O dólar abriu em alta nesta segunda-feira (13) em relação ao real e à maior parte das divisas de países emergentes no exterior, após o fracasso das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã no fim de semana.
Às 9h03, o dólar subia 0,50%, aos R$ 5,035. No mesmo horário, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a seis outras divisas fortes, também avançava, com alta de 0,34%.
As negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã chegaram ao fim sem um acordo, jogando na incerteza o futuro do frágil cessar-fogo entre os dois países adversários na guerra no Oriente Médio.
O vice-presidente americano, J. D. Vance, anunciou não ter atingido um acordo com Teerã no último sábado (11). As delegações realizaram três rodadas de conversas a terceira só terminou na noite de sábado no Brasil.
Segundo a emissora estatal do Irã, a delegação de Teerã apresentou demandas relacionadas ao estreito de Hormuz, à liberação de ativos iranianos bloqueados, ao pagamento de reparações para cobrir danos causados pela guerra e um cessar-fogo que alcance toda a região
A última vez em que EUA e Irã negociaram olho no olho foi na costura do acordo nuclear de 2015, que trocou o fim de sanções à teocracia por um intrincado esquema de verificações segundo o qual seria restringida a capacidade de enriquecimento de urânio do país por 15 anos, visando coibir a busca pela bomba atômica.
Na sexta (10), o dólar fechou em queda de 1,03%, cotado a R$ 5,010, o menor valor em dois anos. Já a Bolsa renovou o recorde histórico mais uma vez, tendo avançado 1,12%, a 197.323 pontos no fechamento.
A sessão, segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, foi embalada principalmente pela melhora do cenário geopolítico. O avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, diz ele, “reduziu o prêmio de risco global e enfraqueceu a demanda por proteção”.
Isto é, incentivou que investidores buscassem ativos mais arriscados e que oferecem retornos maiores, embora não tão seguros quanto a moeda norte-americana. Esse movimento levou o dólar a registrar perdas generalizadas: o índice DXY, que o compara a uma cesta de seis divisas fortes, caiu 0,2%, a 98,67 pontos, denotando fraqueza global.
Grande parte do otimismo tem a reabertura do estreito de Hormuz, uma das principais vias de petróleo e gás natural do mundo, como pano de fundo. Desde a trégua anunciada na terça-feira (7), algumas embarcações já estão conseguindo atravessar o canal marítimo a maioria delas ligada ao Irã, segundo dados de rastreamento de navios das plataformas Kpler e Lloyd’s List Intelligence.
Ainda que a área esteja fechada para outras bandeiras, as negociações para normalização seguem em curso. Representantes de EUA e Irã tiveram as primeiras conversas de paz no Paquistão no sábado (11).
Na sexta, a expectativa era de avanço. Segundo Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex, as negociações podem levar a “uma extensão das quedas nos preços do petróleo, impulsionada pela expectativa de reabertura gradual do estreito”, diz Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex.
“Por outro lado, uma frustração nas negociações pode resultar em novas altas no petróleo e derivados. Isso refletiria um mercado já pressionado por um balanço global apertado, em função da redução significativa das exportações de energia provenientes do Oriente Médio.”
A extensão do cessar-fogo, segundo o analista, depende agora de negociações também envolvendo Israel e Líbano, previstas para ocorrer em Washington nesta semana.
“À luz dos repetidos pedidos do Líbano, eu instruí o gabinete ontem a começar negociações diretas o mais rapidamente possível. Elas vão focar em desarmar o Hezbollah e estabelecer relações pacíficas entre Israel e o Líbano”, disse em nota Netanyahu.
As tratativas entre Tel Aviv e Beirute provocaram “um novo suspiro de alívio nos mercados por enquanto, ainda que moderado”, afirmou John Kilduff, analista da Again Capital.
Além da Bolsa brasileira, outras praças também registram ganhos: a de Xangai, por exemplo, fechou a semana no positivo pela primeira vez desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. O índice SSEC terminou o dia com valorização de 0,51%, e o CSI300, que reúne as principais companhias em Xangai e Shenzhen, subiu 1,54%.
Os outros mercados asiáticos também se valorizaram, como Tóquio (1,84%), Hong Kong (0,55%), Seul (1,4%) e Taiwan (1,6%). Na União Europeia, o índice Euro STOXX 600 subiu 0,34%. Também avançaram Frankfurt (0,2%), Paris (0,17%) e Madri (0,55%).
Em Wall Street, o clima foi misto. Enquanto o Nasdaq Composite avançou 0,3%, o S&P500 e o Dow Jones recuaram 0,17% e 0,56%, respectivamente, sob efeito dos dados de inflação dos Estados Unidos.
Dados medidos pelo CPI (índice de preços ao consumidor, na sigla em inglês) registraram o maior aumento mensal em quase quatro anos, também afetados pela disparada do petróleo.
A alta foi de 0,9% no mês passado, o maior aumento desde junho de 2022, quando os preços dispararam em resposta à guerra entre Rússia e Ucrânia. Em fevereiro, a subida havia sido de 0,3%.
Nos 12 meses até março, o índice avançou 3,3%, contra 2,4% registrado em fevereiro. Os dados vieram em linha com as expectativas de economistas ouvidos pela Reuters.
Por outro lado, o núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, reportou um crescimento “bem mais contido”, diz Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad. A alta foi de 0,2% no mês, acumulando ganho de 2,6% em 12 meses, ambos 0,1 ponto percentual abaixo do esperado.
Para Lobo, os números indicam que, apesar do choque externo, a inflação permanece sob controle, o que pode levar o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) a dar menos relevância ao pico causado pelo preço do petróleo e manter o foco na trajetória inflacionária de longo prazo.
“A leitura sugere que a inflação núcleo está desacelerando, o que corrobora a sinalização de integrantes do Fed sobre uma possível redução de 0,25 ponto percentual nos juros, embora o timing exato continue incerto e o mercado ainda precifique poucas chances de cortes agressivos ao longo de 2026”, afirma.
A hipótese predominante segue sendo que o Fed só corte juros em 2027, tirando a atratividade da renda variável nos Estados Unidos.
Os efeitos da guerra também já são sentidos por aqui. A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), acelerou a 0,88% no mês passado, após marcar 0,70% em fevereiro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O índice foi pressionado pelas altas dos grupos transportes (1,64%) e alimentação e bebidas (1,56%) o primeiro inclui os combustíveis. Juntos, eles responderam por 76% do IPCA de março, conforme o IBGE.
“A leitura de março foi amplamente impactada pelos impactos globais do conflito no Irã, como se nota no comportamento dos combustíveis. Com o cessar-fogo de duas semanas, a chance de uma contaminação do restante da inflação pelo choque do petróleo diminui”, diz André Valério, economista sênior do Inter.
“Ainda assim, não vemos a melhora do conflito como suficiente para dar tranquilidade ao Copom, mas esperamos que o comitê continue o ciclo de cortes, em ajustes de 0,25 ponto percentual. O elevado aperto monetário, além do comportamento do câmbio, que tem operado consistentemente abaixo de R$ 5,10, dá tranquilidade suficiente para o Copom manter o ritmo de cortes.”