Um novo “caminho das índias” ganha corpo entre os destinos das exportações das cooperativas brasileiras. Além do tradicional mercado chinês, as Filipinas vêm se destacando na compra de carnes, enquanto a Índia e a Indonésia mostram apetite por algodão, café, óleo de soja e ingredientes para a indústria de alimentos e bebidas.
Além de conquistar e fidelizar esses compradores, o desafio é ampliar o valor gerado pelas vendas internacionais. Isso exige diversificar destinos, avançar no processamento industrial e desenvolver produtos diferenciados para cada mercado.
Em 2025, as cooperativas movimentaram US$ 17,4 bilhões em exportações, com 140 organizações vendendo ao exterior de forma direta ou indireta. O valor correspondeu a 19,7% do faturamento e 10,3% dos embarques do agronegócio brasileiro, segundo o Panorama Exportador do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, do Sistema Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Para Débora Ingrisano, gerente de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB, o próximo passo é combinar essa expansão dos mercados com a oferta de produtos de maior valor agregado. “Na nossa avaliação, os movimentos devem acontecer simultaneamente, mas vemos a agregação de valor como uma frente especialmente estratégica para o cooperativismo brasileiro nos próximos anos”, frisa.
Filipinas lideram oportunidades para carnes brasileiras
Entre os três mercados, as Filipinas se destacam em oportunidades mais concretas para as cooperativas de proteínas animais. Em 2025, o país tornou-se o principal destino da carne suína brasileira, com 392,9 mil toneladas exportadas, alta de 54,5% sobre o ano anterior, conforme dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). As exportações de carne de frango para o mercado filipino também cresceram 15,9% no primeiro semestre de 2026.
A OCB vê espaço ainda para produtos de origem animal com maior grau de processamento, o que pode ampliar a participação das cooperativas em outras etapas da cadeia.
Outro fator favorável ao frango é o reconhecimento, pelas Filipinas, da regionalização das restrições por influenza aviária. A medida limita eventuais suspensões às áreas afetadas, o que dá mais previsibilidade aos embarques. No caso recente da doença de Newcastle numa criação comercial de perus em Nova Itaberaba, no Oeste catarinense, a maioria dos países restringiu temporariamente as importações apenas para aquela região, e não para todo o Brasil, como já aconteceu em episódios sanitários anteriores.
Índia combina demanda por algodão e derivados de soja
Na Índia, o algodão brasileiro é a estrela da vez, com as exportações crescendo mais de 40 vezes em apenas dois anos e superando 350 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), referentes à safra comercial de 2025/2026. O salto se deu por motivos conjunturais (quebra da produção indiana por excesso de chuva), consequente redução de tarifas e aumento da qualidade e competitividade da pluma brasileira.
Café e óleo de soja, principalmente na forma bruta, também aparecem entre as oportunidades. A OCB aponta ainda potencial para cafés especiais e derivados, como forma de diferenciar o produto.
A expansão, porém, depende das condições de acesso. A proteção à produção doméstica e as barreiras tarifárias indianas podem afetar a competitividade de alguns produtos brasileiros, o que exige avaliação específica para cada cadeia.
Indonésia abre espaço para café e ingredientes industriais
Café e algodão vêm ampliando presença no mercado indonésio, segundo a OCB, que também vê perspectivas para a soja e para ingredientes da indústria de alimentos e bebidas. No café, as oportunidades incluem o abastecimento das indústrias locais de torrefação e processamento, além de cafés especiais e derivados.
Entre os desafios estão a concorrência internacional, a certificação halal, as regras específicas para importação de produtos agropecuários, os custos logísticos e a distância geográfica.
A escolha dos destinos depende também das condições de acesso, da competitividade dos produtos e das exigências regulatórias, sanitárias e logísticas. Um dos fatores decisivos para abertura do mercado filipino foi um surto de Peste Suína Africana (PSA), em 2019, que dizimou os plantéis do país, criando a necessidade de importação por questões de segurança alimentar.
“Não existe um único mercado mais promissor”
Para Nailia Franco, advogada da Andersen Ballão Advocacia, diversificar mercados e produtos é uma forma de gestão de risco em um cenário internacional mais instável. Ela avalia que a China segue essencial pela escala e pela demanda, enquanto Índia, Filipinas e Indonésia merecem atenção pelo potencial de crescimento populacional e de diversificação comercial. Japão, Estados Unidos e países europeus são mercados maduros, cujas exigências podem abrir espaço para produtos diferenciados.
“Não existe, portanto, um único mercado mais promissor. A atratividade depende do produto e da combinação entre demanda, crescimento, acesso e requisitos regulatórios, sanitários e logísticos”, diz.
A advogada aponta ainda que a reorganização das cadeias globais de fornecimento pode abrir espaço para o Brasil, mas a conquista desses mercados depende de planejamento e de investimentos em produção, logística, certificações e adequação às regras de cada destino.
Agregação de valor como frente estratégica
Além de ampliar destinos, o cooperativismo busca avançar no processamento e no desenvolvimento de produtos diferenciados, como cafés especiais e derivados, produtos de origem animal mais processados, bebidas, sucos e alimentos para nichos de consumo. A OCB ressalta que as oportunidades variam conforme o produto e o destino, e que isso não significa presença já consolidada nesses países.
Segundo o Panorama Exportador, 48,3% dos bens exportados em 2025 pelas cooperativas apoiadas pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) tinham algum grau de processamento industrial. O indicador se refere a esse grupo, e não ao conjunto das exportações das cooperativas brasileiras.
Para Débora Ingrisano, a agregação de valor passa por processamento, diferenciação, novos produtos e construção de marcas. “O objetivo é avançar para uma inserção internacional mais qualificada, na qual as cooperativas estejam preparadas para posicionar seus produtos de forma competitiva, acessar melhores oportunidades comerciais e ampliar a renda gerada para os cooperados”, explica.
Negociações comerciais podem melhorar acesso aos mercados
A mudança exige preparação técnica e comercial e capacidade de manter oferta competitiva e regular. A organização coletiva da produção, pelas cooperativas, favorece a padronização, a rastreabilidade e a oferta em escala.
O acesso aos mercados asiáticos também depende de negociações comerciais e sanitárias. Em 2025, foram aprovados mandatos para ampliar o Acordo de Comércio Preferencial Mercosul–Índia e para negociar um acordo entre o Mercosul e a Indonésia. Segundo a OCB, as iniciativas podem reduzir barreiras e melhorar a competitividade dos produtos brasileiros, mas os resultados dependem da conclusão das negociações.
Além das tarifas, exigências sanitárias e fitossanitárias, licenças e procedimentos regulatórios podem dificultar a entrada. Superar esses obstáculos exige adequar os produtos às regras de cada destino e planejar os investimentos necessários.
Nailia lembra que mudanças nas regras comerciais e nas relações entre países podem afetar as decisões de empresas e cooperativas, e que a expansão precisa considerar também os riscos de manter os negócios ao longo do tempo.
“Por isso, mais do que apostar em um único destino, o caminho para as cooperativas brasileiras é construir uma carteira de mercados que combine escala, crescimento e valor agregado, preservando mercados consolidados e, ao mesmo tempo, reduzindo dependências”, afirma.
PR, SC e MG lideram panorama exportador
O Paraná ocupa posição de destaque entre as cooperativas apoiadas pela ApexBrasil. Segundo o Panorama Exportador, o estado respondeu por US$ 4 bilhões, ou 43% das exportações do grupo em 2025. Minas Gerais vem em seguida, com US$ 3 bilhões (32,5%), e Santa Catarina, com US$ 1,9 bilhão (21%).
O recorte combina dados das cooperativas apoiadas pela Agência com registros do Sistema OCB. Das 77 cooperativas apoiadas, 74 exportaram em 2025. Os percentuais estaduais se referem a esse grupo, e não ao total das exportações das cooperativas brasileiras.