Casas Bahia fecha portas de quase 300 lojas, e demite 3 mil funcionários no mês de agosto

Em agosto de 2026, o grupo Casas Bahia demitiu cerca de 3.000 funcionários e fechou aproximadamente 300 lojas. Essa medida é o ponto central do pedido de recuperação judicial protocolado pelo varejista na Justiça de São Paulo, na intenção de renegociar dívidas que somadas chegam a R$17,3 bilhões.

Centenas de colaboradores foram surpreendidos com o desligamento da empresa. Em Brasília, unidades antigas como a do Conjunto Nacional e a de Taguatinga amanheceram, no dia 14 de agosto, de portas permanentemente trancadas. Para quem perdeu o emprego ainda há muita incerteza sobre o recebimento de seus direitos, já que a empresa declarou dever R$754 milhões em direitos trabalhistas.

Essa crise não é um evento isolado, mas sim o efeito borboleta de um processo de encolhimento iniciado anos antes. Em 2023, o intitulado “Plano de Transformação” resultou na demissão de aproximadamente 8.600 trabalhadores e no fechamento de 55 lojas. Naquela época a estratégia tentava aumentar a produtividade de 10.000 vendedores e ao mesmo tempo enxugar custos, mas o alívio financeiro durou pouco diante da grande dívida.

O peso do juros

De acordo com o professor de mercado financeiro da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo, a principal vilã dessa história é a taxa de juros (Selic) elevada, atualmente em 15% ao ano. Na hora de castigar os juros altos não perdoam, primeiro ele encarece o preço final dos produtos financiados no carnê, depois deixam o capital de giro da empresa muito caro para ser mantido.

“Não só para o consumidor isso é ruim, porque você encarece bastante o preço dos produtos, sobretudo aqueles financiados, mas também para as empresas. O capital de giro que ela necessita para fazer todo o movimento financeiro fica bastante caro”, explica Bergo.

O economista revela que a recuperação judicial é um recurso para empresas ganharem um fôlego e reajustarem suas estruturas. “A recuperação judicial se aplica em situações como essa da Casas Bahia, em que há uma corrida por parte dos fornecedores e não há uma condição financeira de saldar os compromissos. Então, você pede uma recuperação para ganhar um tempo, para ganhar um fôlego, para ajustar toda a sua estrutura. É o caso de você fechar lojas, mandar pessoas embora”, afirma.

A situação financeira que foi revelada à justiça, mostra que a rede deve mais do que todas suas posses somadas. O patrimônio líquido da Casas Bahia atualmente está negativo em R$8,1 bilhões. Além da pressão imposta pelo juros, o grupo aponta que os investimentos pesados em tecnologia, feitos desde 2019, não geraram retorno a tempo de suportar os choques econômicos.

Garantias para quem perdeu o emprego

Para Lorena Paiva, advogada trabalhista do escritório Ferraz dos Passos Advocacia e Consultoria, o fechamento inesperado de unidades gera uma obrigação imediata de reparação. “A demissão imediata, sem o cumprimento de aviso prévio, obriga que o direito violado seja indenizado. Logo, os dias a que o empregado tem direito em razão da demissão devem ser pagos, como forma de reparação pela não fruição”, esclarece a advogada.

Lorena também destaca que dispensas coletivas devem ter a participação de entidades representativas. “O Tema 638 do STF prevê que, para a dispensa em massa de trabalhadores, deve haver intervenção sindical prévia. Portanto, é obrigatório o diálogo com o sindicato, durante as demissões em massa, visando mitigar os danos”, afirma a especialista.

Se a empresa declarar a falência, os trabalhadores terão prioridade no recebimento de seus direitos, porém o pagamento se limita a 150 salários mínimos por pessoa.

A insegurança de quem ficou

E para os mais de 20.000 empregados, que trabalham nas mais de 700 lojas que estão abertas, resta um sentimento de insegurança. Um funcionário de uma loja ainda ativa, que preferiu não se identificar, relata preocupação com colegas que não possuem outras qualificações. “Tem muitas pessoas que realmente precisam do emprego, até por não terem alternativas, e elas vão perder a única fonte de renda”, desabafa o colaborador.

O funcionário relembra o trauma vivido em outra empresa, mas que se assemelha ao atual cenário da Casas Bahia, o que ajuda a agravar o clima de instabilidade. “Ela [a outra empresa] entrou em recuperação judicial tem 5 anos, tá na justiça e eu não recebi nada”, afirma sobre seu emprego anterior. Nas lojas que ainda seguem abertas o número reduzido da equipe, em média 12 funcionários, trabalham com medo de novos cortes.

O impacto social

Desemprego em massa gera um impacto profundo na vida de milhares de famílias, que exige que os profissionais busquem novas saídas. Para Bergo, a crise das grandes redes indica uma mudança no “pêndulo do mercado”. “Não tenho a menor dúvida que essas empresas mais tradicionais precisam rever toda a sua estrutura, todo o seu plano de negócio, e isso muda realmente o que a gente chama de pêndulo do mercado de trabalho”, analisa o economista.

O sentimento de insegurança também atinge os funcionários que ainda trabalham nas lojas que seguem abertas. O plano da marca requer a continuidade do fechamento das unidades que não dão lucro, o que reforça o clima de instabilidade. “Esses trabalhos que a gente encontra de vendedor, de pessoal de loja, isso vai sendo modificado em função das novas tecnologias, e é preciso que as pessoas se preparem para esse momento”, alerta César Bergo.

O parecer da Casas Bahia

Em nota, a diretoria do Grupo Casas Bahia pontua que a recuperação judicial é um passo necessário para preservar a operação. No entanto, a empresa argumenta que, embora tenha melhorado nos últimos anos, a evolução não foi suficiente. A justificativa do grupo sobre o fechamento de quase 300 lojas, é que esse foi um meio necessário para a adequação do grupo à nova realidade econômica do Brasil.

A estratégia da rede agora é operar uma empresa menor, mais seletiva e focada em atividades que gerem retorno rápido para o caixa. A varejista também informa que continuará com atendimento em suas lojas físicas e canais digitais. No momento, eles esperam que a renegociação da dívida de R$17,3 bilhões garanta a continuidade do negócio.

Essa recuperação judicial dá um novo ânimo para a empresa mostrar para os seus credores que ainda pode sobreviver. A Casas Bahia pediu à justiça a liberação de R$750 milhões, que estavam guardados, para que consigam pagar as despesas atuais, como salários e energia. Sem esse dinheiro, o grupo assume que o caixa não sustentaria por muito tempo, o que torna inviável o funcionamento da rede.

Para chegar a uma reestruturação de sucesso, o grupo deve convencer seus credores que o novo plano é viavel, ainda mais no atual cenário de juros a 15%. Enquanto isso, o novo pêndulo do mercado continua a ditar um ritmo rápido para um desmonte que está longe do fim.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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