Para gerações de brasileiros, a Estrela é uma grande memória afetiva: Banco Imobiliário, Genius, Autorama. O pedido de recuperação judicial da fabricante de brinquedos, ajuizado na quarta-feira após quase oito décadas de listagem em bolsa, tornou-se a prova de uma realidade estrutural. Além dos problemas enfrentados pela economia brasileira, houve também o avanço de alternativas digitais — jogos online e tablets mais baratos — que redirecionaram o orçamento de entretenimento infantil das lojas físicas para as telas.
O caso não é isolado. Reflete um ambiente hostil para os negócios, marcado por juros altos, concorrência desleal e uma carga tributária que drena o capital da iniciativa privada. Mas também expõe empresas que não acompanharam a transformação do mercado.
A Estrela é apenas a ponta visível de um iceberg. Segundo a RGF Associados, consultoria de reestruturação corporativa, ao fim do primeiro trimestre havia 5.931 empresas operando em recuperação judicial, 21,5% a mais do que no mesmo período do ano anterior. São 2,2 empresas em cada mil em processo de reestruturação.
Outro levantamento, da Serasa Experian, mostra que, em 2025, foram deferidos 977 processos de recuperação judicial. Trata-se de uma alta de 5,5% em relação a 2024 e do maior volume anual desde 2016. O maior número de pedidos ocorreu na agropecuária e no agronegócio.
“Vivemos uma tempestade perfeita, marcada pela alta dos juros, pela fragilidade da economia doméstica e por um cenário internacional cada vez mais inseguro”, diz Cláudio Montoro, professor do Insper e advogado especialista em recuperação de empresas.
A raiz do colapso: o custo do dinheiro
Não são apenas os casos de recuperação judicial que estão em alta, mas também os de recuperação extrajudicial. Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), mantido pela Biolchi Empresarial, em 2025 foram contabilizados 84 pedidos de REJ — o maior número desde 2006. Apenas no primeiro trimestre, já são 22 novos casos.
Uma das principais explicações para o aumento de RJ e REJ é a política monetária restritiva do Banco Central. Segundo Montoro, o elevado gasto do governo e a ampliação do déficit alimentam o crescimento contínuo da dívida pública. A ausência de perspectivas de melhora nas contas públicas reduz a confiança dos mercados e mantém a pressão sobre os preços.
A instabilidade geopolítica atua como um forte catalisador da inflação. As tensões no Oriente Médio, especialmente a deflagração da guerra no Irã, geram insegurança e afetam as perspectivas econômicas. Aloisio Campelo Jr., pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), avalia que o conflito segue como o principal fator de preocupação das empresas, ampliando consideravelmente a incerteza sobre a trajetória da inflação e dos juros.
A combinação desses dois fatores gera um efeito devastador: o encarecimento do custo do capital a níveis insustentáveis para as empresas.
O aperto financeiro se traduz em números alarmantes
As perspectivas de melhora não parecem próximas. Segundo Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, o contingente de empresas com restrições de crédito segue elevado. O cenário reflete a persistência de um ambiente financeiro significativamente apertado.
“O patamar ainda restritivo dos juros, aliado a spreads elevados — a margem entre o custo de captação e o repasse ao cliente — e a critérios mais cautelosos, limita a recomposição financeira das empresas. Isso dificulta a normalização da inadimplência no curto prazo”, explica.
Dados da Serasa Experian mostram que, em março, havia 8,9 milhões de empresas (CNPJs) com R$ 212,8 bilhões em dívidas atrasadas. “O processo de desaceleração da atividade econômica tende a afetar o faturamento das empresas. Nesse contexto, ainda não há sinais consistentes de inflexão na trajetória da inadimplência”, afirma.
Cerca de três quartos desse montante não têm origem no sistema bancário, mas na cadeia produtiva. Sem acesso a linhas de crédito com taxas mais acessíveis, as empresas financiam o capital de giro postergando pagamentos dentro da própria cadeia, deixando de pagar fornecedores, concessionárias de serviços, empresas de telefonia e varejistas.
O efeito atinge especialmente micro e pequenas empresas: 8,4 milhões dos CNPJs negativados acumulam R$ 185,3 bilhões em débitos. Mais sensíveis à restrição de crédito, esses negócios enfrentam dificuldades para recompor o fluxo de caixa.
Guerra, inflação e crédito caro ampliam o risco para as empresas
Mas o aperto não é apenas doméstico: o cenário geopolítico global o intensifica. Um dos impactos mais severos ocorre sobre a cadeia de suprimentos e os custos de energia, especialmente com a alta do petróleo.
O professor do Insper lembra que o conflito no Oriente Médio prejudicou o transporte marítimo de insumos fundamentais, como petróleo, gás natural e fertilizantes. No caso do Brasil, majoritariamente dependente do transporte rodoviário, esse choque externo nos combustíveis afeta os custos em toda a cadeia produtiva, encarece produtos e pressiona a inflação de forma agressiva.
Montoro aponta que as condições financeiras globais também pesam sobre o caixa das corporações. A aversão ao risco tem levado diversos bancos centrais a diversificarem suas reservas com a compra de ouro, movimento que reflete a desconfiança dos mercados internacionais.
Essa instabilidade externa redefine o apetite das instituições financeiras e dos investidores, gerando retração na concessão de crédito. A limitação atinge em cheio empresas brasileiras endividadas e dependentes de financiamento para rolar passivos.
Os efeitos geopolíticos nas finanças empresariais, contudo, são anteriores e remontam ao início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, explica Montoro. O conflito impôs um “custo excessivo sobre a principal commodity da matriz energética global”, o petróleo. O choque foi parcialmente absorvido no ano seguinte, quando o preço do barril recuou.
Reengenharia financeira e boom de recuperação judicial e extrajudicial
Outro fator que contribui para o aumento das recuperações judiciais e extrajudiciais é uma mudança cultural. Especialistas em reestruturação corporativa afirmam que esses mecanismos deixaram de ser interpretados apenas como sinais de falência iminente e passaram a ser utilizados como ferramentas jurídicas e estratégicas de reorganização de dívidas.
Marcos Pelozato, advogado e especialista em reestruturação, lembra que a recuperação judicial não foi criada para liquidar empresas, mas para preservar operações economicamente viáveis. “O problema é que muitos empresários ainda chegam tarde demais, quando a deterioração do caixa já compromete fornecedores, credores e a própria capacidade operacional.”
Segundo ele, a percepção sobre o instrumento de reestruturação está mudando. “Hoje, o empresário entende que reestruturar não significa necessariamente encerrar as atividades. Em muitos casos, significa ganhar tempo, reorganizar compromissos e manter a empresa viva enquanto ajusta sua operação.”
Um mecanismo que vem ganhando força nos últimos anos é a recuperação extrajudicial (REJ). Diferentemente da RJ, trata-se de um instrumento mais ágil, confidencial e menos custoso, no qual a empresa negocia com parte dos credores e busca a homologação do acordo na Justiça.
Hilton Junior, vice-presidente da SWOT Global, afirma que a REJ transcendeu o papel de mera alternativa à RJ e começa a se consolidar como uma ferramenta estrutural de reorganização financeira.
“O que antes era utilizado de forma pontual passou a ocupar um papel mais estratégico dentro das reestruturações. Hoje existe maior organização dos credores, participação mais ativa de fundos e uma busca crescente por soluções negociadas que reduzam desgaste, tempo e risco operacional”, afirma o executivo.
Recuperação extrajudicial ganha espaço, mas tem limites
A estratégia foi adotada neste ano por grandes grupos, como Grupo Pão de Açúcar (GPA), Raízen e Andrade Gutierrez. A ideia é preservar o fluxo de caixa sem o desgaste reputacional de um processo público. “Mas não se trata de uma solução mágica para problemas estruturais”, ressalta Junior.
Segundo ele, a recuperação extrajudicial nem sempre é suficiente para resolver crises empresariais mais profundas. “Quando a empresa enfrenta problemas estruturais de geração de caixa, operação fragilizada e elevado nível de endividamento, medidas mais cirúrgicas podem gerar apenas um alívio temporário.”
Montoro destaca que “existe um ativo central em qualquer processo de recuperação: credibilidade”. Quando ela se perde, a empresa pode acabar obrigada a recorrer à recuperação judicial, como ocorreu no dia 12 com o Grupo Toky, controlador da Tok&Stok e da Mobly, com uma dívida de R$ 1,1 bilhão.