São Paulo, 25 – Após operar em ligeira queda ao longo da tarde, o dólar acelerou o ritmo de baixa na reta final dos negócios desta terça-feira, 25, em sintonia com o aprofundamento das perdas da moeda americana no exterior e com tombo de 5% do petróleo no pregão eletrônico, após circularem notícias de que Estados Unidos e Irã teriam chegado a um novo acordo de cessar-fogo.
Com mínima de R$ 5,1394 nos últimos minutos da sessão, o dólar à vista terminou o dia com desvalorização de 0,25%, a R$ 5,1404.
Mais cedo, o ambiente já era de apetite ao risco, com a perspectiva de que os americanos poderiam recuar de eventuais sanções econômicas a Teerã em troca da liberação do Estreito de Ormuz. As cotações do petróleo fecharam em queda superior a 3% na sessão regular de olho na notícia de que os governos de Irã e Omã concordaram em estabelecer um corredor marítimo temporário em Ormuz e promover a remoção de minas.
Apesar do ambiente externo de enfraquecimento da moeda americana, o dólar andou praticamente de lado por aqui ao longo da tarde, com leve viés de queda, antes de se firmar em terreno negativo no fim da sessão. Com agenda de indicadores esvaziada e sem novidades na corrida presidencial, investidores se limitavam a promover ajustes finos de posições de olho em eventual entrada de capital externo para a bolsa.
“Temos um contexto de menor aversão ao risco no exterior e acomodação do mercado global de renda fixa. Também há retorno de fluxo, mesmo que moderado, ao Brasil, com compra de ações pelos estrangeiros”, afirma o economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho.
Do pico de R$ 5,2216, no último dia 18, para cá, o dólar caiu 1,55% frente ao real, mas ainda acumula valorização de 1,38% em agosto, atribuída ao aumento da busca por hedge cambial e à saída de investidores estrangeiros da bolsa nas últimas semanas. Investidores teriam reduzido a exposição a ativos brasileiros em razão da proximidade da corrida eleitoral, cujo desfecho pode significar uma guinada na política econômica.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY recuava 0,12% por volta das 17h, aos 98,874 pontos, após mínima de 98,863 pontos. O Dollar Index recua mais de 0,90% no mês. As taxas dos Treasuries caíram desde cedo, com o menor risco inflacionário, na esteira do tombo do petróleo e da possibilidade de aumento das recompras de títulos pelo Tesouro americano.
O diretor da Wagner Investimentos, José Raymundo Faria Junior, observa que há um quadro favorável ao real, com fraqueza externa do dólar, sobretudo após o anúncio da recompra de títulos pelo Tesouro dos EUA, melhora dos termos de troca do país e a perspectiva de que a corrida presidencial será acirrada, segundo as pesquisas eleitorais mais recentes.
“Por ora, todo este conjunto de boas notícias está surtindo pouco efeito, já que o real está em torno de 5% distante de sua maior cotação nominal do ano”, afirma Faria Junior, ponderando que, com a correção pela taxa Selic, a menor cotação do dólar no ano, de R$ 4,90 em meados de maio, equivale hoje a aproximadamente R$ 5,08.
Bolsa
O Ibovespa acelerou o ritmo de alta na hora final do pregão desta terça-feira e voltou ao nível dos 174 mil pontos (+1,55%), puxado pelo desempenho das ações da Vale e dos bancos. O principal índice da B3 ganhou um fôlego adicional depois da informação, nos minutos finais da sessão, de que os EUA e o Irã teriam concordado com um cessar-fogo, segundo o veículo de imprensa russo Ria Novosti.
“Realmente, a notícia é a única coisa que puxou o Ibovespa”, afirma Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, reforçando que o mercado já vinha corrigindo a rota depois de uma sequência de quedas que deixaram os preços dos ativos muito baixos. “É mais um acerto de preços.”
Na contramão, os papéis da Petrobras fecharam em queda, em linha com o movimento do petróleo, mas a performance foi neutralizada pelos ganhos da vasta maioria das ações no dia, além das grandes empresas.
Os papéis preferenciais e ordinários da estatal encerraram com quedas perto de 2%, enquanto os índices setoriais indicaram como o bom humor do dia se espalhou entre os setores: o índice ICON, das ações de varejo e consumo, subiu mais de 3%, enquanto o IMOB, das empresas de imóveis e construção civil, avançou quase 4%; o setor de utilidade pública, reunido no UTIL, avançou mais de 2%.
O movimento desta terça, segundo operadores, respondeu a uma maior procura por ativos de risco, tanto no Brasil, quanto no exterior. As bolsas norte-americanas oscilaram de forma mais contida frente ao Brasil, mas a maior procura por emergentes mais uma vez contribuiu para o avanço da renda variável local.
Cada novo sinal positivo em relação ao escoamento do petróleo no Oriente Médio faz com que o ambiente para a inflação seja mais benigno e leva, consequentemente, os estrangeiros a promover ajustes em suas carteiras, impulsionando os grandes papéis da bolsa brasileira.
“De forma geral, os bancos estão puxando o índice para cima e têm sido os principais responsáveis pelo desempenho positivo da bolsa”, afirma Gabriel Mota, analista de renda variável da Manchester Investimentos. “Trata-se de um movimento de respiro, já que o setor bancário acumulava fortes perdas nos últimos dias, não apenas com a saída de investidores estrangeiros do Brasil, mas também com a desvalorização generalizada dos ativos “
Juros
Em um pregão já positivo para a renda fixa, os juros futuros ampliaram a queda e renovaram mínimas intradia em todos os trechos da curva a termo na etapa final da sessão desta terça-feira, 25. O movimento, alinhado ao fechamento da curva dos Treasuries, teve como gatilho notícia da agência russa RIA Novosti de que Estados Unidos e Irã teriam concordado com um cessar-fogo. O tratado, segundo fontes iranianas e paquistanesas, envolveria livre navegação no estreito de Ormuz.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,701%, no ajuste da véspera, a 13,68%. O DI para janeiro de 2029 teve baixa a 14,055%, vindo de 14,174%. O DI para janeiro de 2031 recuou de 14,421% a mínima intradiária de 14,285%.
Sem dados econômicos relevantes na agenda doméstica nesta terça, o movimento de alívio maior ocorreu em linha com o fechamento da curva dos Treasuries, também contando com suporte do dólar bem comportado, ambos favorecidos pelo ambiente global de maior disposição a tomada de risco. Nem mesmo o leilão mais pesado de títulos atrelados à inflação, realizado pelo Tesouro Nacional, interferiu no alívio mostrado pela curva a termo.
O maior vetor para o fechamento das curvas de juros, tanto aqui quanto lá fora, foi a redução de cerca de 3% dos contratos futuros de petróleo na sessão, embalada por notícias mais favoráveis no front da guerra. O contrato do Brent para novembro fechou em US$ 87,27 o barril, com baixa de 3,6%, depois de Irã e Omã acertarem nesta terça a criação de um corredor marítimo conjunto e temporário no Estreito de Ormuz. Além disso, a Al Arabiya informou que os EUA teriam proposto suspender o bloqueio e as sanções ao Irã em troca da reabertura do estreito e do fim dos ataques de aliados de Teerã.
Já mais perto do fechamento da sessão, o recuo da commodity energética acelerou a 5% no pregão eletrônico, fornecendo alívio adicional à curva de títulos norte-americanos e respingando também nos ativos locais. “Hoje [terça-feira, 25] a queda do petróleo chamou atenção”, disse Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, o que, em sua visão, respalda o cenário embutido na curva de juros para a política monetária no curto prazo.
No fim da tarde, a curva apontava 88% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual na reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom), praticamente sem mudanças em relação a segunda-feira. Já a aposta de outra redução no encontro de novembro do colegiado aumentou de segunda para terça, embora siga minoritária, de 20% a 28%.
Segundo Gustavo Danilo, analista de renda fixa da Manchester Investimentos, a leitura da oscilação dos DIs nesta terça-feira é menos de um movimento específico do Brasil e mais de um ajuste global dos mercados. “Temos uma combinação de juros americanos em queda, petróleo recuando e moedas relativamente comportadas, que acaba permitindo também alguma retirada de prêmio da curva doméstica. Sem grandes catalisadores locais na sessão, o mercado brasileiro acompanha esse ambiente externo mais benigno”, comentou.
Por aqui, o Tesouro realizou nesta terça a segunda maior emissão de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) do ano. O volume financeiro de R$ 7,34 bilhões alcançado com a venda dos papéis foi inferior apenas ao da emissão de R$ 8,7 bilhões de 3 de fevereiro, segundo cálculos de Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia. Ainda assim, o certame não gerou maiores impactos sobre a curva de juros.