A história de Washington Stecanela Cerqueira confunde-se com a própria estrutura do futebol brasileiro das últimas décadas. Nascido no Hospital Regional de Taguatinga, criado na 411 Norte e moldado nos campos de terra que marcavam a paisagem do Distrito Federal, o ex-atacante e, atualmente, candidato a deputado federal pelo MDB, construiu uma carreira marcada por superações, recordes e o apelido que o consagrou no esporte nacional: Coração Valente.
Em entrevista ao JBr Entrevista, Washington relembrou o início de sua caminhada nos gramados da capital e a transição do futebol comunitário para o cenário profissional. As primeiras oportunidades surgiram ainda nas quadras de Brasília, antes de se destacar pelo time amador Terremoto e pelo Sobradinho.
“Eu jogava nas quadras aqui em Brasília, na 411 Norte, jogava nos times de cinco contra cinco, até que fui jogar em um time chamado Terremoto. O treinador me colocou para fazer um treino e me perguntou qual era a minha posição. Falei que jogava na frente. Ele me botou de ponteiro e, nesse treino, fiz seis gols. Ele chegou para mim e falou: ‘A partir de agora, você vai ser centroavante’. No primeiro campeonato, já fui artilheiro”, contou Washington.
Profissionalização
A saída do Distrito Federal ocorreu precocemente, aos 15 anos, rumo ao futebol do Sul do país. A transição para a base do Caxias (RS) exigiu resiliência em um período de pouca estrutura no futebol brasileiro.
“A vida para o atleta não é fácil. Tem que se dedicar muito, treinar todos os dias, ter resiliência, nunca abandonar e sempre acreditar no seu potencial. Quando saí daqui de Brasília para Caxias, morei debaixo da arquibancada. Meu almoço era arroz, feijão e meio ovo cozido. Tinha 60 garotos lá e não tinha como ter um ovo para cada um. Esse sofrimento todo me preparou mais cedo. Virei homem antes”, revelou.
Após passar por clubes como Internacional, Paraná Clube e Ponte Preta, o atacante alcançou a Seleção Brasileira em 2001, sob o comando do técnico Emerson Leão, participando das Eliminatórias e da Copa das Confederações.
“Quando fui convocado pela primeira vez, nem dormi. Fiquei a noite toda sem dormir. Naquela época, a disputa na frente era com Ronaldo Fenômeno, Luizão, França, Dodô, Jardel, Elber. Estar na Seleção era uma grande vitória”, lembrou.
Diagnóstico e superação
O momento mais crítico da carreira de Washington ocorreu quando atuava pelo Fenerbahçe, da Turquia. Durante um período de ascensão, dores no peito e mal-estar acenderam o alerta médico. Exames constataram o entupimento de 90% de uma artéria coronária, iniciando um processo de pré-infarto.
Após a colocação de um stent na Turquia e a interrupção temporária da carreira, o jogador buscou alternativas para retornar aos gramados no Brasil, encontrando respaldo na equipe médica do Athletico Paranaense.
“Foi bem no meu auge. Era tudo muito novo, essa questão do coração não se falava muito. Tive uma conversa com o médico que olhou meu caso, fez os exames e falou: ‘Existe uma chance’. Eu disse: ‘Doutor, era isso que eu queria ouvir. Agora é a minha vida por essa chance’. Fiz novos procedimentos, coloquei mais dois stents e fiz seis meses de recuperação”, relatou.
O retorno ocorreu em 2004. Naquela mesma temporada pelo Athletico Paranaense, Washington estabeleceu o recorde histórico de gols em uma única edição do Campeonato Brasileiro da Série A, balançando as redes 34 vezes — feito que o consagrou com a alcunha de “Coração Valente”.
Identidade tricolor
No Fluminense, o centroavante viveu uma das fases de maior identificação com as arquibancadas. Integrou a equipe vice-campeã da Copa Libertadores de 2008 e, em sua segunda passagem pelo clube, conquistou o Campeonato Brasileiro de 2010.
“A gente resgatou uma paixão do torcedor do Fluminense. Desde as quartas de final, ver mais de 100 mil pessoas no Maracanã antigo era uma festa linda. A torcida voltou a ter prazer de mostrar as cores do clube. Depois, em 2010, fomos campeões brasileiros após anos de jejum”, recordou.
Candidatura
Após pendurar as chuteiras, Washington direcionou sua atuação para a gestão esportiva e a política. Foi o vereador mais votado em Caxias do Sul (RS) em 2012, atuou como secretário de Esportes do município, assumiu mandato como deputado federal em 2018 e esteve à frente da Secretaria Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social (SNELIS).
De volta ao Distrito Federal, o ex-atleta mantém projetos sociais como o Instituto Coração Valente e projeta novas ações voltadas para a saúde pública e o esporte na capital.
“Tenho um trabalho que atende quase mil crianças no instituto, oferecendo estrutura, uniforme e alimentação para tirá-las das ruas e transformá-las em cidadãos. Na saúde, quero lutar pela criação de um hospital público do coração no Distrito Federal para descentralizar o atendimento e reduzir as filas na rede pública”, completou.
Entre outras bandeiras apresentadas para o projeto eleitoral, destaca-se a criação do primeiro Hospital Público do Coração em Brasília, proposta inspirada na própria trajetória de superação do ex-atleta para desafogar a rede de saúde local e oferecer atendimento especializado à população. No campo social, a candidatura coloca o esporte e a educação como ferramentas centrais de transformação, pretendendo expandir para todo o DF o modelo de atendimento e apoio contra-turno já trabalhado no Instituto Coração Valente, voltado à formação cidadã e ao acolhimento de jovens em vulnerabilidade social.