Delação de Beto Louco é rejeitada após omitir PCC e não citar políticos

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, rejeitou, nesta quarta-feira (6), a proposta de delação premiada apresentada pelo empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, alvo da Operação Carbono Oculto.

A decisão encerra, ao menos por ora, a tentativa do empresário de firmar um acordo com o Ministério Público para reduzir sua responsabilização no esquema bilionário de fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e sonegação investigado no estado.

À reportagem sua defesa disse que não vai se manifestar, alegando que tratativas de colaboração premiada são sigilosas.

Segundo integrantes do Ministério Público, a proposta foi considerada insuficiente e com omissões relevantes. Entre os principais problemas apontados está a ausência de elementos considerados centrais para o avanço das investigações.

O material entregue pelo empresário não detalha esquemas de lavagem de dinheiro de forma consistente e deixa de fora conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital), linha investigativa sensível dentro da operação, segundo a reportagem apurou. Também não há indicação de envolvimento de agentes políticos ou de membros do Judiciário -à exceção de um juiz, que já havia sido previamente processado e responsabilizado pelo próprio Ministério Público.

Na avaliação da cúpula da instituição, a colaboração em nada contribuiria para o aprofundamento das apurações. O entendimento é que o acordo não agregaria novas provas, nem abriria caminhos investigativos relevantes -requisito básico para a validação de delações premiadas.

Na proposta de delação o investigado denuncia corrupção na Sefaz-SP (secretaria da Fazenda do estado), subordinada ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), que já é alvo de três operações do MP-SP: Ícaro, Mágico de Oz e Fisco Paralelo. Cinco auditores fiscais já foram demitidos, além de Artur Gomes da Silva Neto, tido como chave de um esquema bilionária de fraudes de crédito de ICMS para varejistas.

Segundo a secretaria estadual, 61 procedimentos administrativos estão em aberto, dentre eles 11 disciplinares em andamento, 37 apurações preliminares para investigar desvios de conduta e cinco processos estão em fase avançada e podem resultar em novas demissões. Novas apurações podem ser instaladas conforme o avanço das investigações.

A rejeição da delação ocorre após um período de divisão interna no Ministério Público. Como mostrou a coluna de Mônica Bergamo, promotores -tanto da capital quanto do interior- já vinham se posicionando contra a celebração do acordo, mesmo diante da proposta do empresário de ressarcir valores elevados aos cofres públicos.

A rejeição também ocorre poucos dias após decisões judiciais que ampliaram a pressão sobre os investigados. A Justiça de São Paulo determinou o bloqueio de bens de empresas e dos empresários ligados ao esquema, incluindo recursos que estavam aplicados em instrumentos financeiros como CDBs e CCBs.

As investigações apontam o uso de estruturas sofisticadas para ocultação patrimonial, com circulação de recursos por fundos de investimento e operações de crédito encadeadas, dificultando o rastreamento do dinheiro. Parte desses valores, segundo apurações, teria passado por fundos associados a operações ligadas ao PCC.

A operação também mira a tentativa de recuperação de créditos tributários que podem chegar a R$ 7,6 bilhões em ICMS, considerando juros e multas.

No esquema, Beto Louco aparece como articulador financeiro, responsável por estruturar a movimentação de recursos e o uso de fundos e holdings para blindagem patrimonial. Já Mohamad Hussein Mourad, o Primo, é apontado como operador de uma rede de empresas em nome de laranjas.

Ambos estão foragidos desde que tiveram a prisão decretada em agosto do ano passado.

Já houve outra tentativa de negociar delação premiada na PGR (Procuradoria-Geral da República) em dezembro de 2025, sem sucesso. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, à época, considerou que Beto Louco ainda não havia apresentado provas concretas sobre pessoas com foro privilegiado e devolveu o processo à primeira instância.

A Carbono Oculto é considerada a maior força-tarefa contra o crime organizado no Brasil, com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MP-SP, e da Receita Federal, e com apoio da Polícia Federal.

A operação investiga a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro.

Mais de 350 alvos, dentre pessoas físicas e jurídicas, são suspeitos de crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato.

Beto Louco ficaria à frente das fraudes contábeis e da gestão financeira, gerenciando fundos de investimento e empresas de participações utilizadas para blindar o patrimônio da organização criminosa.

Ele também é alvo de mais duas operações: Tank e Quasar. Uma das suspeitas envolve a ligação de postos de gasolina investigados com a facção criminosa PCC.

T CSM
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