Hoje, quem percorre o Centro de Goiânia encontra uma realidade diferente do que foi décadas atrás. Imóveis vazios, edifícios degradados, equipamentos culturais subutilizados e um movimento que se concentra quase exclusivamente no horário comercial revelam uma transformação que se consolidou ao longo de décadas. Para historiadoras ouvidas pelo Mais Goiás, recuperar o Centro exige muito mais do que restaurar fachadas: significa devolver à população o sentimento de pertencimento e preservar um patrimônio que conta a própria história do Estado.
“O Centro de Goiânia é o lugar onde a história da cidade começou a ser construída. É ali que se concentram os primeiros edifícios públicos da capital, representando um projeto de modernização pensado para simbolizar uma nova etapa de Goiás”, afirma a historiadora Sofia Corso. Para ela, preservar essa região significa manter vivas as marcas do processo que transformou Goiânia na capital do estado. A pesquisadora recorda que, ainda adolescente, frequentava o Cine Cultura e diversos eventos realizados na região, experiências que ajudaram a construir sua própria relação afetiva com a cidade.
A análise converge com a da historiadora Mayara Melo Quinta Volz Terres, mestranda em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), integrante do Comitê Gestor do Patrimônio Mundial de Goiás e técnica do Núcleo de Preservação do Patrimônio Material e Imaterial da Secretaria de Estado da Cultura. Para ela, o Centro materializa muito mais do que o núcleo inicial da capital: representa um projeto político e urbanístico que marcou profundamente a identidade goiana.
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Projetada por Attílio Corrêa Lima e inaugurada oficialmente em 1933, Goiânia nasceu como símbolo da modernização de Goiás e da política de interiorização do desenvolvimento. A mudança da antiga capital, então Cidade de Goiás, para a nova sede administrativa representou uma ruptura histórica. O Centro foi concebido como palco dessa transformação, reunindo os principais edifícios públicos, largos, avenidas monumentais e um dos maiores conjuntos arquitetônicos em estilo Art Déco do país, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2003.
Vale lembrar que foi entre a Praça Cívica, a Avenida Goiás, o Grande Hotel, os edifícios Art Déco e as primeiras repartições públicas que a nova capital começou a ser desenhada na década de 1930. Ali nasceram decisões políticas, manifestações culturais, encontros familiares, cinemas de rua, cafés, lojas tradicionais e parte da identidade construída por sucessivas gerações de goianienses.
O Centro era a própria cidade
Durante décadas, praticamente toda a vida urbana acontecia ali. Era no Centro que estavam os grandes hotéis, as lojas mais tradicionais, os cinemas, os teatros, os cafés, as igrejas, os bancos, os consultórios médicos, os escritórios de advocacia e as sedes dos poderes públicos. Mais do que um endereço comercial, a região funcionava como um espaço permanente de convivência.
“Nas primeiras décadas, o Centro era o coração da cidade. Era onde as pessoas trabalhavam, faziam compras, encontravam amigos, frequentavam cinemas, cafés, igrejas, praças e participavam da vida política. A própria configuração urbana favorecia essa convivência cotidiana”, explica Sofia Corso. De acordo com ela, o Centro reunia funções que hoje estão dispersas em diferentes bairros. Essa concentração criava uma intensa vida pública, tornando as ruas espaços de encontro e construção da memória coletiva.
Segundo Mayara Terres, essa ocupação intensa não ocorreu por acaso. A historiadora explica que o desenho urbano da capital foi planejado para concentrar funções administrativas, econômicas e simbólicas em um mesmo território, fortalecendo a imagem de uma cidade moderna e organizada. Ela acrescenta que com o passar das décadas, entretanto, esse protagonismo começou a se diluir.
Como Goiânia deixou seu próprio coração
Não existe uma data exata para o início do esvaziamento da região central. As duas historiadoras apontam que o fenômeno foi gradual e acompanhou o crescimento da cidade.
A partir das décadas de 1970 e 1980, Goiânia passou por uma expansão acelerada em direção a novos bairros. A valorização imobiliária em outras regiões, o surgimento dos shopping centers, a descentralização de serviços, a abertura de novos polos comerciais e a mudança do perfil residencial transformaram a dinâmica urbana.
“Esse processo ocorreu de forma gradual. Muitas famílias deixaram o Centro e passaram a morar em regiões mais afastadas. Aos poucos, ele passou a concentrar principalmente atividades comerciais durante o dia, perdendo parte da vida cotidiana que existia anteriormente”, observa Sofia. Ela ressalta que o fenômeno também ocorreu em diversas cidades brasileiras, mas avalia que a falta de políticas permanentes de valorização agravou o abandono da região.
Para Mayara, crescer era inevitável. O problema não foi a expansão territorial, mas a ausência de planejamento capaz de manter o Centro vivo enquanto a cidade se desenvolvia. O resultado foi um processo de perda gradual de moradores, fechamento de imóveis, redução da circulação noturna e enfraquecimento da vida cultural, fatores que alimentaram um ciclo de desvalorização.
Na avaliação das pesquisadoras, recuperar essa dinâmica exige reconhecer que revitalizar o Centro não significa apenas restaurar edifícios históricos. É preciso fazer com que as pessoas voltem a ocupar diariamente a região — morando, estudando, trabalhando, consumindo cultura e utilizando os espaços públicos.
Patrimônio, cultura e moradores: a equação para fazer o Centro voltar a viver
Se existe consenso entre as especialistas, ele começa por uma mudança de perspectiva: a reconstrução física precisa caminhar ao lado da reconstrução da vida urbana. “Existe uma diferença importante entre restaurar edifícios e revitalizar uma cidade. Revitalizar significa recuperar a vida urbana. Isso envolve moradia, circulação de pessoas, equipamentos culturais, comércio local, segurança, mobilidade e espaços públicos de qualidade. Significa recuperar o sentimento de pertencimento. Uma cidade não se sustenta apenas por suas construções, mas pelas relações que seus habitantes estabelecem com elas”, resume Sofia Corso.
Essa visão também aparece na análise de Mayara Terres. Para a historiadora, o patrimônio histórico deve deixar de ser visto apenas como uma lembrança do passado e passar a integrar a estratégia de desenvolvimento da cidade. O conjunto Art Déco de Goiânia, reconhecido nacionalmente, pode impulsionar turismo, economia criativa, educação patrimonial, atividades culturais e novos negócios, desde que seja incorporado ao cotidiano da população.
A própria história recente demonstra que apenas investir em obras não garante vitalidade urbana. Diversas cidades brasileiras e internacionais conseguiram recuperar seus centros históricos combinando moradia, incentivos econômicos, preservação patrimonial, cultura, mobilidade e ocupação permanente dos espaços públicos.
O risco da revitalização sem pessoas
A Prefeitura de Goiânia aposta no programa Morar no Centro, que pretende atrair cerca de 10 mil novos moradores para a região por meio de incentivos habitacionais. A estratégia é considerada importante pelas historiadoras, mas ambas alertam que ela não resolverá, sozinha, décadas de esvaziamento urbano.
“Trazer moradores de volta costuma ser uma estratégia importante, mas não pode ser uma solução isolada. Seria mais interessante investir para que a atividade cultural volte a florescer e pensar habitação ao mesmo tempo”, avalia Sofia Corso. Para ela, a pandemia de Covid-19 agravou o fechamento de estabelecimentos comerciais e reduziu ainda mais a programação cultural da região central.
Outro ponto de atenção é evitar que a valorização imobiliária provoque um efeito contrário ao desejado. A substituição da população tradicional por grupos de maior renda — processo conhecido internacionalmente como gentrificação — ocorreu em diversos projetos de revitalização pelo mundo. Para as pesquisadoras, Goiânia precisa aprender com essas experiências para que o Centro volte a ser um espaço diverso, acessível e democrático.
Segundo Mayara, desenvolvimento urbano e preservação histórica não são conceitos opostos. Ao contrário, políticas públicas bem estruturadas conseguem equilibrar crescimento econômico, proteção do patrimônio e inclusão social, fortalecendo a identidade da cidade sem descaracterizar sua história.
Muito além da Praça Cívica
Quando perguntada sobre quais lugares deveriam receber atenção prioritária, Sofia amplia o olhar para além dos cartões-postais. Ela cita a necessidade de fortalecer novamente a vida cultural da Rua do Lazer, recuperar o tradicional chorinho da Rua 3, revitalizar o Beco da Codorna, restaurar o Teatro Goiânia, recuperar o Mercado da Rua 3 e preservar o conjunto Art Déco, que, segundo ela, sofre com anos de abandono.
“A memória urbana não está apenas nos edifícios monumentais. Ela também está nas calçadas, nos mercados, nas ruas, nos pequenos comércios e nos lugares que fazem parte da experiência cotidiana da população”, afirma.
Para Mayara, preservar o Centro significa também preservar as histórias vividas nesses espaços, permitindo que novas gerações compreendam a importância da região para a formação da capital.
A cidade escolhe como lembrar de si mesma
As historiadoras defendem que universidades, pesquisadores e professores devem participar das decisões sobre o futuro do Centro, produzindo conhecimento que oriente políticas públicas e aproximando a população do patrimônio histórico. “A universidade produz conhecimento capaz de orientar políticas públicas, documentar a memória da cidade e ampliar o debate público sobre patrimônio”, destaca Sofia. “Os historiadores ajudam a mostrar que toda cidade é resultado de escolhas. E compreender essas escolhas é fundamental para decidir quais caminhos queremos seguir daqui para frente’’, detalha.
No fim, a discussão sobre revitalização ultrapassa a arquitetura, o urbanismo ou a economia. Trata-se da relação que Goiânia estabelece com a própria história. “Acredito que uma cidade revela muito sobre a forma como ela escolhe lidar com sua própria história. Revitalizar o Centro não deve significar apagar suas marcas para produzir uma cidade mais moderna ou mais atrativa ao mercado. O verdadeiro desafio é construir um Centro vivo, habitado e diverso, preservando as memórias que o constituem e criando novas experiências para as próximas gerações”, conclui Sofia Corso. “Uma cidade que perde seus lugares de memória não perde apenas edifícios; perde parte da sua capacidade de compreender quem é”, alerta.
É justamente esse equilíbrio que especialistas apontam como o grande desafio de Goiânia. A cidade que nasceu a partir de um projeto inovador para o interior do Brasil agora precisa decidir se o seu núcleo histórico será tratado apenas como uma lembrança do passado ou como um espaço estratégico para construir o futuro. Preservar o Centro não é olhar para trás; é garantir que a memória continue fazendo parte da vida cotidiana dos goianienses e que o coração da capital volte a pulsar com a intensidade que marcou suas primeiras décadas.