Taxas de títulos do Tesouro sobem com incertezas da guerra no Irã

As incertezas na guerra no Irã e os temores de um repique inflacionário têm reverberado nas previsões para a inflação e os juros globais. No Brasil, o cenário, além de gerar maior cautela no BC (Banco Central), se reflete nos preços dos ativos e na alta das taxas dos títulos do Tesouro.

As expectativas de juros mais altos em meio a um cenário internacional volátil elevam os prêmios exigidos pelos investidores, ao mesmo tempo que pressionam os preços dos ativos. Desde que o conflito eclodiu, os juros dos títulos IPCA+ e prefixados subiram.

A alta nas taxas dos títulos públicos indica, na prática, sua desvalorização no mercado. Isso ocorre porque preço e rendimento têm relação inversa: quando os juros sobem, os preços dos papéis caem; quando os juros recuam, os títulos se valorizam.

Desde o início da guerra, as taxas dos títulos prefixados e IPCA+ com vencimento em 2032 registram altas de 4,02% e 3,18%, respectivamente.

Na quinta-feira (30), o Tesouro prefixado com vencimento em 2032 pagava uma taxa de 13,80% ao ano a máxima de 2026 foi atingida em 27 de março, a 14,50%. Com vencimentos entre 2032 e 2060, os títulos IPCA+ ofereciam taxas de 6,94% a 7,62% acima da inflação, patamares considerados historicamente raros a máxima do título com vencimento em 2032 foi alcançada em 16 de março, a 8,08%.

Além deles, os pós-fixados são indicados para reduzir o risco de perdas em cenários de volatilidade. Segundo levantamento do C6 Bank, o Tesouro Selic com vencimento em 2028 deve oferecer retorno líquido real (já descontados o Imposto de Renda e a inflação projetada) de 7,33%, considerando uma alocação de um ano.

A leitura é que, com o preço do petróleo pressionado pela guerra no Irã, a inflação no Brasil pode subir, forçando o Copom (Comitê de Política Monetária) a adotar uma postura mais cautelosa na condução dos juros.

Desde os primeiros ataques diretos dos EUA e de Israel ao Irã, o preço do petróleo Brent, referência global, subiu mais de 50%, da faixa US$ 70 para US$ 110. A cotação é afetada pela interrupção do fluxo no estreito de Hormuz, que faz fronteira com o Irã e por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural consumidos no mundo.

“O barril não só sobe mas passa a apresentar maior incerteza. A preocupação do mercado hoje é com a persistência desse cenário. No início, se falava em um conflito mais curto. O temor é que essa alta e a volatilidade do petróleo comecem a contaminar a inflação global, e já vemos um processo relevante de revisão de expectativas”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

A mudança aparece em relatórios de bancos e nas previsões de economistas. No Boletim Focus da última segunda-feira (27), analistas projetaram que a taxa básica de juros terminará 2026 em 13%, ante 12% antes de o conflito eclodir. Instituições financeiras como XP e Itaú veem a Selic encerrando o ano em 13,50% e 13%.

A Selic em alta favorece a renda fixa, cuja maior parte dos ativos é atrelada à taxa ou ao IPCA (índice oficial da inflação). No programa do Tesouro Nacional, existem cinco tipos de títulos: Tesouro Selic, Tesouro IPCA+, prefixados, Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+.

O Tesouro Selic, um título pós-fixado, tem rentabilidade atrelada à taxa Selic, hoje em 14,5% ao ano. Já o Tesouro IPCA+ acompanha a inflação medida pelo índice, acrescida de uma taxa prefixada.

Os títulos prefixados têm taxa de juros fixa, ou seja, o investidor já conhece a rentabilidade no momento da aplicação. Também existem os títulos temáticos Educa+ e Renda+, voltados, respectivamente, para o financiamento da educação e para a aposentadoria complementar, cuja rentabilidade também é atrelada ao IPCA.

IPCA+ E PREFIXADOS SÃO RECOMENDADOS, MAS EXIGEM CAUTELA

Analistas veem um momento historicamente favorável para títulos prefixados e IPCA+. Já os pós-fixados são indicados para investidores de perfil mais conservador ou para reservas de emergência.

“Há uma percepção positiva para os indexados à inflação, especialmente os de vencimentos mais longos, que tendem a se beneficiar mais de um eventual fechamento da curva de juros”, diz Guilherme Almeida.

Ele, contudo, afirma que esses ativos tendem a oscilar, o que pode desagradar a perfis que priorizam maior segurança. “O que costuma acontecer nesses casos é que o investidor entra em um ativo desalinhado ao seu perfil.”

O mesmo vale para prefixados. Para Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos, é possível obter retornos superiores à Selic e ao CDI. “Mas isso exige paciência e a disposição de carregar o título até o vencimento, se necessário.”

Tanto nos títulos IPCA+ quanto nos prefixados, vencimentos mais longos estão mais expostos à marcação a mercado (diferença entre o preço de compra e o valor de negociação ao longo do tempo), especialmente em caso de resgate antecipado.

Momentos de instabilidade costumam gerar marcação a mercado negativa pelo fato de os preços do título caírem e as taxas de juros subirem. Isto é, um investidor que tenha comprado um título prefixado a 13% pode sofrer prejuízo ao vendê-lo caso papéis semelhantes passem a pagar 14%.

Ambos os especialistas concordam que os pós-fixados seguem atrativos. “Continuam interessantes porque ainda entregam um carrego relevante. Mesmo com cortes de juros, falamos de uma taxa entre 12% e 13% [no final de 2026], o que é elevado para um ativo de baixíssimo risco”, afirma Almeida, da Suno.

LEILÕES DE RECOMPRA FREIAM VOLATILIDADE, MAS ALTA PROSSEGUE

A alta nos títulos ocorre apesar de operações do Tesouro para frear a volatilidade no setor. Em março, o Tesouro Nacional interveio no mercado com o objetivo de conter a abertura da curva de juros futuros, por meio de recompras de títulos. As operações somaram R$ 47 bilhões em valor líquido.

A guerra tem pressionado as taxas dos contratos DI, que dispararam desde o início do conflito. Os DIs refletem as expectativas do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI. No contrato com vencimento em janeiro de 2028, a alta acumulada é de 0,95 ponto percentual, enquanto, para janeiro de 2035, o avanço é de 0,24 ponto percentual.

Para Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, a alta do petróleo alterou as projeções para 2026. Segundo ele, o mercado vinha apostando na queda de juros e se posicionando para o início de um ciclo de cortes.

“O problema é que a redução [da Selic] foi sendo adiada, e essas posições acumularam perdas. A pressão na curva veio quando investidores atingiram limites de perda e passaram a encerrar posições, gerando um efeito em cascata que pressionou os juros futuros.”

Vital afirma que há chance de o Tesouro intervir novamente, caso julgue necessário. “Se houver outro episódio de disfuncionalidade no mercado, o Tesouro pode voltar a atuar, sempre com o objetivo de equilibrar o mercado e fornecer uma referência de preço para que o secundário volte a funcionar.”

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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