O dólar abriu em alta nesta terça-feira (23), com investidores digerindo a ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central.
O colegiado optou por cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,5% para 14,25% ao ano, embora tenha reconhecido uma piora nas expectativas para a inflação. A decisão gerou ruído no mercado, que interpretou a justificativa do Copom como sinal de maior tolerância com inflação acima da meta.
Às 9h26, a moeda norte-americana subia 0,5%, cotada a R$ 5,168. Na véspera, fechou em queda de 0,61%, cotado a R$ 5,142, e a Bolsa disparou 1,2%, a 170.370 pontos.
Na ata, o BC afirmou que uma eventual tentativa de atingir a meta de inflação no último trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, demandaria ajustes agressivos da taxa Selic e faria, em seguida, a inflação ficar abaixo da meta por um prazo prolongado.
Diante dessa constatação, a autarquia avaliou serem mais adequadas, no momento, trajetórias da Selic menos discrepantes às apontadas pelo mercado no boletim Focus, questionário pré-Copom e precificação da política monetária, que levariam a inflação ao alvo de 3% apenas no primeiro trimestre de 2028.
Isso evitaria “induzir volatilidade excessiva” nos ativos financeiros e agregados macroeconômicos.
O Copom assinalou ainda que a projeção de inflação para o fim de 2027 subiu para 3,7%, distanciando-se da meta. Para perseguir o centro do alvo nesse prazo, a política monetária pressuporia “variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguida de diversos trimestres com inflação abaixo da meta”.
Por isso, passou a considerar diferentes trajetórias mais próximas às previstas pelo mercado, que “contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”, disse o BC no documento.
“Nesse caso, as flutuações de produto se mostraram menores”, acrescentou.
Após o corte de 0,25 ponto na semana passada, o BC deixou os próximos passos em suspenso e abriu a porta para trajetórias de juros “alternativas” para atingir a meta de inflação em um horizonte um pouco mais distante.
A indicação de que poderia trabalhar para alcançar o alvo de 3% para o IPCA apenas no primeiro trimestre de 2028, não mais no horizonte relevante da política monetária, atualmente no último trimestre de 2027, gerou reação negativa no mercado e foi seguida de uma elevação dos juros futuros no país.
Na segunda-feira, o Tesouro cancelou um leilão de NTN-Bs (Tesouro IPCA+, ou títulos públicos indexados à inflação) programado para esta manhã em meio ao estresse no mercado. A medida foi vista como uma forma de acalmar os investidores e conter a disparada das taxas.
As curvas das NTN-Bs são indicativas de quanto o mercado está cobrando em termos de rendimentos para comprar títulos públicos. Na prática, elas rendem a variação do IPCA mais um ganho percentual, ou “juro real”, no jargão.
Antes da decisão do Copom, a NTN-B com vencimento para maio de 2029, por exemplo, estava com juro real em 8,39%. Na sexta-feira (19), foi a 8,82%; na segunda, após o cancelamento do leilão, voltou para 8,75%. A maior parte dos vencimentos, com exceção dos contratos de 2028 e 2031, apresentou queda nesta sessão.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, afirma que o cancelamento do leilão de NTN-B pelo Tesouro poderia ser um primeiro passo antes de uma operação de recompra isto é, uma intervenção do Tesouro no mercado de títulos públicos.
Há pouco mais de três meses, o Tesouro interveio no mercado ao suspender a emissão de NTN-Bs e recomprar recordes R$ 49 bilhões em papéis, visando dar fôlego a um mercado que estava à espera de cortes na Selic e foi tomado pelo pessimismo da guerra no Oriente Médio.