgados porque as operações de crédito em 2026 não devem utilizar todo o volume de recursos. “Ainda assim, uma parcela relevante deve se traduzir em maior consumo e investimento; logo, em aumento do PIB de curto prazo”, dizem.
O resultado é um choque frontal com o Banco Central (BC), que mantém a Selic em terreno restritivo para conter a inflação. De um lado, a autoridade monetária aperta. Do outro, o Palácio do Planalto abre as torneiras. E a conta chegará ao bolso do consumidor, na forma de inflação, em 2027, independentemente de quem vencer as eleições.
Ao injetar R$ 190 bilhões por meio do “kit reeleição”, o governo amplia artificialmente os gastos com bens e serviços na economia, pressionando a inflação. Ocorre que a inflação de serviços já roda perto de 7% e a base inflacionária está pressionada por múltiplas frentes.
Os pesquisadores André Braz e Matheus Dias, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirmam que a inflação brasileira tornou-se multifatorial e resistente em 2026, acumulando 4,39% em 12 meses.
“A desaceleração é lenta devido à pressão conjunta de serviços, preços administrados, câmbio e derivados de petróleo, afetando toda a cadeia produtiva”, comentam. Ainda mais: o processo de desinflação deixou de ser homogêneo. “Enquanto alguns grupos aliviam, outros impedem uma queda mais rápida do índice cheio”, sintetizam os pesquisadores.
Kit reeleição é estímulo indesejado pelo BC
A inflação no atacado voltou a ganhar força em abril. O impulso se deve ao repasse do aumento no custo da energia fóssil, com avanço de 47,23% em petróleo e gás — o acumulado em 12 meses chega a 31,51%.
Segundo os pesquisadores do Ibre, a pressão sobre o petróleo vazou para outros produtos. A alta atingiu etapas mais avançadas da cadeia industrial que não pareciam diretamente vinculadas ao barril de petróleo — como embalagens, tintas, resinas, asfaltos e materiais de construção.
Da mesma forma, itens regulados — energia elétrica, combustíveis e planos de saúde — saltaram 6,12% em 12 meses, minando a queda do índice geral de preços. A energia deixou de ser um choque pontual associado ao risco hidrológico e passou a desempenhar papel mais estrutural em um contexto de demanda crescente por eletrificação.
Data centers, veículos elétricos, expansão da infraestrutura digital e eletrificação industrial têm ampliado de forma persistente a demanda por eletricidade. Em maio, a bandeira tarifária já era amarela.
A soma desses vetores — petróleo, energia e serviços — pressiona a inflação e força o Banco Central a manter a Selic elevada, como explica Sara Paixão, analista de macroeconomia da Invest Smart XP. Na avaliação da analista, os estímulos do “kit reeleição” tendem a reforçar essas pressões inflacionárias.
Para o professor Rodrigo Simões, da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP), o problema é que o Banco Central combate a inflação pelo lado dos juros, enquanto a política fiscal e parafiscal estimula consumo e crédito. “Isso tende a manter a Selic alta por mais tempo”, pontua.
Simões ainda conecta a dinâmica ao calendário eleitoral. “No ciclo eleitoral, você sempre tem expansão fiscal. Por quê? Porque são os estímulos de curto prazo. Porque, em ano de eleição, você trabalha com a memória de curto prazo do eleitor”, explica.
Entre os efeitos práticos dessa dinâmica estão a inviabilidade de projetos de longo prazo, a disparada no custo de capital próprio das empresas e a asfixia da tomada de crédito privado. Simões estima que “a taxa de juros com menos de dois dígitos no Brasil ocorrerá somente a partir de 2028 ou 2029”.
O PIB já reflete essa pressão: por um lado, cresceu 1,1% no primeiro trimestre frente ao anterior, a segunda maior taxa para o período em 16 anos, segundo o IBGE. O crescimento anual, porém, registrou a quarta queda seguida e está em 2%, o menor em cinco anos. Carlos Lopes, economista do BV, considera o resultado positivo, mas ressalva que o nível de atividade mantém a preocupação do BC em relação à inflação em grau elevado.
Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, os dados mostram uma economia acelerando devido aos programas aprovados neste início de ano. Além disso, há uma reação à desaceleração do último trimestre de 2025 que, segundo ele, “poderá gerar preocupação para o Banco Central, que deverá manter cautela na política monetária”.
A ressaca de 2027: uma herança eleitoral em formação
Sobre o início do próximo mandato, Simões avalia que quem assumir herdará uma condição difícil. Nesse cenário, três frentes se desenham:
- Dívida pública pressiona os juros: a trajetória da dívida bruta do governo passou de 71,1% do PIB em 2022 para 78,6% em 2025, com expectativa de que chegue a algo próximo de 88% até 2027. A tendência eleva o retorno exigido pelos investidores para financiar o Tesouro, mantendo os juros altos.
- Orçamento engessado: a rigidez das despesas obrigatórias atingiu seu ápice. Simões afirma que mais de 95% do orçamento corresponde a despesas nas quais não se pode mexer, deixando apenas 5% livres para políticas sociais e investimentos.
- Precatórios e a maquiagem fiscal: a inclusão parcial do pagamento de precatórios — dívidas do Estado já reconhecidas pela Justiça, sem possibilidade de recurso — na meta do resultado primário demonstra a distorção das estatísticas públicas. “Se incluirmos as despesas que estão fora do novo arcabouço, a expectativa é que tenhamos um déficit de 0,4% do PIB este ano”, aponta Sara Paixão, o que contraria a tese governista de conformidade fiscal.
Três cenários e uma certeza com o “kit reeleição”: inflação acima da meta
Os pesquisadores do FGV Ibre projetam que, pelo menos até 2028, o cenário para os preços promete ser complexo. Eles sinalizam três possibilidades:
- Cenário otimista: condicionado à estabilização do petróleo abaixo de US$ 100 por barril, câmbio em R$ 4,50 e ausência de choques climáticos adversos. Nesse contexto, a inflação encerraria 2026 em 5%, declinando para 4,2% em 2027 e 4,1% em 2028.
- Cenário base (o mais provável): assume petróleo nos patamares atuais, câmbio por volta de R$ 5,00 e mercado de trabalho apertado. O IPCA cravaria 5,2% em 2026, com desinflação lenta para 4,7% em 2027 e 4,1% em 2028.
- Cenário pessimista: combinação de petróleo caro, tarifas de energia em elevação, resiliência da inflação de serviços, clima adverso e desancoragem das expectativas de mercado devido ao temor fiscal de 2027. Nesse quadro, o IPCA seria arrastado para 5,45% em 2026, recuando para 5,1% em 2027 e 4,15% em 2028 — ainda assim exigindo juros mais elevados por período prolongado.
Em qualquer deles, o IPCA de 2026 terminará acima do centro da meta, de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. A credibilidade da política monetária do BC — materializada na manutenção persistente da Selic em terreno restritivo — torna-se, de acordo com os especialistas, o único muro de contenção entre o país e a desordem financeira.