Por Amanda Martins e Anna Vitória
Carlos costuma dizer que precisa tomar remédio para pressão antes das partidas do Distrito Futebol Clube (DFC).
A afirmação vem acompanhada de uma risada, mas carrega um fundo de verdade.
Da lateral do campo, o treinador acompanha cada passe, cada erro e cada oportunidade de gol com a ansiedade de quem sabe que ali está em jogo muito mais do que uma vitória.
Quando o time vence, ele diz que o ambiente ganha “a melhor fragrância de perfume do mundo”.
A metáfora pode soar exagerada para quem vê apenas uma partida. Para Carlos, porém, o futebol nunca foi apenas um esporte.
O coração e a mente por trás dessa engrenagem é Carlos Eduardo Sousa.
Aos 41 anos, o maranhense radicado em Brasília divide sua rotina intensa entre os gramados e a solidez burocrática da Esplanada dos Ministérios, onde atua profissionalmente na Fundação Cultural Palmares.
Distrito
Foi a partir da sua liderança e da articulação com outros atletas que o Distrito Futebol Clube ganhou vida.
Nascido em São Luís, ele cresceu em uma família que se reunia para assistir aos jogos do Brasil. Como tantos brasileiros, aprendeu cedo a amar o futebol.
Ao mesmo tempo, descobriu algo que muitos homens gays aprendem desde a infância: gostar do jogo nem sempre significa sentir-se bem-vindo nele.
“Eu sempre tive que me comportar para não ter piadinhas”, relembra.
A frase parece simples, mas ajuda a compreender uma experiência compartilhada por muitos atletas LGBTQIAPN+.
O futebol brasileiro foi marcado por modelos rígidos de masculinidade e, em muitos campos, vestiários e arquibancadas, qualquer comportamento que fugisse desse padrão era recebido com chacota ou hostilidade.
Carlos, fundador e presidente do Distrito FC. Foto: Arquivo pessoal.
Um lugar para pertencer
Foi justamente para enfrentar essa realidade que nasceu o Distrito Futebol Clube, em 2018.
O projeto surgiu da vontade de criar um espaço onde pessoas LGBTQIAPN+ pudessem jogar futebol sem precisar esconder quem são.
Hoje, o time reúne cerca de 25 atletas de diferentes regiões administrativas do Distrito Federal e do entorno.
Além dos treinos, o grupo promove amistosos abertos que atraem dezenas de participantes e apoiadores.
Mais do que formar uma equipe competitiva, o clube busca construir uma rede de acolhimento.
Carlos conta que muitos jogadores chegam ao projeto com histórias semelhantes, marcadas por episódios de homofobia em ambientes esportivos tradicionais, medo de julgamento e a sensação constante de não pertencimento.
“É de grande importância, considerando que nossos atletas, a maioria, quando chegam, relatam casos de homofobia em jogos héteros, sendo muitos casos jogando piadinhas. Por isso, justamente precisamos ter uma base, com profissionais para receber estes jogadores, como psicólogos e terapia em grupos”.
A psicóloga Letícia Silva Monteiro explica que muitos atletas LGBTQIAPN+ convivem com o chamado “estresse de minoria”, um desgaste psicológico causado pela exposição frequente ao preconceito, à exclusão e ao medo da rejeição.
“Quando encontram espaços acolhedores, a relação com o esporte muda. Deixa de ser um lugar associado à ameaça e passa a ser um espaço de pertencimento, acolhimento e reconhecimento”, afirma Letícia.
A águia no peito
A identidade que o Distrito Futebol Clube, time da Candangolândia, carrega no peito não foi escolhida ao acaso.
No centro da identidade visual está a águia, símbolo de poder, liderança, coragem, visão estratégica e liberdade.
Na prática, esse ideal se reflete na defesa de políticas públicas voltadas às periferias e ao acesso à saúde.
Afinal, manter um time periférico e inclusivo de pé exige muito mais do que força de vontade.
Atualmente, cada jogador do elenco fixo contribui com uma mensalidade de R$ 50, utilizada na manutenção das atividades e na compra de materiais esportivos.
A sobrevivência e a estrutura atual do clube dependem de uma rede de articulação e solidariedade.
O campo onde acontecem os treinos atualmente é cedido gratuitamente, fruto de uma articulação entre a comissão técnica, o Gabinete 24 do deputado distrital Fábio Félix e a Administração Regional da Candangolândia.
Mais que futebol
O elenco conta com atletas do Itapoã Parque, Taguatinga, Ceilândia, Samambaia, Gama e Formosa.
Apesar das trajetórias diferentes, os jogadores compartilham a experiência de encontrar no Distrito FC um espaço onde podem jogar sem esconder quem são.
Os treinos acontecem em um campo público de gramado sintético localizado na Candangolândia, cedido gratuitamente em um acordo entre a administração da RA e o gabinete do deputado Fábio Félix (PSOL).
Esse ambiente acolhedor transforma a própria dinâmica do jogo. Carlos relata que jogar em um espaço majoritariamente LGBTQIAPN+ proporciona uma experiência muito diferente daquela vivida em campos tradicionais.
A liberdade se reflete até na forma de falar e de pedir a bola. Quando surgem tensões e desentendimentos comuns de uma partida, o grupo procura resolvê-los ali mesmo, em campo, sem levar os conflitos para a vida fora dali.
“É bem melhor, até mesmo nas falas e na troca de bola. Às vezes temos tensões, mas resolvemos ali mesmo, para não sair do campo e levar junto”, diz Carlos.
Atletas se reúnem antes de uma partida. Para muitos integrantes, o clube representa um espaço de acolhimento dentro do esporte. Foto: Arquivo Pessoal.
Do Centro-Oeste ao topo
Embora ainda busque seu primeiro título, o DFC já acumula resultados expressivos. O clube conquistou o segundo lugar em duas competições e terminou em terceiro em outra oportunidade.
O maior marco da história do clube até aqui ocorreu em 2022, quando se tornou o primeiro time de Fut7 de toda a Ligay, é uma associação esportiva de futebol society que reúne equipes semi profissionais e amadoras compostas por atletas da comunidade LGBTQIAPN+, a receber uma emenda parlamentar. O recurso, destinado pelo deputado Fábio Félix, foi utilizado para viabilizar o “Festival de Cores LGBTQIAPN+ do DFC”. O evento, que ofereceu uma ampla programação de debates, arte, cidadania e saúde, colorindo a cidade com as cores do orgulho marcou uma nova fase para o clube e sediou a etapa Centro-Oeste da Ligay.
O foco do DFC continua sendo fortalecer sua estrutura financeira e ampliar as oportunidades para os atletas. Para Carlos, combater a homofobia e o preconceito no esporte é um dever coletivo. Ele diz que se vê nos atletas profissionais quando assiste jogos na TV, “Me enxergo sim, sempre. Porém, temos que deixar claro: ainda temos muito a caminhar, trazendo políticas públicas, ajuda de custo para os atletas, precisamos ter dinheiro em caixa, patrocínio, emendas parlamentares, dentre outros”.
Legado
Ao falar sobre o que espera deixar como legado, Carlos menciona o fortalecimento do clube e a ampliação das oportunidades para seus atletas. Mas o principal objetivo parece mais simples: é mostrar que ninguém precisa escolher entre o futebol e a própria identidade. “Meu orgulho é ter conseguido alavancar o DFC, trazendo para os treinos um campo 100% grátis, estruturando melhor a nossa pelada semanalmente, que antes era em campo pago. Mas, temos que avançar mais ainda”.
Quando questionado sobre a mensagem que gostaria de transmitir a jovens LGBTQIAPN+ que têm medo de entrar em campo, a resposta é direta: eles não estão sozinhos. Em um esporte onde muitos ainda enfrentam preconceitos, o DFC busca mostrar que o futebol também pode ser um espaço para existir sem medo.
Atleta do Distrito FC disputa lance durante partida. Foto: Arquivo Pessoal.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira