São Paulo, 22 – Na contramão de Nova York, o Ibovespa retrocedeu aos 192 mil pontos nesta quarta-feira, 22, em dia de perdas que não foram ainda maiores pelo efeito proporcionado por Petrobras (ON +1,86%, PN +1,38%), que mais uma vez acompanhou a alta do petróleo, com ganhos superiores a 3% em Londres e Nova York na sessão. Entre as principais blue chips, a correção no setor financeiro, o de maior peso no índice, ficou entre -2,66% (Bradesco ON) e -3,62% (Banco do Brasil ON) no fechamento. E Vale ON, principal papel do Ibovespa, recuou 1,70%, na mínima do dia no encerramento, a R$ 87,22.
Ao fim, o índice da B3 mostrava baixa de 1,65%, aos 192.888,96 pontos, com mínima a 192.687,29 nesta quarta-feira em que saiu de abertura a 196.132,06 pontos, em patamar correspondente à máxima do dia. O nível de fechamento foi o menor desde 8 de abril. Na semana, o Ibovespa acumula perda de 1,45%, com ganho no mês ainda a 2,90%. No ano, sobe 19,71%. O giro da sessão ficou em R$ 26,6 bilhões. Em Nova York, os principais índices de ações mostraram alta de 0,69% (Dow Jones), 1,05% (S&P 500) e 1,64% (Nasdaq), em que tanto a referência ampla (S&P 500) como a de tecnologia (Nasdaq) renovaram recordes.
Na B3, na ponta ganhadora, destaque para as ações do setor de energia: além de Petrobras, apareceram PetroReconcavo (+3,82%) e Prio (+1,74%). Hapvida também foi bem, em alta de 2,18% no fim do dia. No lado oposto, Cogna (-6,97%), Embraer (-6,01%) e Yduqs (-5,43%).
“Ontem, sem negócios na B3 pelo feriado de Tiradentes, o dia não havia sido legal para as ADRs brasileiras em Nova York, então na sessão de hoje prevaleceu um alinhamento, um catch up, em relação ao que se viu na terça-feira por lá”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. “Era uma correção, um ajuste que já estava contratado. E o clima externo continua a não ser dos melhores, por mais que se tenha visto essa alta, hoje, em Nova York, muito pautada também por resultados corporativos nessa temporada que se inicia”, acrescenta o analista.
Ele observa ainda que apesar da relativa distensão geopolítica, em especial com a extensão do cessar-fogo anunciada na terça-feira pelo governo dos EUA em relação ao Irã – e que terminaria na noite desta quarta -, as negociações têm se mostrado, até o momento, longe de uma “linearidade” que conduza a um cenário de superação do conflito.
“Permanece a disfunção na passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz”, com efeito direto sobre os preços, o custo da energia, em nível global, acrescenta o analista. “O que nos ajuda é que somos exportadores líquidos de petróleo”, ressalva Spiess, enfatizando também a exposição da B3 a ações do setor de energia, com destaque para Petrobras, que têm sido o fator determinante para o desempenho do Ibovespa nos dias mais voláteis, de alta ou baixa do petróleo.
Apesar da renovação do cessar-fogo por iniciativa do governo Trump, “o Irã tem afirmado que não retomará as negociações com os Estados Unidos até que ocorra uma cessação das ameaças”, aponta Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos Ele observa que a questão do enriquecimento de urânio, um aspecto central ao programa nuclear do Irã, passou também ao centro do debate, e tem sido um aspecto dos mais delicados no longo histórico de disputas e desconfiança mútua não apenas entre EUA e o país, mas também envolvendo o maior adversário regional do regime persa, Israel. “Ormuz continua com tráfego, praticamente, zero.”
Dólar
Após operar em leve baixa ao longo da tarde, o dólar à vista ganhou fôlego na reta final do pregão e encerrou a sessão desta quarta-feira, 22, estável, a R$ 4,9740. Operadores pontuam que o avanço do petróleo, com o barril do tipo Brent acima de US$ 100, deu suporte ao real em dia sinal predominante de alta da moeda americana no exterior e de queda aguda do Ibovespa.
A escalada da commodity contrabalança o aumento da percepção ao risco no exterior ao favorecer os termos de troca do país e, em tese, diminuir menos espaço para a redução da taxa Selic. A perspectiva de juros ainda muito elevados, com amplo diferencial em relação ao exterior, mantém a atratividade do carry trade e torna muito custosas apostas contra a moeda brasileira.
Apesar do presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado extensão do prazo de cessar-fogo com o Irã, após a ausência de progresso nas negociações de paz no fim de semana, o tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz – por onde é escoada cerca de 20% da produção global de petróleo – segue comprometido. Trump reiterou o bloqueio a navios e portos iranianos. Já Teerã reportou a apreensão de duas embarcações no Estreito.
À tarde, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que Trump ainda não determinou o prazo para um cessar-fogo, desmentindo a informação de prolongamento da trégua por período de 3 a 5 dias que circulou mais cedo. A porta-voz relatou que os EUA ainda aguardam uma resposta de lideranças iranianas, que estariam divididas e transmitindo mensagens divergentes. Antes, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que a quebra de compromisso, o cerco e as ameaças são obstáculos à negociação com os americanos.
O diretor de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que, apesar das incertezas em torno das negociações para um acordo de paz no Oriente Médio, o real tem se comportado muito bem. “Desde o início do conflito no Oriente Médio, é a moeda que mais se valorizou. Há ainda espaço para se apreciar mais”, afirma Weigt, ressaltando que o Brasil aparece bem posicionado por ser exportador líquido de petróleo e ter uma matriz energética bem diversificada, incluindo a produção de etanol. “Temos também uma taxa de juros muito elevada para uma inflação na casa de 4%. Se o fiscal estivesse ajeitado, o dólar já estaria em R$ 4,50.”
A moeda americana já apresenta desvalorização de 3,95% em abril, após alta de 0,87% em março, e está no menor nível de fechamento em pouco mais de dois anos. Em 2026, o dólar recua 9,38% em relação ao real, que exibe no período o melhor desempenho entre as moedas mais líquidas, incluindo divisas emergentes e fortes. Destaque também para o peso colombiano, com ganhos de mais de 5%, também favorecido pela alta do petróleo.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta ao longo do dia e atingiu a máxima da sessão, aos 98,643 pontos, perto do fechamento do mercado local, com a perda de fôlego do euro. Já a coroa norueguesa, ligada ao petróleo, subia mais de 0,30%. O Dollar Index sobe pouco mais de 0,40% na semana, mas ainda exibe recuo superior a 1,22% em abril.
Economistas e casas relevantes presentes na semana passada nos encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, EUA, relatam que investidores permanecem otimistas com os mercados emergentes. O Bradesco afirma em relatório que o Brasil apareceu em destaque como alternativa de investimento tanto em juros quanto em moeda. “O fato de ser produtor de petróleo, ter energia limpa, capacidade de receber data centers de IA, estar longe de conflitos e ser diplomaticamente neutro são fatores positivos”, afirma o banco.
Segundo a equipe de macroeconomia da XP Investimentos, comandada por Caio Megale, investidores estrangeiros veem o Brasil “como vencedor relativo em um ambiente geopolítico volátil”, marcado pelo conflito no Oriente Médio. A condição do Brasil como exportador de líquido de petróleo tende a sustentar o saldo comercial e fortalecer a moeda, ajudando a “mitigar pressões inflacionárias”, sobretudo se o governo conseguir suavizar o repasse de preços dos combustíveis.
“Neste cenário, a percepção predominante é que o real tenderia a se valorizar, ainda que as curvas de juros de curto prazo sigam pressionadas por conta do espaço limitado para o Banco Central reduzir a taxa Selic este ano”, afirma o time da XP, em relatório no qual que relata encontro com investidores nos Estados Unidos.
Juros
A curva a termo ganhou inclinação no pregão da volta do feriado de Tiradentes (terça, 21), com alta expressiva nos vencimentos médios e longos. O principal indutor da piora veio novamente da disparada do petróleo, que retornou ao patamar de US$ 100 o barril em meio ao impasse nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. Como fator de pressão adicional, a oferta de 1,5 milhão de títulos atrelados à inflação pelo Tesouro Nacional, totalmente aceita pelo mercado, também contribuiu para acentuar o aumento das taxas mais longas.
Encerrados os negócios nesta quarta, 22, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,933% no ajuste de segunda-feira, 20, para 14,01%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,305%, vindo de 13,166% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 fechou em 13,405%, de 13,26% no ajuste.
O contrato do petróleo tipo Brent para junho, referência para a Petrobras, voltou a superar os US$ 100. O barril encerrou a sessão com valorização de 3,5%, cotado a US$ 101,91, impulsionado pela continuidade do bloqueio no Estreito de Ormuz e pela dificuldade para que Washington e Teerã avancem em uma resolução para o confronto.
Com expectativa de que ocorresse nesta semana, uma nova rodada de tratativas entre os dois países foi cancelada, uma vez que os iranianos não haviam confirmado sua participação até ontem. Assim, o presidente dos EUA, Donald Trump, estendeu o cessar-fogo com o país persa até que representantes do Irã apresentem uma proposta.
Nesta tarde, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse que a quebra de compromissos, o cerco e as ameaças são os principais obstáculos à negociação. Já a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o governo Trump segue esperando resposta dos iranianos para as conversas, mas divisões internas na liderança do Irã dificultam uma mensagem unificada.
“Mesmo que haja algum otimismo com a postergação do prazo do cessar-fogo, há ceticismo sobre a resolução do conflito, enquanto o impasse permanece e o estreito continua fechado”, aponta Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset. Costa observa que o dia de hoje também foi marcado por escalada das tensões na rota estratégica.
Nesta madrugada (horário de Brasília), a Guarda Revolucionária do Irã abriu fogo contra um navio cargueiro do Reino Unido no estreito. De acordo com a Reuters, três porta-contêineres foram atingidos por disparos hoje no local, e a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) informou que apreendeu duas embarcações na passagem, por onde escoa um quinto do petróleo mundial.
“Se o estreito fica fechado, os preços do petróleo continuam altos. Há consequências sobre o mercado de energia, de fertilizantes, mais inflação e mais juros”, diz Costa, para quem a possibilidade de um corte de 0,5 ponto da Selic na reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom) voltou a ser improvável. “Teria que haver uma melhora importante do cenário para isso, o que dificilmente vai acontecer nas próximas semanas “
A curva futura precificava neste fim de tarde praticamente 100% de chance de redução de 25 pontos-base do juro no encontro dos dias 28 e 28 de abril do Copom. Para o fim de 2026, a taxa projetada pela curva a termo está em 13,60%. Os cálculos são de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG.
Do lado da oferta, o Tesouro vendeu integralmente o lote de 1,5 milhão de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) ofertado, sendo que, destas, 500 mil tinham como vencimento maio de 2055 – primeiro certame deste vértice no segundo trimestre, observa Luis Felipe Vital, estrategista de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos. O papel para 2055 não era ofertada desde os leilões “off-the-run” de 2025, nota Vital, o que contribui para uma demanda maior pelo papel.