Política nacional de proteção a povos tradicionais não saiu do papel após 20 anos de decreto, reclamam lideranças no DF

Por Beatriz Laviola e Danilo Lucena

Quase 20 anos depois da publicação do Decreto nº 6.040/2007, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais ainda não tem os efeitos práticos que eram esperados. Na avaliação de ativistas no Distrito Federal, embora a legislação represente um marco importante de reconhecimento, ainda há distância entre o que está no papel e a realidade vivida nos territórios.

Em evento científico nesta semana, no Centro Universitário de Brasília (CEUB), lideranças relataram de violência, racismo religioso, invisibilidade institucional e resistência coletiva.

Segundo o ativista quilombola e pesquisador Kito Kiese, da Juventude da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, as políticas públicas requerem participação social. Segundo a liderança, grande parte das comunidades sequer têm acesso às informações sobre direitos e programas governamentais específicos. “As informações não chegam ao nosso povo”, diz. Ele é bacharel em relações internacionais.

Participaram do debate também a subprocuradora-geral da República Eliana Peres Torelly de Carvalho, integrante da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, e a mãe de santo Christine Alves Bastos, representando o ativismo es religiões de matriz africana.

Para a mãe Christine, apesar dos avanços legais conquistados nas últimas décadas, existe dificuldades de implementação. “Tem leis muito bonitas para os nossos povos, mas muitas vezes a gente não busca porque tem medo”, afirmou. “Quando a gente vai atrás dos nossos direitos, sempre vem alguém dizer que a senhora pode voltar pra sua vida”, completa

O debate também abordou denúncias sobre conflitos fundiários, pressão do agronegócio, mineração e impactos ambientais em comunidades quilombolas, indígenas e povos de terreiro.  

O encontro também abriu espaço para reflexões sobre racismo religioso e intolerância contra religiões de matriz africana. A mãe de santo relatou episódios frequentes de violência e discriminação. “O padre quando sai de batina na rua apanha? Não. Mas mãe de santo sofre intolerância diária”, afirmou. “Candomblé não é (apenas) religião. É bandeira de luta. É bandeira de resistência.”

Kito destacou que há dificuldades enfrentadas por jovens de comunidades tradicionais para permanecerem em seus territórios sem abrir mão de acesso à universidade, trabalho e renda: “Ser jovem e manter um território tradicional em 2026 não é fácil, a gente perde um Brasil inteiro quando essas comunidades desaparecem”.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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