Pacientes ostomizados vivem crise por falta de insumos na rede pública de saúde do DF

“É como se a gente ficasse refém. Acabou a bolsa e a gente só tem que esperar.” O relato é do auxiliar administrativo Carlos Eduardo Lourenço, 25 anos, um dos cerca de 2,5 mil pacientes ostomizados atendidos pela rede pública de saúde do Distrito Federal que enfrentam a falta de bolsas de colostomia e outros insumos essenciais para o tratamento. Enquanto a Secretaria de Saúde tenta concluir trâmites administrativos para regularizar os estoques, pacientes relatam medo constante, improvisos e episódios de humilhação provocados pela escassez do material.

A ostomia é um procedimento cirúrgico que cria uma abertura no abdômen para permitir a eliminação de fezes ou urina. Dependendo do órgão envolvido, o procedimento recebe nomes diferentes, como colostomia, ileostomia e urostomia. Para os pacientes, a bolsa coletora não é apenas um acessório médico, mas um dispositivo indispensável para higiene, saúde e dignidade.

Diagnosticado aos 15 anos com polipose adenomatosa familiar (PAF), doença hereditária que evoluiu para um câncer, Carlos afirma que precisou amadurecer cedo demais. Em 2016, passou pela primeira cirurgia e precisou usar bolsa de colostomia pela primeira vez.

Depois de novas cirurgias ao longo dos anos, o câncer voltou em 2023 e Carlos precisou retomar o uso da bolsa. Agora, além da doença, passou a enfrentar outro problema: a dificuldade para conseguir os materiais básicos na rede pública. “A primeira mudança que eu senti foi insegurança e medo. Você fica sem um norte. Acabou a bolsa, o que eu vou fazer?”, questiona.

Mesmo trabalhando atualmente, ele afirma que nem sempre consegue comprar os materiais por conta própria. Segundo Carlos, uma única bolsa pode custar caro demais para quem já enfrenta despesas médicas constantes. “Às vezes a gente encontra algumas mais acessíveis, mas são de péssima qualidade. Já aconteceu de eu precisar comprar no desespero para não ficar vazando.”

Carlos conta que mandava mensagens frequentes para o polo de distribuição perguntando se os materiais haviam chegado. Sem resposta concreta, passou a prolongar o uso das bolsas além do recomendado. “O certo é trocar a cada três dias. Mas eu já fiquei uma semana com a mesma bolsa”, relata. O improviso trouxe consequências imediatas: queimaduras na pele, vazamentos e situações constrangedoras dentro do ambiente de trabalho. “Já aconteceu de vazar no serviço e eu não ter outra para trocar.”

Para ele, o sentimento vai além da preocupação médica. “É meio humilhante às vezes. Você deixa de trocar por medo. Você pensa: ‘se essa bolsa vazar, eu não tenho outra’. A gente fica refém disso.”

“Eu tô com a última bolsa”

Os insumos também faltaram para Elizângela Maria Fernandes, 50 anos. Soropositiva, desempregada e vivendo de benefícios do governo, ela afirma que já passa mais tempo em hospitais do que dentro da própria casa. Moradora de Planaltina, Elizângela conta que procurou atendimento na policlínica da região, no Hospital Regional de Planaltina e até no Hospital de Base, mas saiu de todos os locais sem conseguir o material. “Eu tô com a última colada na minha pele. Se ela vazar eu vou ficar sem bolsa porque não tenho dinheiro para comprar”, desabafa.

Segundo ela, no início do tratamento recebia cerca de 20 bolsas por mês. Depois, o número caiu para 15. Com o agravamento da falta de materiais, passaram a entregar apenas 10 unidades mensais. Agora, segundo a paciente, não há mais nenhuma disponível.

Sem alternativas, Elizângela passou a depender de doações feitas pela Associação dos Ostomizados do Distrito Federal (AOSDF), que conseguiu fornecer cinco bolsas emergencialmente. O estoque, porém, acabou rapidamente.

Durante a entrevista ao Jornal de Brasília, a situação ficou ainda mais desesperadora. Enquanto relatava a falta de materiais, a própria bolsa rompeu. “Tá vazando para tudo que é lado agora. Não sei o que vou fazer. Vou ter que ficar sem bolsa até pegar uma infecção”, contou emocionada.

Medo, isolamento e risco de infecção

Segundo a presidente da Associação dos Ostomizados do Distrito Federal (AOSDF), Ana Paula Batista, os relatos recebidos pela entidade vão muito além do desconforto físico. Há pacientes reduzindo a alimentação para diminuir eliminações, reutilizando materiais inadequadamente e deixando de trabalhar ou sair de casa por medo de vazamentos.

“Recebemos mensagens de mães desesperadas sem saber como cuidar dos filhos com ostomia, idosos reutilizando bolsas além do recomendado, pessoas realizando adaptações improvisadas e usuários chegando à associação chorando, pedindo ajuda porque simplesmente não sabem como irão passar os próximos dias”, relata.

Segundo ela, a associação já havia alertado oficialmente a Secretaria de Saúde desde setembro de 2025 sobre o risco de desabastecimento. Ainda assim, os processos licitatórios sofreram sucessivas prorrogações.

Os principais itens em falta envolvem bolsas coletoras específicas, como modelos convexos, bolsas nos tamanhos 70 e 90, além de adjuvantes utilizados para proteção da pele e fixação adequada dos dispositivos. “Estamos falando de pessoas que dependem integralmente desses produtos para viver com dignidade”, afirma Ana Paula.

“A bolsa não é um item de conforto”

O coloproctologista Danilo Munhóz alerta que o uso prolongado da mesma bolsa pode provocar complicações graves.

“Quando um paciente permanece muitos dias com a mesma bolsa, principalmente por uma semana ou mais, a região ao redor da estomia fica constantemente exposta à umidade, resíduos intestinais e proliferação de bactérias e fungos”, explica.

Segundo ele, a reutilização prolongada pode provocar dermatites, lesões graves, feridas abertas, infecções bacterianas e sangramentos. “O paciente entra em um ciclo perigoso. A pele lesionada dificulta a fixação da bolsa, causando novos vazamentos e agravando ainda mais o quadro”, afirma.

O médico destaca ainda os impactos emocionais provocados pela crise. “A falta de acesso adequado às bolsas compromete diretamente a segurança, a autoestima e a dignidade desse paciente.”

Judicialização e falhas de gestão

Para o advogado Raul Canal, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), o aumento de pacientes recorrendo à Justiça revela falhas graves na gestão pública da saúde. “Não se trata de um benefício facultativo, mas de um direito assegurado pela Constituição Federal”, afirma.

Segundo ele, pacientes podem solicitar judicialmente tutela de urgência para garantir o fornecimento imediato das bolsas e demais insumos indispensáveis ao tratamento. “O Judiciário costuma analisar justamente o risco decorrente da demora, para evitar agravamento do quadro clínico”, explica.

Dependendo da gravidade da situação, segundo o especialista, o paciente também pode buscar indenização por danos morais em casos de omissão do poder público.

O que diz a associação

Em nota, a Associação dos Ostomizados do Distrito Federal informou que acompanha os desdobramentos junto à Secretaria de Saúde e às empresas responsáveis pelo fornecimento dos materiais. Segundo a entidade, as atas para assinatura começaram a ser disponibilizadas na última semana e as empresas iniciaram os trâmites para envio e distribuição dos produtos.

Enquanto isso, a associação segue realizando acolhimento emergencial e distribuição de doações obtidas com parceiros institucionais. “Bolsa coletora não é favor. É direito”, afirmou a entidade

Em nota, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que a rede pública conta atualmente com 13 ambulatórios especializados no atendimento a pessoas com estomia, distribuídos em todas as regiões de saúde do DF. Segundo a pasta, os pacientes recebem acompanhamento individualizado realizado por enfermeiros capacitados, responsáveis por definir o tipo de bolsa e a quantidade necessária conforme as condições clínicas de cada usuário.

A SES-DF confirmou, porém, que houve desabastecimento de bolsas em algumas unidades da rede. Segundo a pasta, o processo licitatório para aquisição dos insumos está em fase de assinatura das atas de registro de preços e, após a conclusão dessa etapa, os pedidos serão emitidos para regularização dos estoques nas unidades de atendimento.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF

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