Alemanha acusa Rússia de tentar atacar aviões com drones

O governo alemão acusou nesta terça-feira (1º) a Rússia de estar envolvida na inédita tentativa de ataque com drones carregados de explosivos contra um aeroporto do país europeu, ocorrida na noite de 4 para 5 de agosto.

A afirmação foi feita pelo ministro do Interior, Alexander Dobrindt, em entrevista ao lado do chanceler Johann Wadephul, que na véspera havia dito que “a Rússia precisa entender que a Alemanha é uma força estabilizadora na Europa, sempre pronta para negociar, mas que não será intimidada de forma alguma”.

O embaixador russo em Berlim foi convocado à chancelaria para dar explicações. Segundo Dobrindt, o padrão da ação remete à outros episódios ligados à Rússia e a Alemanha irá tomar “uma resposta apropridada. “Deixe-me ser claro: nós não estamos em guerra, mas somos alvos diários de uma guerra híbrida”, disse.

Moscou ainda não comentou o anúncio desta terça, mas já rejeitou qualquer envolvimento em ações contra o território europeu. Para o Kremlin, as acusações não passam de russofobia em meio ao clima carregado da Guerra da Ucrânia.

A tentativa de ataque foi o mais grave das dezenas de incidentes com drones que vêm atingindo a Europa nos últimos dois anos -segundo estudo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, foram 144 casos até o começo deste ano, todos ligados à Rússia.

Na madrugada do dia 5 de agosto, funcionários do aeroporto Leipzig-Halle encontraram um quadricóptero com explosivos ao lado de um avião de transporte ucraniano An-124 pertencente à Antonov Airlines. A empresa de logística teve de deixar os arredores de Kiev devido à guerra e passou a operar na Alemanha.

Segundo relatos não confirmados, a aeronave estava carregada de armas ou munição vindas da França, presumivelmente com destino ao país invadido por Vladimir Putin em 2022.

Na mesma madrugada, o que se crê ter sido outro drone atingiu no ar, perto do aeroporto, um Boeing-757F de carga da empresa alemã DHL, que deixou danos na fuselagem. Ele foi desviado para Hannover e pousou em segurança.

Investigações posteriores da polícia encontraram ao menos mais um drone com explosivos e sistemas de detonação à distância na região do aeroporto. Tudo isso, segundo o governo alemão, levou à sugestão de uma ação coordenada.

O material empregado era profissional, inclusive com explosivos de uso restrito a forças militares usualmente associado aos serviços de inteligência da Rússia. Segundo a mídia alemã, novas sanções poderão ser aplicadas aos russos.

Em um incidente separado relatado também nesta terça, a polícia do estado de Brandenburgo (norte) disse que foram encontrado explosivos perto de uma central elétrica, e que linhas de transmissão foram danificadas em um ato de sabotagem. Não há suspeitos indicados ainda.

Com a acusação sobre Leipzig, a tensão entre Moscou e a Europa se eleva ainda mais. Ao longo deste ano, os Estados Bálticos vêm denunciando o aumento da chamada guerra híbrida que atribuem a Moscou. As três ex-repúblicas soviéticas são mais expostas geograficamente a um eventual ataque russo.

Nesse tipo de enfrentamento, as ações são feitas de forma a serem negadas. Em vez de um bombardeio direto, recorre-se, por exemplo, a um ataque com drones cuja autoria é difícil de rastrear. A Rússia nega e argumenta que a acusação é de duas mãos, e que os rivais podem fazer o mesmo.

Na semana passada, a crise subiu um degrau importante quando o premiê britânico, Andy Burnham, prometeu fornecer tecnologia para que Kiev possa construir mísseis de cruzeiro furtivos para atacar a Rússia.

Moscou disse que isso colocava indústrias britânicas dentro e fora da Ucrânia como alvos legítimos, algo que, se deixar o campo da retórica, sugere um enfrentamento com a aliança militar ocidental Otan -e, no limite, a Terceira Guerra Mundial.

Usualmente, trata-se apenas de uma ameaça para coibir apoio a Kiev, mas isso foi suficiente para levar a Moscou o chefe da espionagem americana, John Ratcliffe, no dia seguinte. Pouco transpareceu sobre o conversado na viagem, de resto minimizada pela Rússia e pelos Estados Unidos, exceto sua motivação central.

O governo Putin está sem embaixador em Londres, e sua chancelaria afirmou nesta terça que a indicação do novo nome ocorrerá “quando for a hora”.

Há um temor nos países europeus de que Putin escale suas ações. Ele é pressionado pela campanha ucraniana que deixou postos de combustível a seco por toda a Rússia e pela falta de uma vitória clara para apresentar e encerrar o conflito.

O temor é compartilhado por pessoas do entorno do Kremlin, mas apresenta um desafio lógico: por que o russo ampliaria uma guerra que não consegue vencer enquanto limitada a um país?

Uma resposta é que Putin possa querer testar a unidade EUA-Europa com ações menores e manter seu plano estratégico de enfraquecer a Otan, de resto já fustigada por Donald Trump por dentro.

Antes da fala alemã, a porta-voz da chanceleria russa, Maria Zakharova, havia feito ameças. Comentando as queixas de países da região do Báltico acerca de ações russas, ela disse que “a resposta a esses instigadores de ações irresponsáveis contra a Rússia será decisiva e devastadora para eles”.

Mais cedo, a Estônia havia dito que drones ucranianos lançados contra a Rússia chegaram a entrar em seu espaço aéreo, o tipo de confusão que Kiev atribuiu a ações de Moscou, que as nega.

Zakharova também se referiu à tensão entre seu país e o Japão, que disputam ilhas em um arquipélago no Pacífico desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ela disse que um exercício militar entre japoneses, americanos e australianos a partir do dia 8 é uma afronta aos interesses de Moscou.

“Nós informamos o lado japonês que a ação militar provocativa é categoricamente inaceitável”, disse. A principal queixa é o emprego de lançadores de mísseis Typhon, que podem disparar mísseis de cruzeiro Tomahawk, nos exercícios.

T CSM
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