Os suspeitos de articular o maior furto virtual já registrado no Brasil levavam uma vida de luxo em Goiânia, segundo a Polícia Federal. Investigados por desviar R$ 800 milhões de contas ligadas ao Banco Central, eles tinham imóveis em áreas nobres, carros de alto padrão, fazendas e propriedades no exterior. Entre os bens identificados estão um Porsche Macan, avaliado em cerca de R$ 400 mil, e uma Lamborghini Urus, estimada em R$ 3 milhões. O crime ocorreu em junho de 2025.
O suposto mentor do ataque, Ítalo Jordi Santos Pireneus, conhecido como “Breu do Pix”, é paraense, mas tinha residência em Goiânia. Cinco dias após o ataque hacker, executado de um quarto de hotel em Brasília, ele deixou o Brasil em um jato fretado que partiu do Aeroporto Santa Genoveva, na capital goiana, fez escala em Curitiba e seguiu para a Argentina. O homem conseguiu um novo passaporte e viajou para a França e, depois, para Valência, na Espanha, onde foi preso junto com outros sete suspeitos.
Segundo a Polícia Federal, parte do dinheiro desviado foi usada na compra de apartamentos em bairros nobres de Goiânia, imóveis em Balneário Camboriú (SC), fazendas na Bahia e propriedades em Angola, na África.
Esquema envolveu Pix e criptomoedas
Os R$ 800 milhões foram desviados de contas de pagamentos instantâneos mantidas por oito instituições financeiras no Banco Central, valores que garantem a liquidação de transações via Pix de clientes. Os criminosos espalharam o dinheiro em múltiplas contas de 29 instituições até chegar a Patrick Zanquetim, estudante de medicina suspeito de ocultar a origem dos recursos. Ele enviou as quantias para uma corretora de criptomoedas no exterior, realizou novas transações com criptoativos e devolveu o dinheiro aos suspeitos no Brasil, cobrando comissão.
Cerca de R$ 600 milhões foram convertidos em criptomoedas. Zanquetim, que não fugiu do país, segue preso em Goiânia. A Polícia Federal localizou os suspeitos ao quebrar o sigilo das contas de criptoativos que receberam as transferências via Pix, o que levou ao celular de Zanquetim, onde havia trocas de mensagens com Breu.
Breu fugiu do Brasil mesmo com o passaporte retido em razão de uma prisão domiciliar anterior por estelionato e falsificação de documento. A Justiça goiana já havia apontado risco de fuga em 2021. Entre 2024 e 2025, ele tentou, sem sucesso, recuperar o documento.
Na Argentina, conseguiu emitir um novo passaporte e usou o documento para voar à França em 29 de julho, de onde seguiu para a Espanha. Outros dois suspeitos, conhecidos como “Russo” e “Spider”, deixaram o Brasil em 4 de julho em voo comercial de Guarulhos para a Alemanha, comprando passagens no mesmo dia. Não há registros de como seguiram para a Espanha.
Os investigados já impetraram diversos habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e questionaram a constitucionalidade do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), sendo representados por advogados como o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Até o momento, todos os pedidos de liminar foram negados no Brasil.
Liberdade provisória na Espanha
Apesar dos pedidos de extradição formulados pelo Brasil, oito envolvidos estão em liberdade provisória na Espanha desde 16 de janeiro. A Justiça espanhola concedeu a soltura porque o governo brasileiro não entregou a documentação necessária dentro do prazo de 80 dias, que venceu em 5 de janeiro. Os documentos só chegaram às autoridades espanholas em 19 de janeiro.
E-mails anexados aos autos do processo indicam que houve erro do Ministério da Justiça no cálculo do prazo. O departamento responsável pelas extradições chegou a pedir que o Tribunal de Justiça de São Paulo encaminhasse toda a documentação até o dia 10 de janeiro, quando o prazo já estava esgotado. O governo brasileiro teria até 19 de janeiro para enviar os papéis, mas a contagem dos 80 dias começou em 14 de outubro, data em que a Justiça espanhola pediu a prisão dos suspeitos às autoridades da Espanha (após solicitação brasileira).
Para que os hackers sejam presos novamente, o governo brasileiro precisaria apresentar um novo mandado de prisão, com tradução juramentada, à Espanha, o que ainda não ocorreu.
Também são alvos de pedidos de extradição Rômulo de Oliveira Carvalho, brasileiro domiciliado em Valência e suspeito de dar assistência aos investigados, e Thaís Penalva Lima, esposa de Breu. Todos seguem soltos, mas com medidas cautelares, como retenção de passaportes.
Procurado pela Folha de S.Paulo, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que não comenta casos específicos, mas disse, em nota, que “cumpre rigorosamente todos os trâmites legais, administrativos e diplomáticos previstos para a análise de pedidos de extradição, em conformidade com a legislação brasileira e com os acordos internacionais em vigor”. O Itamaraty também foi procurado pela reportagem, mas não comentou. Os autos indicam que a Polícia Federal iniciou o processo de extradição no mesmo dia 31 em que os suspeitos foram presos, mas os documentos só foram entregues às autoridades espanholas em 19 de janeiro, de acordo com comunicado enviado à embaixada do Brasil em Madri.
Já a advogada de Ítalo Jordi Santos Pireneus, o “Breu do Pix”, Camila Nobile, afirmou à Folha que seu cliente está com passaporte retido, cumprindo outras medidas cautelares impostas pela Justiça espanhola e à disposição das autoridades brasileiras. Ela também representa os suspeitos Henrique Magnavita Lins (Russo), Mateus Medeiros Silva, Wesley do Nascimento Lopes (Spider) e Thaís Penalva Lima. O advogado Maurílio de Jesus, que defende Emerson, afirmou ao jornal que seu cliente foi solto provisoriamente ainda no dia 31 de outubro, após comparecer à audiência de custódia, porque o juiz espanhol entendeu que não havia risco de fuga ou de obstrução à Justiça.
*Com informações da Folha de São Paulo