Por Diller Abreu
A bola ainda nem começou a rolar, mas o campo já está cheio de histórias. As camisas estampam a palavra “respeito” enquanto estudantes, advogados, jornalistas, banqueiros e profissionais das mais diversas áreas dividem o gramado com o mesmo propósito: se divertir.
Para quem observa de longe, parece apenas mais uma “pelada” entre amigos. Basta permanecer alguns minutos para perceber que existe algo diferente naquele ambiente. Ali, ninguém precisa esconder quem é.
Ali, ninguém precisa medir palavras, disfarçar gestos ou silenciar partes de si mesmo para ser aceito. Diante desse propósito nasceu o Bravus Esporte Clube, a primeira equipe LGBTQIAPN+ de futebol do Distrito Federal.
Paixões
Fundado em 2017, o time amador nasceu da vontade de um grupo de amigos que compartilhava uma paixão em comum pelo futebol, mas também carregava uma sensação de desconforto que se repetia em muitos campos espalhados pelo país.
Embora o futebol seja frequentemente chamado de esporte mais democrático do mundo, para muitas pessoas LGBTQIAPN+ os gramados podem ser territórios marcados pelo medo do julgamento, pelas piadas e pela necessidade constante de esconder a própria identidade. Foi justamente dessa realidade que surgiu a ideia de criar algo novo.
“Tinha muita gente que queria jogar futebol, mas não se sentia à vontade nas peladas convencionais. O que fizemos foi criar um espaço em que cada um se sentisse livre para jogar e ser quem quisesse”, relembra Jonathan Mendonça, um dos fundadores da equipe.
Futebol para todos
A proposta parecia simples: reunir pessoas para jogar futebol. Mas o projeto rapidamente se transformou em algo muito maior. O que começou como encontros esportivos passou a funcionar também como uma rede de apoio, amizade e acolhimento para pessoas que, durante muito tempo, sentiram que não pertenciam ao universo do futebol.
O lema escolhido pelo clube traduz essa missão. “Inclusão, diversidade e amizade.” Três palavras que, para os integrantes, vão muito além de um slogan estampado em redes sociais ou camisetas. Elas são vividas diariamente dentro e fora das quatro linhas.
“Queremos representatividade para que possamos integrar cada vez mais pessoas e ajudá-las a superar as dificuldades impostas pela sociedade às minorias”, afirma o dirigente da equipe, Gabriel Wense.
Para ele, o futebol é apenas o ponto de encontro. “O Bravus é uma grande família que se uniu através do futebol”. A ideia de família aparece repetidamente nos relatos dos jogadores. E talvez seja essa a melhor definição para o grupo.
Além dos treinos semanais, os integrantes promovem encontros mensais, churrascos e confraternizações que fortalecem os laços construídos dentro do campo. Não se trata apenas de disputar partidas. Significa construir pertencimento.
A equipe compete no maior campeonato nacional de futebol LGBTQIAPN+, a Champions Ligay. A competição reúne times de todas as partes do país, com etapas em cada região. Na última edição, os candangos se sagraram campeões do módulo Centro-Oeste. Além do principal torneio do calendário, o elenco desbrava mais campeonatos amadores, tendo conquistado o Campeonato Mineiro Múltipla, em 2021, e a Copa Nordeste, em 2019.
Lar doce lar
Entre os participantes estão pessoas que chegaram recentemente a Brasília, jovens que buscavam novas amizades e até mesmo jogadores que passaram anos escondendo sua orientação sexual em ambientes esportivos tradicionais.
Um deles é Cesar Ferreira Filho, natural do Ceará, que se mudou para a capital federal no início de 2018 em busca de novas oportunidades.
Apaixonado por futebol desde a infância, encontrou no Bravus uma experiência completamente diferente daquela que havia vivido anteriormente. “Sempre joguei peladas hétero. As pessoas não sabiam da minha orientação sexual e eu sempre escutava piadinhas que me deixavam desconfortável”, conta.
As brincadeiras pareciam inofensivas para quem as fazia, mas deixavam marcas em quem as ouvia. Comentários sobre trejeitos, insinuações e estereótipos faziam parte da rotina de muitos gays em ambientes esportivos convencionais.
O resultado era quase sempre o mesmo: silêncio. Muitos preferiam esconder sua identidade para evitar constrangimentos. Outros simplesmente abandonavam o esporte. Com Cesar, não foi diferente.
Por muito tempo, jogar futebol significava também suportar situações desconfortáveis, até encontrar o Bravus. “Na Bravus não. Desde o primeiro dia fui muito bem recebido. É um ambiente de muita amizade e respeito”, afirma.
A experiência do jogador reflete uma realidade mais ampla. Apesar de sua popularidade global, o futebol ainda é considerado um dos esportes mais resistentes à diversidade sexual na modalidade masculina. Ao longo de mais de um século de história, poucos atletas profissionais se sentiram seguros para assumir publicamente a homossexualidade.
“Iniciativas como o Bravus representam mais do que um simples projeto esportivo. Elas se transformam em espaços de resistência”, afirma César.
Isso não significa, porém, que o preconceito tenha desaparecido. Paulo Nascimento, dirigente da equipe, diz que a convivência com outros times costuma ser respeitosa na maior parte do tempo. Mas episódios de discriminação ainda acontecem. “Já percebi comentários dos outros times do tipo ‘Ah, eles vão jogar contra os viados’ quando passávamos sem uniforme chegando para jogar”, relata.
Vencer incomoda
Em outros momentos, os insultos aparecem quando o resultado da partida não agrada os adversários. “Outros apelam quando estão perdendo. Fico na dúvida se a frustração é somente pela derrota ou se entra o fator de estar perdendo para um time gay”.
A fala revela uma realidade contraditória, onde muitas vezes o preconceito surge justamente quando estereótipos são desafiados. Quando um time LGBTQIAPN+ vence, quando joga bem e quando ocupa espaços que historicamente lhe foram negados.
Dentro do Bravus, entretanto, a resposta não acontece por meio do confronto. Ela ocorre através da permanência, ocupação dos campos e criação de espaços seguros. Da demonstração diária de que o futebol pertence a todos.
Quando o jogo termina, os placares rapidamente perdem importância. O que permanece são as conversas à beira do campo, os abraços, as fotografias e a sensação de pertencimento compartilhada entre os participantes. No Bravus, a vitória mais celebrada não é medida em gols marcados ou partidas vencidas.
Ela ocorre toda vez que alguém encontra coragem para voltar a jogar futebol sem medo de julgamentos. Em um esporte que ainda convive com barreiras à diversidade, o Bravus mostra que o futebol pode ser, de fato, um espaço para todos.
A Champions Ligay foi criada em 2017 e hoje é a competição de maior prestígio entre os times LGBT’s.
O próprio clube faz questão de reforçar esse princípio. Embora tenha sido criado para acolher a comunidade LGBTQIAPN+, a participação nunca esteve restrita a ela. “Acolhemos todo mundo, independentemente de ser ou não LGBT. Aqui a gente só não tolera preconceito”, resume Cesar.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira