A Bolsa recua forte nesta terça-feira (27) com os investidores preocupados com a violação do cessar-fogo no Oriente Médio por parte dos EUA.
O ataque ao sul do Irã pressiona os preços do petróleo e gera maior cautela durante o pregão, afetando os ativos de risco.
Por volta das 11h30, a Bolsa de Valores brasileira recuava 0,92%, aos 176.171 pontos. No mesmo horário, o dólar oscilava 0,01%, cotado a R$ 5,019.
A sessão repercute a maior cautela dos investidores em relação a um possível acordo de paz entre Irã e Estados Unidos.
A mudança de tom aparece nas declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Na segunda-feira (25), Rubio afirmou ter uma proposta consistente para normalizar o fluxo do estreito de Hormuz.
Nessa terça, contudo, afirmou que a negociação de um acordo com o Irã poderia “levar alguns dias”. “Houve algumas conversas no Qatar hoje, então vamos ver se conseguimos avançar. Há muita discussão de um lado para o outro sobre a redação específica do documento inicial, então vai levar alguns dias”, disse.
Na véspera, o clima do mercado acionário foi de maior otimismo com as negociações. No dia, o dólar fechou em queda de 0,17%, cotado a R$ 5,019, e a Bolsa subiu 0,91%, a 177.815 pontos.
O entusiasmo foi revertido depois que os Estados Unidos bombardearam o sul do Irã à noite. Segundo o Pentágono, os ataques foram preventivos para proteger soldados.
“Os bombardeios tiveram como alvo lançadores de mísseis e barcos que tentavam depositar minas no mar”, disse o Comando Militar Central dos EUA, responsável pelas operações no Oriente Médio.
Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou nesta terça-feira que os EUA violaram o cessar-fogo.
“Os Estados Unidos cometeram uma grave violação do cessar-fogo na região de Hormozgan nas últimas 48 horas… O Irã responsabiliza o regime dos EUA por todas as consequências resultantes dessas ações agressivas e injustificadas”, afirmou a instituição.
O vaivém nebuloso das negociações mantém o mercado em estado de alerta para quaisquer sinalizações mais contundentes sobre um possível acordo ou um acirramento do conflito.
O regime persa condiciona o acordo de paz à manutenção do controle no estreito de Hormuz, via marítima responsável por 20% de todo o fornecimento global de petróleo e gás natural. Teerã também defende o pagamento de taxas para utilizar o estreito e o projeto de enriquecimento de urânio.
Os norte-americanos, por outro lado, defendem a liberação do tráfego marítimo sem a cobrança de tarifa e o término do programa nuclear.
“Os ataques americanos a instalações militares e embarcações ocorridos nesta madrugada aumentam as preocupações de que as negociações talvez não estejam tão avançadas quanto o mercado vinha precificando”, diz Leonel de Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.
Para ele, o episódio tende a aumentar a cautela dos agentes econômicos.
O cessar-fogo entre os dois países estava em vigor desde 8 de abril. EUA e Irã haviam admitido progresso nas negociações.
Em Teerã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Teerã, Esmail Baqai, assumiu que as negociações tinham tido avanços. Baqai, contudo, colocou em dúvida a perspectiva de um acordo estar prestes a ser firmado.
“É verdade que chegamos a uma conclusão em grande parte dos temas em discussão… mas afirmar que a assinatura de um acordo é iminente é algo que ninguém pode sustentar”, comentou.
Ele reiterou que o país não abre mão de manter o controle sobre o tráfego no estreito de Hormuz. “Os serviços prestados, ou seja, os serviços de navegação, assim como as medidas necessárias para proteger o meio ambiente do estreito de Hormuz, do golfo Pérsico e do mar de Omã exigem a cobrança de certas taxas”, disse o porta-voz.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse no domingo (24) que o bloqueio norte-americano no estreito de Hormuz continuaria em vigor enquanto um acordo não fosse “alcançado, certificado e assinado”.
Horas depois, na manhã dessa segunda, Trump voltou a subir o tom ao estipular limites para a negociação no Oriente Médio. “O acordo com o Irã será grande e significativo, ou não haverá acordo”, escreveu na sua rede social Truth Social.
A situação volta a pressionar o preço do petróleo Brent, referência mundial. Por volta das 11h, a commodity marcava US$ 100,18, uma alta de 4,18%.
Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, a correção do Brent mantém as ações ligadas a commodities no radar no mercado brasileiro. Ele também afirma que a volatilidade também gera uma maior rotação para ativos defensivos.
A alta nas cotações do petróleo aumenta as incertezas sobre as cadeias globais de insumos, que podem forçar um repique inflacionário global e, por consequência, a manutenção das taxas de juros de algumas das principais economias do mundo em patamar restritivo.
O conflito já tem afetado as decisões de política monetária do Brasil e dos Estados Unidos. Em abril, o Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75% pela terceira reunião consecutiva, citando incertezas com a guerra. No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) reduziu a Selic para 14,5% ao ano, mas evitou sinalizar cortes futuros.