Dólar cai e volta para R$ 4,99 com menor aversão ao risco; na semana, sobe 0,30%

São Paulo, 24 – Com trocas de sinais e oscilações bem modestas, o dólar à vista orbitou os R$ 5,00 ao longo da tarde e encerrou a sessão desta sexta-feira, 24, em baixa de 0,11%, cotado a R$ 4,9982. A diminuição da percepção de risco global, com a perspectiva de novas negociações de paz entre EUA e Irã no Paquistão durante o fim de semana, abriu espaço para uma queda global da moeda norte-americana.

Após o rali recente do real, que levou o dólar ao menor nível em mais de 2 anos, o mercado local de câmbio passou por certa instabilidade nos últimos dias, com movimentos de realização de lucros e ajustes técnicos. Houve também um aumento dos ruídos fiscais com medidas do governo para combater a alta dos preços dos combustíveis, o que pode ter impulsionado pontualmente os prêmios de risco associados à moeda.

Operadores não notaram, contudo, pressão no chamado casado (diferença entre o dólar spot e o futuro) e no cupom cambial (que reflete o juro em dólar) de curto prazo. O Banco Central anunciou na quinta-feira à noite realização nesta sexta de operação conhecida como “casadão”, com oferta de US$ 1 bilhão em swaps cambiais reversos – que, na prática, significam compra de dólar futuro – e venda de US$ 1 bilhão em moeda à vista. Mas não aceitou nenhuma proposta nesta sexta em ambos os leilões.

“Talvez o BC tenha anunciado o leilão ontem para evitar um estresse no mercado de câmbio com a possibilidade de aversão ao risco e fluxo mais fraco. Ou tenha identificado alguma demanda pontual”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, ressaltando que o resultado do leilão revela que o BC pode ter optado por não chancelar os prêmios pedidos pelos investidores.

A moeda norte-americana termina a semana, mais curta em razão do feriado de Tiradentes no dia 21, com leve valorização em relação ao real (0,30%). Apesar disso, ainda acumula baixa de 3,48% em abril, o que leva as perdas no ano para 8,94%, com o real apresentando em 2026 o melhor desempenho entre as moedas mais líquidas.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em queda moderada ao longo do dia e recuava pouco mais de 0,20% no fim da tarde, perto da mínima, de 98,502 pontos. O Dollar Index termina a semana com ganhos de cerca de 0,30%, mas recua mais de 1,30% em abril.

À tarde, a Casa Branca confirmou que os enviados especiais dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner viajarão ao Paquistão na manhã de sábado para conversas com representantes do Irã. Segundo a ABC News, as delegações americanas e iranianas vão se reunir separadamente com autoridades paquistanesas. Caso as conversas corram bem, haveria um encontro entre as partes beligerantes no domingo.

As cotações do petróleo recuaram, com o contrato do Brent para junho – referência de preços para a Petrobras – fechando em baixa de 0,22%, a US$ 99,13 o barril. Na semana, contudo, avançou mais de dois dígitos, refletindo as incertezas em torno do conflito no Oriente Médio e do tráfego pelo Estreito de Ormuz

Analistas avaliam que o ambiente externo continua ditando o rumo da taxa de câmbio no curto prazo, embora possa haver solavancos pontuais provocados por questões domésticas. Houve relatos de desconforto com o anúncio na quinta-feira do projeto de lei complementar que prevê a conversão de um aumento de receitas extraordinárias com petróleo em alívio à tributação sobre combustíveis.

Para a especialista Viviane Las Casas, da Valor Investimentos, a proposta do governo foi recebida “de forma relativamente tranquila” pelo mercado, com o dólar mantendo-se ao redor de R$ 5,00, com pico na casa de R$ 5,02. “O campo fiscal permanece como um ponto de atenção, mas não vejo um risco de piora que possa de fato pressionar a moeda brasileira”, afirma Las Casas, lembrando que as medidas tendem a ser temporárias, uma vez que estão atreladas aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

Bolsa

Na mínima intradia, o Ibovespa operou no período da tarde desta sexta-feira, 24, ainda que pontualmente, abaixo dos 190 mil pontos pela primeira vez desde 8 de abril, distanciando-se um pouco mais do pico histórico, de 199 mil pontos, e do recorde de fechamento, na casa de 198,6 mil em 14 de abril. Nesta sexta, o índice da B3 oscilou de 189.962,93 a 1t91.390,33 pontos entre os extremos do dia e, ao fim, marcava 190.745,02 pontos, em baixa de 0,33%. Além de três perdas diárias consecutivas, o Ibovespa teve ganho em apenas uma das sete sessões que sucederam o recorde de 14 de abril – na última segunda-feira, antes do feriado, quando subiu apenas 0,20%.

Na semana, acumulou perda de 2,55%, que sucedeu queda de 0,81% no intervalo anterior.

No mês, o índice avança 1,75% e, no ano, tem alta de 18,38%.

O giro financeiro desta sexta-feira ficou em R$ 24,9 bilhões. O nível de fechamento da sessão foi o mais baixo para o Ibovespa desde 7 de abril.

“Se na semana passada o mercado celebrava sinais de possível paz no Oriente Médio, esta semana trouxe o movimento inverso. O otimismo deu lugar ao ceticismo, e os ativos sentiram o peso dessa virada”, resume Bruna Sene, analista de renda variável da Rico. “O principal gatilho foi o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, que voltou a bloquear a passagem de embarcações após o impasse nas negociações com os Estados Unidos. Com isso, o petróleo retomou a trajetória de alta, o dólar ganhou força globalmente e os ativos de risco recuaram.” Na semana, os contratos mais líquidos do Brent e do WTI avançaram, pela ordem, cerca de 13% e de 12%. Na sessão desta sexta, o primeiro cedeu 0,22% e o segundo, 1,51%.

Nesta sexta-feira, o petróleo passou a cair com a possibilidade de que as conversas entre EUA e Irã sejam retomadas ainda no fim de semana, no Paquistão. Assim, na B3, as ações de Petrobras, que haviam contribuído para moderar as perdas do Ibovespa nas últimas sessões, continuaram nesta sexta a acompanhar o sinal da commodity, com a ON em baixa de 0,97% e a PN, de 1,28%, no fechamento.

Principal papel do Ibovespa, Vale ON caiu 0,12%, sem se contrapor ao efeito negativo não apenas de Petrobras, mas também do setor financeiro, o de maior peso no índice, com destaque para Banco do Brasil ON (-1,30%). Itaú PN avançou 0,43%.

Na ponta ganhadora do Ibovespa, Hapvida (+5,94%), Usiminas (+5,55%) e Braskem (+5,28%). “Hapvida subiu com o aumento de posição dos controladores na companhia, enquanto Usiminas reagiu ao balanço melhor do que o esperado”, diz Bruno Perri, economista-chefe, estrategista e sócio-fundador da Forum Investimentos. No lado oposto na sessão, Brava (-5,75%), Vamos (-3,24%) e Cury (-2,56%).

“O mercado de ações continua pesado, na medida em que a retomada das conversas entre Estados Unidos e Irã no fim de semana é positiva, mas sem sinais de que se alcance, ainda, um avanço em direção à paz”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. Ele destaca efeitos negativos da escalada do petróleo sobre o quadro macroeconômico, que têm se refletido em reavaliações semanais, no Boletim Focus, nas expectativas do mercado para a inflação, sempre para cima.

“Tivemos hoje mais um pregão correlacionado ao noticiário do Oriente Médio, desde a sessão na Ásia. Mas a disposição do Irã em voltar a conversar não deixa de ser favorável, depois de o lado americano ter mostrado uma pressa menor” ao prorrogar o cessar-fogo, nesta semana, sem um prazo determinado de vigência, condicionado agora à disposição do adversário em negociar a partir de uma proposta que seja apresentada, observa Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. Assim, o mercado continua “refém” dos desdobramentos em torno do Oriente Médio.

Para além do quadro macro, contudo, resultados corporativos, em especial os de semicondutores, carro-chefe do setor de tecnologia, têm contribuído para lançar o S&P 500 e o Nasdaq a novas máximas históricas. Nesta sexta-feira, com o Dow Jones em baixa de 0,16% no fechamento, o índice amplo S&P 500 e o tecnológico Nasdaq mostraram ganhos, respectivamente, de 0,80% e 1,63% no fim da sessão.

“Semana foi, ainda, de muito vai e vem com relação à percepção de risco global. Geopolítica continua a ser o principal motor dos mercados. Expectativa maior, positiva no início da semana, foi dando lugar ao pessimismo, com repique no petróleo mais para o fim da semana e fortalecimento global também no dólar, ante a retomada da incerteza nas negociações. Mas o foco começa a voltar, mesmo que aos poucos, para o micro, com atenção maior a resultados trimestrais positivos, como os da Intel, muito fortes”, diz Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 mostraram alívio no último pregão da semana, com percepção mais positiva sobre uma possível resolução para o conflito no Oriente Médio, dado que Estados Unidos e Irã enviarão negociadores para o Paquistão neste fim de semana. A cautela frente à possibilidade de que as tratativas terminem mal e de que haja nova escalada do confronto, porém, impediu que as taxas queimassem todos os prêmios acumulados desde segunda-feira.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,128% no ajuste de quinta a 14,095%. O DI para janeiro de 2029 recuou a 13,47%, vindo de 13,547% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 teve baixa de 13,59% para 13,495%.

Em relação ao fechamento da última sexta-feira, no entanto, a curva ainda apura alta, homogênea entre os principais vencimentos. O DI de janeiro do próximo ano subiu cerca de 20 pontos-base, e os contratos de janeiro de 2029 e janeiro de 2031, ao redor de 30 pontos-base.

Os contratos futuros de petróleo em Londres e Nova York fecharam em leve queda nesta sexta-feira, 24, voltando a operar abaixo de US$ 100 o barril, após relatos de que autoridades iranianas e norte-americanas estarão no Paquistão nos próximos dias para negociar. Do lado dos EUA, os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner viajarão a Islamabad neste sábado, 25. Já o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, irá à capital paquistanesa na noite desta sexta, de acordo com a agência estatal iraniana IRNA. A perspectiva é que o diálogo entre os dois países ocorra no domingo.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que Teerã pretende apresentar uma proposta para atender às exigências de Washington Segundo a Reuters, o republicano disse que ainda não sabe o conteúdo do documento. Também evitou responder com quem, exatamente, os americanos estarão negociando, diante da dispersão de lideranças do país persa.

“A expectativa em torno das negociações estava derrubando as taxas, mas a cautela com o final de semana voltou e os DIs ficaram praticamente no zero a zero em relação ao início do dia”, observa Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil. “Foi um dia de cautela, morno e bem fraco, sem nada muito relevante”, resumiu.

Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, sinais de continuidade nas negociações entre EUA e Irã e a extensão do cessar-fogo no confronto ajudaram a reduzir o prêmio de risco geopolítico, enquanto a queda nos rendimentos de curto prazo dos Treasuries enfraqueceu o dólar em relação a outras moedas fortes. “No Brasil, o movimento foi acompanhado pelo fechamento da curva de DI, reforçando algum alívio nas expectativas de juros. O cenário externo acabou prevalecendo nesta sexta”, disse.

Na próxima semana, porém, a conjuntura doméstica volta ao foco dos investidores, com a decisão de juros do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira. A ampla maioria do mercado projeta um corte mínimo na Selic, de 0,25 ponto porcentual: de 37 casas consultadas pelo Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, 33 apostam nesse cenário.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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