Há 50 anos, no dia 14 de abril de 1976, a estilista Zuzu Angel foi vítima de um atentado no túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, forjado como acidente de carro. Seu veículo foi empurrado contra a proteção de um viaduto, resultando em sua queda de um barranco. Aos 53 anos, Zuzu foi assassinada por denunciar abertamente o regime ditatorial brasileiro após o desaparecimento e morte de seu filho, Stuart Edgard Angel.
Stuart, estudante de economia e militante da organização revolucionária MR8, foi preso, torturado e morto em 1971 nas dependências do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa). Durante cinco anos, Zuzu buscou informações sobre o filho e expôs publicamente as violações de direitos humanos cometidas pela ditadura, desafiando os governos de Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.
Nascida Zuleika de Souza Netto em 1921, em Curvelo (MG), Zuzu mudou-se para o Rio de Janeiro em 1939, onde construiu carreira como costureira e estilista. Casada com o americano Norman Angel Jones, ela misturava elementos da cultura brasileira, como rendas, bordados e pedrarias, em criações de modelagem simples e contemporânea, alcançando reconhecimento internacional.
Sua resistência ganhou amplitude ao mobilizar a maternidade como linguagem política, sensibilizando a opinião pública e expondo a violência do regime. Segundo a historiadora Cristina Scheibe Wolff, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), essa estratégia dialogava com padrões de gênero da época, humanizando as vítimas consideradas ‘terroristas’ pela ditadura. Movimentos semelhantes, como as Mães da Praça de Maio na Argentina, enfraqueceram regimes autoritários na América do Sul durante as décadas de 1960 e 1970.
Zuzu ampliou sua luta além das fronteiras, buscando apoio nos Estados Unidos e em organismos internacionais. Ela contatou o secretário de Estado Henry Kissinger e concedeu entrevistas a jornalistas estrangeiros, visibilizando as violações em meio à censura interna. Hildegard Angel, jornalista e filha de Zuzu, recorda o ‘destemor atípico’ da mãe, que confrontava agentes da repressão e recebia ameaças constantes.
A estilista incorporou protestos em sua moda, inserindo símbolos de denúncia em coleções: bordados de anjos feridos, crianças mortas, tanques de guerra e pássaros em gaiolas. Desfiles tornavam-se manifestações políticas, com cenografia e trilha sonora fúnebres.
Por décadas, a morte de Zuzu foi oficializada como acidente. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade confirmou o assassinato após investigações, incluindo depoimento de um ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). No final de 2023, a família recebeu uma certidão de óbito retificada, descrevendo a morte como violenta e causada pelo Estado brasileiro.
O legado de Zuzu persiste como símbolo de resistência multifacetada. Para Cristina Scheibe Wolff, sua trajetória mostra que a luta contra autoritarismos pode ocorrer por meio da arte e da cultura, além de formas convencionais. Hildegard destaca conquistas como a nomeação de um túnel no Rio para Zuzu Angel, sua inclusão como heroína no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, e a criação da Casa Zuzu Angel/Museu da Moda.