Dólar recua e Bolsa sobe após corte de juros no Brasil e queda do petróleo

Barômetros Econômicos Globais interrompem trajetória de alta dos últimos meses, mostra FGV
Barômetros Econômicos Globais interrompem trajetória de alta dos últimos meses, – Reprodução

O dólar recua nesta quinta-feira (30), com investidores reagindo a decisão de juros do Banco Central, que reduziu a Selic para 14,5% ao ano na véspera (29) e se beneficiando de um maior apetite global por ativos de risco.

Analistas também reagem a divulgação de indicadores nos EUA e Brasil durante o pregão. Dados de inflação e PIB (Produto Interno Bruto) norte-americanos e taxa de desemprego brasileira são os destaques.

Às 12h03, a moeda norte-americana caía 0,38%, a R$ 4,982. O comportamento é similar ao exterior, onde o índice DXY -que mede o desempenho do dólar frente a outras seis divisas- recuava 0,77%.

No mesmo horário, a Bolsa subia 1,21%, a 187.023 pontos, em reversão parcial da queda de mais de 2% na quarta-feira.

Após o fechamento do pregão da véspera, o Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros brasileira, reduzindo a Selic para 14,5% ao ano.

O colegiado do Banco Central optou por um ajuste conservador depois de ver as projeções para inflação mais distantes da meta de 3%. Em março, após alta de 0,88%, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou avanço de 4,14% em 12 meses.

A redução da Selic veio em linha com a expectativa de analistas do mercado financeiro. Em comunicado divulgado após a decisão, o comitê reforçou a necessidade de cautela e não sinalizou abertamente o rumo de seus próximos movimentos.

“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, afirmou o comitê.

O ritmo de redução e o tom do comunicado reforçam que o BC tem a percepção de que cenário de instabilidade gerado pelo conflito no Oriente Médio e o temor de um repique na inflação global persistem.

“A autoridade monetária indicou que deve continuar avaliando como o contexto geopolítico -em especial o conflito entre Irã e Estados Unidos, o fechamento do estreito de Hormuz e as dificuldades logísticas que podem levar a uma escassez global de petróleo- afeta a dinâmica inflacionária no país”, diz Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.

A maior cautela deve reduzir o ritmo de cortes da Selic. Segundo o Boletim Focus mais recente, analistas projetam que a taxa básica de juros encerre 2026 a 13%.

Caso se confirme, o patamar de juros deve preservar a atratividade das operações de carry trade, que sustentam a entrada de capital estrangeiro tanto na renda fixa quanto na Bolsa.

Quanto maior o diferencial entre os juros brasileiros e os norte-americanos, maior tende a ser a rentabilidade potencial da estratégia conhecida como carry trade. Nessa operação, investidores captam recursos em economias com juros mais baixos, como os Estados Unidos, e aplicam em ativos de países com taxas mais elevadas, como o Brasil, buscando ganhar com o diferencial de juros.

A cautela com a inflação e com o cenário internacional se soma a uma maior resiliência da atividade econômica brasileira. Apesar de o desemprego ter subido a 6,1% no Brasil no 1º trimestre, a renda dos trabalhadores bateu recorde no período.

A taxa de 6,1% é a menor para o período de janeiro a março na série histórica da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O levantamento também revelou que a renda média habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.722 por mês no trimestre até março, com altas de 1,6% frente ao período até dezembro e de 5,5% ante o mesmo intervalo de 2025. A renda média soma os recursos obtidos com o trabalho e divide essa massa pelo número de ocupados.

Para Rafael Perez, economista da Suno Research, o quadro de avanço dos rendimentos mitiga, em parte, os efeitos do elevado endividamento das famílias. “Ao mesmo tempo, impõe um desafio adicional ao Banco Central, ao sustentar a demanda e dificultar a redução das pressões inflacionárias no setor de serviços”.

No exterior, as cotações de petróleo melhoram o apetite global por risco. Após atingir maior valor no mês, a US$ 115, os preços da commodity recuam 2,84%, às 12h, cotados a US$ 114,69.

Nos últimos dias, o petróleo esteve pressionado por conta dos persistentes impasses nas negociações entre EUA e Irã. Apesar de não haver novidades sobre o possível fim do conflito, as cotações passam por ajustes.

“Não há um fundamento específico para esse bom humor externo; o mercado parece devolver parte da aversão ao risco observada ao longo da semana, em meio ao impasse prolongado entre Irã e Estados Unidos sobre o conflito no Oriente Médio”, diz Leonel Oliveira Mattos.

Na Europa, o índice Euro Stoxx 50, referência do continente, sobe 0,73%, seguido pelas Bolsas de Londres (1,57%) e Frankfurt (0,94%).

Ainda no cenário internacional, destaque para a divulgação de dados econômicos dos EUA.

Divulgada nesta quinta-feira pelo Departamento de Comércio, a inflação nos Estados Unidos, medida pelo índice de preços PCE, acelerou 0,7% em março, o maior avanço desde junho de 2022. A instituição também divulgou que o PIB dos EUA acelerou a 2,0% na taxa anual no primeiro trimestre de 2026.

Os dados reforçaram as expectativas do mercado financeiro de que o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) manterá a taxa de juros inalterada durante este ano. E isso a despeito da provável pressão sobre o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, a partir de junho, caso seu nome seja aprovado entre os parlamentares dos EUA.

Na véspera, o Fed manteve a taxa dejuros inalterada na faixa de 3,5% e 3,75%, como amplamente esperado, na última reunião de Jerome Powell como presidente do órgão. A decisão teve placar de 8×4, com os dissonantes, em maioria, defendendo uma comunicação mais agressiva no combate à inflação (“hawkish”).

Juros mais altos nos EUA costumam ser uma má notícia para os mercados globais. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá é lida como um investimento praticamente livre de risco, o que tira a atratividade de outros ativos mais arriscados.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
plugins premium WordPress