São Paulo, 13 – O dólar acentuou o ritmo de alta frente ao real ao longo da segunda etapa de negócios, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior, diante da arrancada dos preços do petróleo, com o aumento das tensões no Oriente Médio, e de declarações duras de um diretor do Federal Reserve.
Embora o avanço da commodity possa se traduzir em melhora dos termos de troca do Brasil, o real não escapa – pelo menos em um primeiro momento – do movimento de redução da exposição de investidores a divisas emergentes, observam operadores.
Com máxima de R$ 5,1403, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,47%, a R$ 5,1323 – interrompendo uma sequência três sessões de queda, em que acumulou desvalorização de 0,86%. A moeda americana recua 0,59% em julho, após avanço de 2,38% no mês passado. No ano, as perdas são de 6,50%.
O head de câmbio da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, observa que a questão do Oriente Médio voltou a pesar sobre o real após o bom humor visto na semana passada, quando a leitura benigna do IPCA de junho desencadeou um rali dos ativos domésticos.
“Apesar do otimismo da semana passada nos mercados, há uma grande preocupação com o comportamento da taxa de câmbio. Vimos um aumento das consultas sobre operações de hedge por parte dos importadores por conta do risco político e fiscal”, afirma Viotto.
As cotações do petróleo renovaram máximas à tarde, com o contrato do Brent para agosto fechando em alta de 9,59%, a US$ 83,30 o barril. Pela manhã, Trump anunciou que os EUA vão assumir o controle do Estreito de Ormuz, com cobrança de pedágio À tarde, autoridades americanas informaram que um bloqueio marítimo aos iranianos terá início na terça-feira, 14, a partir das 17h. Houve também relatos de ataques na região envolvendo Arábia Saudita, rebeldes do Iêmen e o próprio Irã.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY voltou a superar a linha dos 101,000 pontos, com máxima aos 101,288 pontos. As taxas dos Treasuries avançaram, com o retorno da T-note de 2 anos aproximando-se de 4,28 nas máximas do dia.
No início da tarde, o diretor do Federal Reserve Christopher Waller alertou que pode ser necessário aumentar os juros se o núcleo do índice de inflação ao consumidor (CPI, em inglês) de junho – que será divulgado amanhã, 14 – for elevado. Além do CPI, investidores aguardam declarações do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, no Congresso americano na terça e na quarta-feira, 15.
O chefe de estratégia de mercados do banco ING, Chris Turner, observa que o dólar tem apresentado bom desempenho com base na ideia de que o Fed vai subir os juros. “Na ausência de forward guidance, os indicadores terão um papel mais importante para o câmbio”, afirma, em nota, Turner, para quem o Fed não vai apertar a política monetária neste ano.
No caso do real, Turner pontua que, embora a moeda tenha sofrido recentemente com a alta global do dólar, a taxa de câmbio se mantém abaixo do nível de R$ 5,20. “A menos que haja uma escalada ainda maior dos preços do petróleo ou uma grande correção no mercado acionário que aumente a volatilidade, os próximos meses devem favorecer o real diante de juros implícitos de 13% (no Brasil)”, afirma Turner.
Bolsa
A Bolsa brasileira fechou a sessão desta segunda-feira, 13, em baixa. O efeito dos ganhos do petróleo sobre as ações da Petrobras não foi suficiente para evitar a queda do Ibovespa nesta segunda, mas ao menos limitou o estrago causado pelas perdas do setor financeiro, das ações ligadas ao ciclo econômico e da Vale. O nervosismo do mercado foi alimentado pela piora das tensões no Oriente Médio, sobretudo com o risco de fechamento do Estreito de Ormuz, agravada à tarde por relatos de ataques mútuos entre Iêmen e Arábia Saudita, que acentuaram os temores com o cenário inflacionário e, consequentemente, com a possibilidade de alta de juros.
A Bolsa chegou a operar brevemente no azul pela manhã, mas o sinal negativo preponderou ao longo da sessão, diante do estresse com o quadro internacional, num dia de agenda doméstica esvaziada. O Brent, referência para a Petrobras, para setembro, fechou em alta de 9,5%, a US$ 83,30 o barril, o que ajudou as ações da companhia a subirem em torno de 3%.
Pela manhã, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o país queria tomar o controle do Estreito de Ormuz, que responde por 20% do fluxo global de petróleo, e cobrar uma taxa sobre as cargas transportadas para custear a segurança da navegação. À tarde, ele informou bloqueio a portos e áreas costeiras do Irã a partir de terça-feira, 14, o que Teerã considerou uma agressão direta e prometeu responder. Além disso, houve relatos de que a Arábia Saudita interceptou ataques de retaliação do Iêmen, disparados contra regiões sul do país e, ao mesmo tempo, relatos de quatro explosões em Bandar Abbas, cidade da principal base da Marinha do Irã.
A leitura do mercado é de que a retomada das negociações sobre o acordo de paz está ameaçada, o que deve prolongar a volatilidade nos preços do petróleo. Para Max Bohm, estrategista-chefe da Nomos, o mercado já está precificando novamente o fechamento do Estreito. “O risco de inflação volta a colocar medo nos mercados, com juros pra cima e Bolsa pra baixo”, resumiu Bohm, com a ressalva de que, se não fosse o desempenho das petroleiras, o índice poderia ter caído mais de 2%. Além de embalar o avanço de Petrobras ON (+3,44%) e PN (+2,55%), o petróleo também favoreceu Prio ON (+3,16%), além de Petrorecôncavo (+0,78%).
Mesmo com a ponderação de que o atual nível do petróleo ainda está distante dos US$ 100 alcançados durante a guerra, a retomada da trajetória altista da commodity é vista como um elemento de cautela para a ação dos bancos centrais. “A inflação, que já estava dando sinais de arrefecimento tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil, pode voltar a acelerar e aí bancos centrais podem não se sentir confortáveis em cortar juros”, afirma Bohm.
Também nesse sentido, Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, destaca “a movimentação significativa da abertura dos DIs” com a possível reescalada do petróleo. “Essa elevação dos DIs impacta diretamente a maior parte dos setores de Ibovespa e principalmente empresas mais alavancadas”, afirma.
Entre os bancos, Itaú Unibanco PN caiu 1,76% e Bradesco PN, -0,48%. Também pesou sobre o índice o recuo de 1,79% de Vale ON, em reação às quedas do minério de ferro em Dailan e Cingapura. O Ibovespa terminou em queda de 1,20%, aos 175.739,08 pontos. Na máxima, atingiu 178.154 pontos, alta de 0,16%, e, na mínima, 175 567 pontos (-1,29%). Em julho, acumula alta de 2,16% e, no ano, de 9,07%.
Juros
A reescalada das tensões no Oriente Médio provocou alta de quase 10% do petróleo e pressionou as curvas de juros globais nesta segunda-feira, 13, levando a reboque o mercado de renda fixa local. As taxas futuras encerraram a sessão renovando máximas, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar que país vai atacar o Irã com “muita força” a partir da noite desta segunda, e na terça-feira 14.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) de janeiro de 2027 subiu de 13,904% no ajuste de sexta-feira a 13,955%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,23%, de 14,009% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 saltou a 14,38%, vindo de 14,209%.
Nesta segunda, os EUA oficializaram o bloqueio marítimo ao Irã. A medida, que terá início às 17h (de Brasília) desta terça-feira, se somou a afirmações de Trump de que o país vai assumir o controle do Estreito de Ormuz e deve cobrar um “pedágio” na rota. Com interpretações divergentes dos dois lados de como deve ser operada a passagem e novos ataques na região, os temores inflacionários voltaram aos holofotes e reverberaram sobre os DIs futuros.
Head de renda fixa da Empiricus Research, Laís Costa pondera que a expectativa de que o conflito tenha uma resolução em breve não foi totalmente descartada, dado que o barril do Brent está na casa de US$ 83. “Se tivesse ido por água abaixo, estaria mais estressado que isso”, disse. Costa observa que, embora não seja possível substituir totalmente o estreito, a criação de rotas alternativas e a interrupção de compras da commodity da China equilibraram melhor oferta e demanda. “Esses pontos dificultam que o petróleo volte a explodir acima de US$ 100.”
O cenário-base do banco Pine para o conflito permanece de “confrontação limitada”, intercalada por negociações, uma vez que os dois lados têm razões políticas e econômicas para evitar uma guerra prolongada. “Ainda assim, o risco de erro de cálculo aumentou sensivelmente”, alerta Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Pine.
De acordo com Oliveira, a disputa deixou de se restringir à possibilidade de fechamento de Ormuz e passou a envolver quem terá o controle operacional da rota. Em sua visão, enquanto não houver garantias verificáveis de livre navegação, o mercado deve seguir embutindo um elevado prêmio geopolítico aos preços do petróleo.
O recente salto do óleo não alterou a perspectiva de que o Banco Central continuará o ciclo de calibração da Selic em agosto, aposta que está praticamente “sacramentada”, diz Costa, da Empiricus. Nesta tarde, a precificação da curva futura apontava 22 pontos-base de redução da taxa na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ou seja, 88% de chance de corte, contra apenas 12% de manutenção nos atuais 14,25%.
Para o encontro de setembro do colegiado, porém, os 6 pontos-base de queda precificados na última sexta-feira caíram marginalmente nesta segunda, para -5 pontos, cita Costa. “Isso é um pouco de prêmio. O cenário para setembro é mais de manutenção”, disse.
No início da tarde, declarações ‘hawkish’ do diretor de Federal Reserve (Fed) Christopher Waller também elevaram os rendimentos dos Treasuries e, em menor medida, os DIs. Waller afirmou que pode ser necessário aumentar juros se o núcleo do índice de inflação ao consumidor (CPI, em inglês), a ser publicado na terça, for alto, acrescentando que está preocupado com o ritmo em que o núcleo tem aumentado em 2026.