Candidata, seu passado familiar possui algumas contradições jurídicas. Enquanto candidata acredita que isso mancha campanha?
Eu não reconheço nada disso. Meu nome é Paula Moreno Belmonte, e eu não reconheço que isso tenha alguma coisa a ver comigo. É importante nós termos em mente que eu sou candidata ao Governo do Distrito Federal. Quanto à questão dos atos antidemocráticos, meu marido, à época, era presidente do Aliança, mas não participou de nada disso. Nunca nem foi aos atos antidemocráticos ou às manifestações. É importante colocarmos o seguinte: no dia 8 de janeiro houve uma manifestação, e é uma manifestação em relação à qual nós não podemos aceitar que tenha vandalismo. A gente combate o vandalismo, mas defende a livre manifestação. Então, acho que essa pergunta está desatualizada, porque eu realmente não tenho nada a ver com isso. Eu, Paula Moreno Belmonte, sou mulher, tenho 53 anos, dois mandatos como deputada federal e deputada distrital, sou mãe de seis filhos e tenho muita coisa que já entreguei para a cidade. É essa pessoa que é a candidata, e é essa pessoa que eu gosto que seja questionada.
Em discurso a senhora apoiou as manifestações na frente dos quarteis. Essa era a melhor forma de questionar as eleições?
O questionamento à democracia pode ocorrer em qualquer momento e da forma que for, porque a liberdade de expressão pode ser exercida livremente. Hoje, nós temos na legislação penal todos os atos que passam do limite, para que os responsáveis respondam por calúnia e difamação. Agora, a liberdade de expressão é assegurada na nossa Constituição Federal. Então, eu defendo a liberdade de expressão e a possibilidade de ir e vir das pessoas. Eu não defendo vândalo. Temos uma lei, de quando eu era deputada federal, determinando que, em manifestações nas quais ocorra algum tipo de vandalismo dentro do órgão público, a associação ligada ao ato receberá multa. Assim como defendo a vida, o movimento pró-vida, a vida das pessoas e a vida das nossas crianças.
Qual será sua postura, caso eleita, em episódios como aqueles?
Eu tenho um compromisso muito grande com Brasília. Brasília precisa ser a capital federal e referência de políticas públicas. Tenho total consciência de que o Distrito Federal veio com alguns objetivos: primeiro, sediar o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Nós vamos estar aqui como responsáveis para que esses poderes se sintam bem, e vou ser uma grande zeladora deles. Portanto, a nossa comunicação será de uma governadora de portas abertas e de cabeça erguida para conversar e defender o nosso país.
Qual a visão de DF que a senhora tem?
Nós temos aqui o desenvolvimento econômico das pessoas e queremos fazer com que o Distrito Federal seja referência em políticas públicas. Estamos falando de uma capital abençoada por Deus, mas hoje representada no Poder Executivo por uma má gestão. Estamos falando de um Ideb — que é a avaliação da educação — nos últimos lugares do Brasil; de uma saúde em que as pessoas morrem antes de conseguir atendimento; e de crianças sem creche e sem pediatra.
A senhora teve dificuldades para formar alianças e, na última eleição, não conseguiu nominata. Como a senhora avalia a política partidária?
Eu vejo que o nosso sistema eleitoral tem que ser observado pelo eleitor e precisa mudar, porque acredito que hoje deveríamos ter a possibilidade de candidaturas independentes. Eu nunca fui oposição ao governo Ibaneis [Rocha]. sempre fui uma candidata independente, votando contra quando achava que devia votar contra e a favor quando devia votar a favor. Infelizmente os partidos estão dominados por caciques políticos. Quem tem dinheiro e a máquina, compra; quem não tem, precisa aceitar ser vice. Fico muito feliz porque fui a única candidata que conseguiu tirar um partido do governo. O partido tinha uma secretaria, mas o presidente do PSDB disse que queria uma candidata e me deu a oportunidade de disputar.
A senhora foi presidente da Comissão de Fiscalização e Transparência da CLDF. O que pode ser melhorado no uso dos recursos da saúde?
No primeiro dia do nosso governo, a primeira medida será estabelecer um comitê de combate à corrupção, que será conduzido pelo nosso vice, o juiz Everardo. Estudos apontam que 30% do nosso orçamento escorre pelos ralos da corrupção e da falta de gestão. Esse gabinete, além de atuar no combate à corrupção, vai trazer a digitalização. Hoje, por exemplo, se você vai a uma UBS (os antigos postinhos), tem um prontuário; se vai a uma UPA, o prontuário é outro e os sistemas não se comunicam. Primeiro vamos digitalizar os processos internos da secretaria para acabar com contratos emergenciais de cinco anos, como os que existem no atual governo.
O que será feito na saúde primária?
Vamos fortalecer a atenção primária, fazendo com que os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) visitem a casa das pessoas. Assumo o compromisso de que, até 2030, todas as residências serão visitadas e monitoradas para acompanhar a saúde da família. Essas visitas são fundamentais também para identificar violações de direitos contra mulheres e crianças, além de problemas de segurança alimentar. Temos 198 mil famílias no Distrito Federal vivendo com menos de mil reais por mês — o que dá cerca de R$ 300 per capita, um valor insuficiente para a alimentação diária.
A senhora vai manter o Iges-DF ou pretende fazer algum tipo de revisão?
Na Secretaria de Saúde, vamos contratar médicos, enfermeiros e agentes comunitários, pois não se faz saúde pública sem profissionais de assistência. Quanto ao Iges, quando cheguei como deputada federal, tínhamos o instituto gerindo apenas o Hospital de Base. Este governo ampliou a gestão para mais dois hospitais: o Hospital do Sol e o de Santa Maria. O resultado é que hoje são bilhões de reais sem a devida transparência. Acreditamos em um modelo que garanta agilidade nas compras, mas com transparência sobre quem trabalha lá. Hoje, o Iges possui 800 cargos de livre provimento sem vínculo com a saúde, conforme constatamos na Comissão de Fiscalização e Transparência. Vamos acabar com as indicações políticas no Iges e fazer com que o sistema ajude a saúde de forma segura, utilizando o dinheiro público com responsabilidade e transparência.
Após o resultado ruim da educação no IDEB, qual é a sua proposta para que a educação do DF volte a ter destaque?
Tenho muita honra em dizer que sou fruto da educação pública do Distrito Federal. Acredito na escola pública de verdade. Nesta legislatura como deputada distrital, fui a parlamentar que mais destinou emendas para as escolas, beneficiando mais de 520 unidades. Hoje, 70% das escolas não têm refeitório; as crianças continuam comendo nos corredores. Em áreas vulneráveis, muitos alunos chegam com fome e só vão comer às 11h ou às 15h30. Defendo a Escola Integral — não apenas como mais tempo na escola, mas como garantia de dignidade e desenvolvimento pleno. Na nossa proposta de “Escola Iluminada”, o aluno chegará e terá o café da manhã, pois a boa alimentação favorece o aprendizado. Vamos estruturar as escolas, valorizar e contratar professores efetivos, já que hoje mais da metade da rede é composta por temporários. Também vamos oferecer ensino de qualidade com tecnologia, matemática financeira, empreendedorismo e robótica, preparando os jovens para o mercado.
Na CLDF, a senhora se deparou com o caso de um colega suspeito de violência contra a mulher. Como proteger a mulher se nem o Legislativo local deu exemplo?
O importante é fortalecer os canais de denúncia. A denúncia que recebemos na Procuradoria Especial da Mulher já durava dois anos, envolvendo acusações de assédio moral e sexual. Não cabe ao Poder Legislativo julgar ou investigar — isso é papel do Ministério Público e da Polícia. Nós demos encaminhamento e a investigação hoje está no MP, que é o local correto para a apuração e punição.
Ao falar sobre seu colega, a senhora mencionou um suposto “teste do sofá”. Como avalia a repercussão?
Eu fui criticada por algumas servidoras da própria Casa. Na realidade, a imprensa me questionou se eu havia falado sobre “teste do sofá” porque uma das próprias denunciantes usou esse termo em seu depoimento à Polícia Civil para descrever os assédios que sofria. Não tenho medo de fake news nem rabo preso com ninguém; estou aqui para defender as mulheres, que representam 54% da população de Brasília.
E o que fazer para proteger as mulheres?
Fiquei assustada com a quantidade de relatos de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho. Além do feminicídio, que é a dor mais extrema e exposta nas páginas policiais, há dores silenciosas que precisam ser enfrentadas com educação e punição rigorosa aos assediadores. Também conecto essa pauta à mobilidade urbana: o transporte coletivo superlotado expõe as mulheres a importunações no dia a dia. Vamos enfrentar isso aumentando a frota de ônibus, expandindo o metrô (com vagões exclusivos para mulheres) e implementando o VLT. Expandir o metrô para a Asa Norte, Santa Maria e Águas Lindas trará mais qualidade de vida e permitirá que as mães e trabalhadoras cheguem mais cedo em casa para conviver com suas famílias.
Como a senhora vê as ameaças ao Fundo Constitucional?
Quando fui deputada federal, enfrentamos por duas vezes ameaças ao Fundo Constitucional. Trata-se de um recurso virtuoso — hoje na casa dos R$ 25 bilhões — que não serve para sustentar os poderes, mas sim para custear a segurança pública, a saúde e a educação do DF. Brasília necessita desse fundo para manter suas políticas públicas estruturantes. Brasília tem características únicas: abriga os poderes da República e as embaixadas, o que exige uma polícia diferenciada e de excelência.
O que a senhora fará pelo desenvolvimento econômico do DF?
A população e as regiões administrativas cresceram. Queremos gerar empregos perto da casa das pessoas por meio da regionalização da atuação do BRB, investindo no pequeno empresário e em parcerias com o Sebrae para capacitação. Cada região administrativa tem vocações próprias (agrícola, atacadista, comercial) que serão fomentadas para gerar desenvolvimento e independência econômica, mantendo o Fundo Constitucional para a estrutura da capital e garantindo segurança jurídica para as empresas.
A senhora propôs um projeto sobre ozonioterapia contra à covid-19. Caso eleita, pretende investir em tratamentos sem comprovação científica?
Eu me pauto pela ciência e pela academia. A ozonioterapia é aprovada pelo Congresso Nacional como um tratamento integrativo e complementar, estando presente no SUS via Ministério da Saúde. O uso do ozônio já é consagrado na odontologia, na medicina veterinária e amplamente utilizado na Europa, inclusive para a higienização contra superbactérias em ambientes hospitalares. Acreditamos na ciência.