Gabriel Resende e Isabele Mendes
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O Conselho Tutelar do Distrito Federal vai apurar a possível participação ou incentivo de adultos em lutas clandestinas envolvendo adolescentes no chamado “Clube da Luta”, registrado no Lago Sul. A conselheira tutelar de Brasília I – Asa Sul, Natty Vieira, afirmou que o caso está sob acompanhamento e que podem ser aplicadas medidas protetivas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“A proteção de crianças e adolescentes é uma responsabilidade coletiva, e a promoção de uma cultura de paz é essencial para prevenir a violência”, destacou.
As investigações sobre o episódio ainda caminham sem registro formal. A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) informou, por meio da assessoria de comunicação, que não há ocorrência oficial cadastrada até o momento. Ainda assim, policiais da 10ª Delegacia estiveram no local após denúncias. Segundo informações apuradas pela reportagem, adolescentes entre 15 e 19 anos teriam se reunido no último dia 18 de abril para participar de lutas previamente combinadas pelas redes sociais, com cobrança de ingressos para lutadores e espectadores.
Uma moradora da região, que vive na rua há mais de 30 anos e preferiu não se identificar, relatou ter presenciado a ação policial. Segundo ela, cerca de dez adolescentes tentaram se esconder atrás de um ônibus ao perceber a chegada das viaturas.
“Os policiais colocaram todos na parede para que fossem revistados”, contou. A mulher também afirmou que o imóvel onde ocorreram as lutas está desocupado há cerca de quatro meses.
De acordo com a apuração, o evento já estaria na terceira edição, com ingressos vendidos a R$ 30 para homens e R$ 25 para mulheres, vagas limitadas e previsão de duração de até cinco horas. Ao menos quatro lutas estavam confirmadas, com ingressos esgotados. A organização ocorria por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem, como Instagram e WhatsApp, onde os jovens divulgavam informações físicas e suposta experiência em combate.
Em um dos grupos, que reunia mais de 800 participantes, um adolescente afirmava ser faixa azul e dizia ter saído “invicto” de brigas contra “cracudos e moradores de rua”, termos usados pelo próprio jovem. Uma fonte ouvida pela reportagem, sob condição de anonimato, afirmou tentar intervir para evitar que a situação evolua para casos mais graves.
“Estou fazendo a minha parte para tentar poupar a vida desses meninos, para que não vire mais uma história igual à de Pedro Turra”, disse.
Ainda nesta semana, um episódio semelhante foi registrado no Guará II, com jovens trocando agressões enquanto gritos de incentivo como “vai morrer” eram ouvidos por testemunhas, o que levanta o alerta para a repetição desse tipo de prática em diferentes regiões do DF.
Especialistas apontam riscos severos à saúde dos adolescentes envolvidos. O ortopedista Dr. Fabiano Cláudio alerta que o corpo nessa faixa etária ainda está em desenvolvimento, o que aumenta o risco de lesões como concussões, fraturas e traumas permanentes.
“Esse tipo de prática não pode ser considerado uma brincadeira”, afirma.
A lutadora profissional e professora de muay thai Vitória Aparecida Pires também reforça que o esporte exige acompanhamento rigoroso e estrutura adequada. Vice-campeã brasileira de boxe em 2023, ela destaca que treinos e competições oficiais contam com equipamentos de proteção, regras claras, árbitro e suporte médico. “Sem isso, o evento nem pode acontecer. Luta não é brincadeira”, pontua.
A conselheira Natty Vieira ainda chama atenção para o papel das redes sociais na disseminação desse tipo de comportamento. Segundo ela, o acesso precoce a conteúdos violentos pode contribuir para a naturalização da agressividade entre jovens, exigindo vigilância constante por parte de famílias, poder público e sociedade.
Entenda o caso
Adolescentes entre 15 e 19 anos organizaram, por meio de redes sociais, um evento clandestino de lutas no Lago Sul. Revelado pelo Jornal de Brasília, os confrontos eram combinados previamente e contavam com venda de ingressos para participantes e público. O evento, que já estaria na terceira edição, ocorreu em uma casa desocupada.
Apesar da presença policial no local, não há registro formal da ocorrência até o momento. O Conselho Tutelar acompanha o caso e vai investigar possível envolvimento de adultos, enquanto especialistas alertam para os riscos físicos e sociais desse tipo de prática.