O setor brasileiro de energia eólica vive sua maior crise e está diante de uma enorme oportunidade, na visão de Elbia Gannoum, presidente-executiva da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).
A oportunidade está no setor offshore, que produz energia a partir de turbinas eólicas instaladas em ambientes marinhos, e que ainda não entrou em uso comercial no Brasil. “Donald Trump quebrou vários contratos nessa área, o que gerou uma oportunidade de mercado para outros países”, disse Gannoum à reportagem.
No fim do ano passado, o governo Trump suspendeu as concessões de todos os grandes projetos de energia eólica offshore, citando preocupações com a segurança nacional.
Gannoum esteve em Lisboa na sexta-feira (17) para uma reunião no Conselho Global de Energia Eólica (GWEC, na sigla em inglês), sediado na capital portuguesa. A ocasião serviu para apresentar na entidade a CEM (Coalizão Eólica Marinha), que reúne empresas e organizações brasileiras ligadas a projetos futuros em offshore, entre elas a Abeeólica.
“É um setor que pode impulsionar várias cadeias industriais no país”, disse Roberta Cox, diretora-presidente da CEM -referindo-se, entre outras coisas, à construção e reposição de equipamentos de turbinas eólicas.
Nesta segunda-feira (20), o GWEC divulgou os números de seu relatório anual. O levantamento apontou um crescimento recorde na geração de energia eólica no mundo -onshore e offshore- com a instalação de 28,4 mil novas turbinas em 57 países diferentes, o que provocou um acréscimo de 165 GW (gigawatts).
A maior responsável por essa expansão foi a China, que contribuiu sozinha com 120 GW.
No caso do Brasil, se a oportunidade está na retração temporária dos Estados Unidos, a crise está na área de eólicas onshore, geradas por turbinas eólicas instaladas em terra. O setor, que já responde por cerca de 16% da energia gerada no país, enfrenta dificuldades por causa do excesso de energia solar no sistema em alguns momentos do dia. Na ausência de demanda, o operador do sistema solicita o desligamento das turbinas, fenômeno conhecido como “curtailing”.
“Isso gerou um prejuízo de cerca de R$ 5 bilhões em três anos às empresas que investiram no Brasil”, diz Gannoum. Ela cita a nova lei que aguarda regulamentação -15269/2025- como algo fundamental para gerar mais segurança jurídica para os investidores. A ideia é que a regulamentação dê às empresas garantias contra os prejuízos do “curtailing”.
Essa segurança jurídica é fundamental para que o mercado offshore possa deslanchar no Brasil, visto que se trata de um investimento de longo prazo. “Entre estudos de viabilidade e de impacto ambiental, além da própria construção das turbinas, o processo pode levar de oito a dez anos”, diz Roberta Cox. “O impacto ambiental existe, mas ele é incomparavelmente menor que o de uma plataforma de petróleo”, afirma a diretora-presidente da CEM, que já ocupou cargos no IBAMA.
No espaço europeu, a Espanha lidera na geração de energia eólica onshore. A liderança no offshore está com o Reino Unido, que começou a investir nesse tipo de energia ainda nos anos 1990. “Escolheu-se esse caminho porque o país é superpovoado e havia pouco espaço em terra para construir turbinas eólicas”, disse o inglês Ben Backwell, CEO do Conselho Mundial de Energia Eólica (GWEC). “Foi um bom investimento porque, com a nova geopolítica mundial, os países que têm mais renováveis enfrentam menor oscilação nos preços da energia”.
Ele cita, no espaço europeu, os exemplos da Espanha, de Portugal e dos países nórdicos, além do Reino Unido -onde as renováveis chegam a responder por metade da matriz elétrica, com as eólicas offshore chegando, em alguns momentos, perto de 20%. Esses países, segundo Backwell, enfrentaram melhor a turbulência com os preços do petróleo. O contraponto seria a Itália, onde o custo da energia disparou.
“Do lado oriental do planeta a China lidera a produção de offshore, não tem para ninguém”, diz Elbia Gannoum. “Com a retração nos Estados Unidos, no entanto, temos o potencial de liderar do lado ocidental”.
Sem ter iniciado ainda a pesquisa e o licenciamento da energia eólica offshore, o Brasil já tem cerca de 90% de sua matriz elétrica em renováveis, e cerca de metade da matriz energética como um todo -ainda há enorme dependência de combustíveis fósseis, por exemplo, na frota de veículos.
Além de movimentar setores exportadores de turbinas, o Brasil poderia, na visão de Gannoum, se tornar referência em hidrogênio verde, produzido a partir do excedente de energia eólica offshore. “As possibilidades são muitas. Temos que aproveitar esse momento”, diz a presidente-executiva da Abeeólica.
Gannoum e Cox seguiram de Lisboa para Madri, onde participam, entre 21 e 23 de abril, do encontro anual da WindEurope, a principal associação da indústria eólica na Europa.