Vai começar a maior Copa do Mundo da história, ao menos do ponto de vista numérico. “Uma grande festa”, nas palavras do presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol), Gianni Infantino, com três países anfitriões, 48 seleções e 104 partidas.
Mas nem todos foram chamados para a celebração –ou têm dinheiro para bancar o convite.
O Mundial de 2026 terá seu pontapé inicial nesta quinta-feira (11) –no duelo entre México e África do Sul, na Cidade do México–, em um cenário de tensão geopolítica.
Não que disputas diplomáticas e mesmo bélicas sejam inéditas no período da competição, mas desta vez um dos países que a recebem está ativamente em guerra contra um dos participantes.
Os próprios anfitriões, Estados Unidos, México e Canadá, têm relações problemáticas entre si, com questões ligadas ao comércio, à migração e ao tráfico de drogas.
Tudo ficou em ebulição a partir do início do ano passado, com o retorno à Casa Branca de Donald Trump, presidente americano que se posiciona como o dono da bola, em assuntos ligados ou não à Copa.
O republicano já se referiu em diversas ocasiões ao Canadá como “o 51º estado americano” e ameaçou intervenções armadas no México. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também tiveram suas rusgas, sobretudo em assuntos comerciais.
Hoje é motivo de piada o slogan utilizado na candidatura tríplice declarada vencedora em 2018, “united as one” (“unidos como um só”). Também parecem longe de cumpridos compromissos estabelecidos no caderno de intenções, que falava em promover “uma atmosfera inclusiva que celebre a diversidade e acolha jogadores, autoridades e torcedores”.
As restritivas políticas migratórias de Trump impediram a entrada nos Estados Unidos do árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somália, que não vai mais trabalhar no Mundial. “Eu tinha os documentos certos. Eu tinha o visto correto”, disse o juiz, que foi interrogado por 11 horas. “Acho que eles têm um problema com o meu país.”
Ele não foi o único a relatar dificuldades. Imagens mostraram jogadores de Uzbequistão e Senegal em revistas consideradas humilhantes. O atacante Aymen Hussein, um dos grandes nomes da seleção do Iraque, autor do gol da classificação ao Mundial, foi questionado por quase sete horas no aeroporto de Chicago antes de ser liberado.
A relação mais tensa, claro, é com a equipe do Irã, país sob ataque dos Estados Unidos desde fevereiro. A própria presença do time no Mundial foi repetidamente colocada em dúvida, com seus três jogos no Grupo G marcados para o território americano.
Há um cenário plausível de um embate Estados Unidos x Irã, caso cada seleção avance à segunda fase em segundo lugar em sua chave.
A delegação iraniana, que tinha armado uma base em Tucson, no Arizona, teve de mudar os planos e instalar-se em Tijuana, cidade do México na fronteira com os Estados Unidos. Os jogadores partirão apenas nas vésperas para as sedes de suas três partidas da primeira fase –duas nos arredores de Los Angeles, uma em Seattle.
Ainda há incertezas sobre a entrada desses atletas nos Estados Unidos. Mas, mesmo que superem as barreiras dos agentes de imigração, eles provavelmente atuarão sem torcida, ou com poucos torcedores. De acordo com a FFIRI (Federação de Futebol do Estado Islâmico do Irã), sua cota de ingressos foi revogada a dias do início do torneio.
Nesta quarta (10), Trump afirmou que os EUA estão “trabalhando para garantir que as pessoas certas entrem”.
Também não terá a chance de estar nas arquibancadas a enorme parcela da humanidade que não tem condições de pagar os preços exorbitantes praticados pela Fifa.
A entidade adotou um modelo de valores dinâmicos, com base na demanda. Segundo o site especializado Ticketdata, o ingresso mais barato para a estreia do Brasil estava saindo na terça (9) por US$ 1.740 (quase R$ 9.000).
Há ainda um sistema de revendas oficial, no qual o comprador original estabelece o preço para o próximo.
Surgiram assim aberrações como um anúncio de US$ 2 milhões (R$ 10,3 bilhões) para a decisão do torneio, em East Rutherford, em 19 de julho –a maioria das partidas será nos Estados Unidos, que receberá todos os duelos a partir das quartas de final.
“Se alguém coloca o bilhete por US$ 2 milhões em um mercado de revenda, em primeiro lugar, isso não significa que ele custe US$ 2 milhões. Em segundo lugar, isso não significa que alguém vá comprar. Na verdade, se alguém comprar um bilhete por US$ 2 milhões, eu mesmo lhe levarei um cachorro-quente e uma Coca-Cola para garantir uma ótima experiência”, divertiu-se Infantino.
O presidente da Fifa ri, com uma projeção de arrecadação de US$ 11 bilhões (R$ 56,9 bilhões) na competição.
E os torcedores do Brasil dispostos a ver o jogo contra Marrocos, nos arredores de Nova York, tentam dar um jeito de pagar a inflacionada passagem de trem para o MetLife Stadium, que custa US$ 98 (R$ 507) –antes da Copa, custava US$ 12,90 (R$ 67).
O estádio abrigará também a final, mas no palco da decisão o clima ainda não é de Copa. A cidade está muito mais preocupada com outro confronto decisivo, o da NBA, com rara de chance de título do New York Knicks na liga norte-americana de basquete.
Segundo levantamento do Pew Research Center, 66% dos adultos americanos estão pouco ou nada propensos a acompanhar o Mundial.
No resto do planeta, o interesse é maior. E os olhos estarão voltados para o que –desta vez, parece inevitável– será a última Copa dos craques Lionel Messi, 38, e Cristiano Ronaldo, 41. Tudo indicava que a despedida seria na edição de 2022, no Qatar, mas os dois veteranos continuam a desafiar a lógica do esporte.
No caso do primeiro, existe a responsabilidade de defender o título, com a Argentina incluída na lista de favoritas. E o segundo conta com aquela que provavelmente é a melhor geração de companheiros que já teve na seleção de Portugal, outra apontada entre as candidatas ao título de 2026.
Nas casas de aposta, França e Espanha, que vêm de ótimos ciclos, são vistas como as principais aspirantes ao troféu. O Brasil, ao fim de um trajeto caótico rumo ao Mundial da América do Norte, conta com a força de sua camisa e com o recente trabalho do prestigiado técnico italiano Carlo Ancelotti para buscar o hexa.
Sem encostar na taça desde o pentacampeonato, em 2002, o time verde-amarelo vem de anos turbulentos.
Após o fracasso nas quartas de final de 2022, a seleção foi dirigida pelo interino Ramon Menezes, pelo inicialmente interino Fernando Diniz e pelo breve Dorival Júnior até que chegasse Ancelotti, há pouco mais de um ano.
Ele atendeu ao anseio de parcela significativa da torcida e levou aos Estados Unidos o atacante Neymar, 34, que pouco atuou nas últimas temporadas e já se apresentou lesionado ao grupo.
Sem um grande criador, o treinador apostou em um estilo de marcação firme, geralmente no campo de ataque, com momentos promissores.
O Brasil não é tido como favorito, porém não diga isso a jogadores como Bruno Guimarães.
“Aonde vai o Brasil é favorito, tem cinco estrelas no peito. Claro que isso não entra em campo. Mas temos jogadores brilhando nos melhores clubes do mundo. Onde eu jogo, na Inglaterra, a gente se sente respeitado. O Brasil vai ser sempre um dos favoritos. Não significa que vamos ganhar, mas estamos no bolo.”