O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG) afirmou à reportagem nesta segunda-feira (13) que a investigação da Polícia Federal contra ele para apurar uma possível ingerência ilícita no direcionamento de emendas é uma operação política. Ele negou ter envolvimento em supostos desvios dos recursos.
“Eu recebi as sugestões [de emendas], encaminhei para o partido e aí o partido resolveu encampar através do líder da bancada [na época, Gilberto Abramo], que por acaso é deputado de Minas. Foi assim que se deu”, afirmou.
A investigação da PF resultou no bloqueio de R$ 6,1 milhões de Cunha por determinação do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, relator de ações na corte que tratam de emendas. A decisão é do dia 6 de julho, mas se tornou pública no domingo (12).
Segundo Cunha, o relatório da PF “é um panfleto político”. “Foi uma operação política da Polícia Federal. Não tenho dúvida. E o Ministério Público não encampou, não concordou. Foi contra a opinião do Ministério Público”, disse, em referência à manifestação contrária da PGR (Procuradoria-Geral da República) às medidas adotadas por Dino.
Pré-candidato a deputado por Minas Gerais, ele afirmou que a prática envolvendo as sugestões de envio de recursos a municípios é normal e que recebeu “muito mais” orientações do que as que de fato foram acatadas. Disse, no entanto, não ter controle de execução dos repasses.
“Tudo quanto é prefeito, vai lá, me procura e pede. Eu tenho uns cem prefeitos me pedindo. Prefeito pede tudo. Vereador pede tudo”, disse, citando que Minas Gerais tem mais de 800 municípios. “O problema disso tudo é que se coloca que isso parece que foi um dinheiro desviado para mim. Isso aqui é muito ruim. Não teve desvio nenhum”, completou.
O ex-presidente da Câmara também negou ter sido o beneficiário de supostos repasses irregulares e disse que o objetivo das articulações em Minas é ajudar o partido e suas candidaturas no estado. “Tenho pessoas que vão votar em mim que estou transformando em candidato para aumentar a chapa”, afirmou.
Eduardo Cunha também disse que seus advogados pediram acesso aos documentos do processo no STF e irão recorrer do bloqueio de Dino, citando que não tem esse montante.
“Eu tenho certeza absoluta que esse bloqueio não vai persistir. Até porque não há crime nenhum cometido ali, não há nada. A gente vai mostrar que isso não tem nada, não é a primeira vez que isso acontece. A gente está habituado”, declarou.
No documento enviado ao ministro do Supremo, a Polícia Federal também afirma ter indícios de que o ex-presidente da Câmara atuava como um “vetor relevante” na definição e remanejamento de emendas, utilizando-se da servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como Tuca.
“Tudo indica que Tuca [apelido de Mariângela] contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”, afirma a PF.
Cunha rejeitou as alegações da corporação e disse que a assessora é “extremamente profissional e operacional na decisão que estava tomada”, sem exercer influência no processo. Ele disse ter procurado Tuca porque conhecia a funcionária desde quando ela trabalhava com o então senador Romero Jucá.
“Desde daquela época com o Jucá, eu tinha um relacionamento de tratar as coisas com ela. Então, como eu tinha essa relação com ela, por isso que eu procurei. Ela não fazia nada mais daquilo que não estava programado para ser feito”, declarou.
Em nota, a defesa de Mariângela Fialek afirma que ela atuava de forma “estritamente técnica, apartidária e impessoal”.