A Braskem informou nesta segunda-feira (20) que a Novonor (ex-Odebrecht) assinou o contrato para a venda da sua fatia na companhia ao fundo de investimento em participações Shine (Shine I FIP), que é assessorado pela gestora IG4 Capital.
Segundo pessoas a par do negócio, Helcio Tokeshi, sócio da IG4, será o novo CEO da Braskem. O CFO será Carlos Brandão, que foi CEO da Iguá Saneamentos e CFO da Oi. A diretoria jurídica ficará com Camila Tapias, ex-Telefónica. Planejamento e M&A fica a cargo de Luiz Rossato, ex-Magnesita.
Para o conselho, irão Octavio Lopes, sócio da IG4 e ex-presidente da Light e Equatorial, e Hélio Novaes, ex-Alvarez&Marsal. A gestora ainda vai indicar outros nomes independentes.
O contrato assinado deriva do acordo anunciado em dezembro do ano passado, que envolveu a compra pela IG4 de cerca de R$ 20 bilhões em dívidas da Novonor detidos pelos maiores bancos do Brasil e garantidas por ações da Braskem.
A entrada de um novo acionista controlador pode ajudar a melhorar as perspectivas da Braskem, que enfrenta margens apertadas no setor petroquímico e dívidas relacionadas aos danos causados pelas operações de mineração de sal em Maceió (AL). Segundo o balanço de 2025, a dívida líquida da companhia superava os R$ 11 bilhões.
Quando o negócio for concretizado, o fundo Shine deve compartilhar o controle da Braskem com a Petrobras, o segundo maior acionista da empresa, com 47% do capital votante e 36,1% do capital total.
De acordo com fato relevante da Braskem, o Shine assumirá 50,1% do capital votante e 34,3% do capital social total da companhia. Já a Novonor terá sua participação reduzida a uma fatia residual, permanecendo com 4% do capital social total.
“O comprador pretende conduzir, em conjunto com a Petrobras, a reestruturação financeira e operacional da companhia, com a intenção de que a Braskem volte a gerar valor para seus acionistas e para o Brasil”, afirmou o Shine I em correspondência enviada à Braskem e divulgada pela petroquímica.
Ainda na correspondência, o Shine I diz que, “com o auxílio da IG4”, recrutou para ocupar cargos de administração e gestão na companhia “profissionais altamente experientes na administração e na condução de processos de reestruturação de empresas líderes em seus segmentos de atuação, incluindo nos setores de logística e de água e esgotamento sanitário”.
A IG4 é uma gestora brasileira de investimentos, especializada em companhias endividadas, em reestruturação financeira ou com problemas de governança. Em 2017, por exemplo, a empresa adquiriu o controle da CAB Ambiental, do grupo Galvão, e relançou a companhia como Iguá Saneamento. A Iguá é uma das quatro companhias que dominam 84% dos serviços privados de água e esgoto. Em 2024, a IG4 deixou o controle da empresa.
A conclusão da venda da participação da Novonor na Braskem ainda depende da aprovação de órgãos regulatórios e de que a Petrobras não exerça seus direitos de preferência e de venda conjunta (“tag along”) previstos no atual acordo de acionistas. A estatal afirmou no mês passado que não exercerá esses direitos.
Em comunicado à imprensa, a Novonor disse ter “orgulho em ter contribuído para que milhares de profissionais de altíssima qualidade desenvolvessem ao longo dos anos um ativo de tamanha importância estratégica para o país, essencial para o fortalecimento da indústria nacional.”
O acordo pode aliviar o endividamento da Novonor, que aumentou durante o escândalo da Lava Jato, quando o grupo deu suas ações da Braskem como garantia de R$ 15 bilhões em dívidas com instituições financeiras. Para aliviar o caixa, a Novonor tenta há muito tempo vender sua participação na petroquímica.
Analistas do Citi não ficaram otimistas com a mudança.
“Não vemos grandes potenciais de valorização na tese de mudança de controle, uma vez que as principais melhorias na companhia devem vir de um cenário mais favorável para os spreads petroquímicos […] e do provável plano de reestruturação a ser anunciado nas próximas semanas ou meses”, afirmou o Citi, em relatório a clientes nesta segunda-feira (20).
PROTEÇÃO JUDICIAL CONTRA CREDORES
No início deste mês, a Braskem também passou a considerar a possibilidade de entrar com um pedido de proteção judicial contra credores.
A Braskem enfrentou vários anos difíceis devido à fragilidade do mercado global de petroquímicos e às tentativas frustradas de sua controladora Novonor de se desfazer de ativos após seu envolvimento no escândalo de corrupção investigado pela Lava Jato.
Os problemas da Braskem se intensificaram recentemente com as consequências de um desastre ambiental em uma de suas minas de sal em Maceió (AL) e a pressão contínua sobre seu fluxo de caixa.
AUMENTO DO PREJUÍZO
Em 27 de março a Braskem divulgou em balanço que registrou um prejuízo de R$ 10,28 bilhões no 4º trimestre de 2025, em comparação com prejuízo de R$ 5,65 bilhões no mesmo período de 2024.
A maior petroquímica da América Latina apurou um resultado operacional medido pelo Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) recorrente de R$ 589 milhões, expansão de 6% em relação ao mesmo período no ano anterior.
Já a receita líquida do grupo caiu 16%, alcançando R$ 16,10 bilhões. Por distribuição demográfica, 60% da receita foi proveniente do Brasil, seguida por 22% nos Estados Unidos.
O desempenho ficou abaixo das expectativas do mercado. Analistas esperavam um Ebitda recorrente de R$ 665 milhões e receita de R$ 16,9 bilhões, de acordo com dados da LSEG.
Segundo o grupo, o Ebitda recorrente foi afetado pela continuidade do ciclo de baixa prolongado da indústria global.
“A dinâmica da indústria petroquímica seguiu impactada pelas incertezas do cenário externo considerando os conflitos geopolíticos e a guerra tarifária que, combinada com a sazonalidade do período pressionou ainda mais os spreads químicos e petroquímicos no mercado internacional”, afirmou a empresa na época.
RAIO-X | BRASKEM
Fundação: 2002
Sede: São Paulo
Presença: 40 unidades industriais, 14 escritórios comerciais e 6 centros de inovação no mundo
Principais concorrentes: ExxonMobil Chemical, LyondellBasell, Dow e SABIC
Resultado em 2025: prejuízo líquido de R$ 9,9 bilhões