Por dia, mais de 6 mil pessoas descobrem o que significa ser cooperado no Brasil. É nesse ritmo que uma base de 15,6 milhões, em 2019, chegou a 29,02 milhões em 2025, em grande parte devido à descoberta do sistema cooperativista de crédito como alternativa aos bancos. Hoje, quase um em cada sete brasileiros integra uma das 4,4 mil cooperativas que, juntas, movimentam R$ 848,37 bilhões, mantêm 613,3 mil empregos diretos e acumulam R$ 1,6 trilhão em ativos, segundo o AnuárioCoop 2026.
Para muitos, é nesse ingresso que começa a descoberta de um modelo econômico quase bicentenário, em que ser associado significa também ser dono do negócio. Da necessidade de 28 trabalhadores, na Inglaterra de 1844, que se reuniram para comprar produtos em melhores condições, às primeiras experiências no Brasil no fim do século 19, inclusive no cooperativismo de crédito no Rio Grande do Sul, mudaram os mercados, as atividades e o tamanho das empresas. Mas uma cooperativa continua começando bem antes do CNPJ.
Primeiro é preciso reunir pessoas em torno de uma necessidade comum e saber se ela pode virar negócio. Pode ser ganhar escala, vender um serviço, comprar melhor ou alcançar novos mercados. O tamanho do grupo varia conforme a atividade. Nas cooperativas de trabalho, sete pessoas já podem constituir uma cooperativa. Em outros ramos, como o agropecuário, esse número pode chegar a 20.
Interessados em abrir cooperativa contam com orientação específica
E há uma diferença importante em relação a outras empresas. A cooperativa é uma sociedade de pessoas e, como regra, sua constituição se dá por pessoas físicas. São elas que se tornam cooperadas e, juntas, formam uma pessoa jurídica, com CNPJ próprio.
É ainda antes da formalização que o Sistema de Organização das Cooperativas (OCB) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), que têm unidades em todos os estados, costuma entrar. O trabalho começa pela orientação aos grupos interessados, com a análise do enquadramento da atividade, da formação do quadro de cooperados e da viabilidade do projeto. E nem toda consulta termina com uma nova cooperativa.
Exemplo recente veio de uma associação de madeireiras do Paraná interessada em formar uma cooperativa para realizar compras em conjunto. Como a movimentação econômica pretendida seria feita pelas próprias empresas, e não pelas pessoas físicas, o projeto não se enquadrou no formato. A orientação foi avaliar outras formas de organização capazes de atender àquela necessidade. “Nosso papel é orientar”, resume Jessé Aquino, coordenador de Monitoramento da Gerência de Monitoramento e Consultoria do Sescoop/PR.
Não basta vontade, é preciso viabilidade
Mesmo quando o enquadramento é possível, cumprir o número mínimo de fundadores não basta. É preciso que essas pessoas estejam dispostas a fazer negócios por meio da cooperativa. “Não adianta só um querer puxar e os outros não, porque se não tiver uma movimentação econômica do cooperado na cooperativa, não vai dar certo”, afirma Aquino.
A Cooptur descobriu isso depois de aberta. Primeira cooperativa brasileira formada por empreendedores do turismo, nasceu no Paraná em 2004 com 20 cooperados, entre donos de hotéis e restaurantes, guias, artesãos e responsáveis por atrativos.
A proposta era montar roteiros de lazer pelo interior do Estado, aproveitando regiões marcadas pela imigração e pela presença de cooperativas. Os serviços se complementavam, mas o turista não apareceu na quantidade esperada.
“No primeiro ano a gente viu que isso não ia funcionar. Não dava certo”, conta Márcio Miranda, vice-presidente e diretor executivo da Cooptur.
A saída veio de outro público, que estava muito mais perto. Cooperativas de outras regiões queriam visitar o Paraná para conhecer experiências locais. E quem viaja precisa de hospedagem, alimentação, transporte, guia e programação. Era justamente o que aqueles cooperados tinham para oferecer. A Cooptur mudou o produto e passou a organizar visitas de cooperativas a outras cooperativas. Hoje são 45 associados e mais de cem grupos recebidos por ano nesse modelo.
A Ocepar/Sescoop participou do processo desde a formação do grupo e continuou próxima na mudança de rota. “É assim que a gente começa. Posso até dizer tranquilamente que, se não fosse o papel da Ocepar nesse contexto, dificilmente a gente teria construído uma cooperativa”, afirma Miranda.
Agora sim, a papelada
Com o grupo formado, o mercado identificado e a viabilidade estudada, começa a constituição formal. Enquanto o estudo de viabilidade mostra como o negócio pretende funcionar economicamente, o estatuto estabelece as regras da sociedade. Define quem pode participar, qual será o capital mínimo para ingressar e como serão organizadas a administração e a fiscalização.
Depois vem a assembleia de constituição. Os fundadores discutem e aprovam o estatuto, elegem a administração e o conselho fiscal e registram as decisões em ata. Os documentos seguem para a Junta Comercial e, a partir daí, o processo avança para o CNPJ e os demais registros exigidos pela atividade.
No Paraná, documentação e estudo de viabilidade passam ainda pela Organização das Cooperativas (Ocepar), que faz as análises jurídica e técnica antes da validação e do encaminhamento do registro nacional ao Sistema OCB. Segundo Aquino, essa etapa pode levar de uma semana a cerca de um mês, dependendo da documentação e da complexidade do projeto. O CNPJ, portanto, está muito mais perto do fim do que do começo desse percurso.
Com a cooperação, abre-se um leque de oportunidades
Em Belém, no Pará, a Concaves descobriu isso na prática. Formada por trabalhadores da reciclagem que antes atuavam individualmente, a cooperativa foi formalizada em 2006. Anos depois, estar com a documentação em dia permitiu assumir um contrato de coleta seletiva com o município por cinco anos.
“Às vezes as pessoas acham que não vão ser cooperativa porque é mais burocrático, é mais caro, vai dar mais trabalho. Mas, em compensação, você como cooperativa tem um leque de oportunidades”, afirma a presidente da Concaves, Débora Ribeiro.
Cooperativa paga imposto: não há atalho tributário
Considerar a tributação é outro passo indispensável para afastar uma ideia que ainda leva alguns grupos a procurar o modelo cooperativista.
“É bem comum a gente ouvir: ‘É verdade que cooperativa não paga imposto?’ Não é verdade. A cooperativa paga imposto e não é pouco”, afirma Aquino. Dependendo da atividade, pode haver diferenças de tratamento tributário, mas esses custos interferem diretamente na viabilidade do negócio.
Na Cooptur, a escolha pelo modelo também não nasceu de uma vantagem fiscal. Para Miranda, o cooperativismo oferece uma forma de pequenos negócios atuarem coletivamente, mas não elimina as exigências de qualquer atividade econômica. “O cooperativismo não é uma solução dos teus problemas. Ele é um caminho”.
Um caminho que continua exigindo mercado e resultado. “A cooperativa é uma empresa como outra qualquer. A gente tem que buscar resultado, a gente tem que buscar mercado. Só que ela é uma empresa de vários donos”. É justamente aí que Miranda enxerga a diferença do modelo. “Ele dá poder para os pequenos também, onde todo mundo é dono. É um sistema democrático”.
Para saber mais, consulte AQUI o passo a passo para constituição de uma cooperativa.