Da Coreia à Colômbia: quando perder uma Copa vira questão de vida ou morte

Da Coreia à Colômbia: quando perder uma Copa vira questão de vida ou morte

As imagens da chegada do ex-técnico da Coreia do Sul, Hong Myung-bo, ao aeroporto de Incheon correram o mundo não apenas pela revolta da torcida, mas pelo nível de hostilidade. Depois da eliminação ainda na fase de grupos da Copa do Mundo, o treinador desembarcou cercado por um forte esquema de segurança, enquanto torcedores o recebiam aos gritos de “Fora, Hong Myung-bo” e “Vá para o inferno”. Faixas o comparavam ao personagem Pinóquio, numa referência às promessas que teria feito antes do Mundial, e o clima era de completa ruptura entre a seleção e seus torcedores.

Mas o que mais chamou atenção aconteceu antes mesmo do desembarque. Nas redes sociais e em fóruns da internet começaram a circular ameaças de morte contra o treinador e alguns jogadores. Em uma das mensagens, um homem dizia que iria ao aeroporto para matar Hong Myung-bo quando ele retornasse ao país. A polícia sul-coreana abriu investigação para identificar os autores das publicações, mobilizou mais de cem agentes para proteger a delegação e até alterou a logística da viagem, separando o treinador e alguns atletas do restante do elenco para reduzir os riscos. Felizmente, tudo terminou sem violência física. Mas a simples necessidade de montar uma operação desse porte já revela que, em alguns momentos, o futebol deixa perigosamente de ser apenas futebol.

Morte na Colômbia 

Não é a primeira vez que isso acontece. E talvez seja justamente por isso que o episódio mereça reflexão.

Quem viveu ou estudou a história das Copas dificilmente esquece o caso mais dramático de todos. Em 1994, o zagueiro colombiano Andrés Escobar marcou um gol contra na derrota para os Estados Unidos, resultado que contribuiu para a eliminação precoce da Colômbia. Dez dias depois, ao voltar para Medellín, foi assassinado com seis tiros. Até hoje, sua morte é considerada uma das páginas mais sombrias da história do futebol, cercada por um ambiente de violência, narcotráfico e apostas milionárias.

É evidente que a Coreia do Sul de hoje está a anos-luz da Colômbia daquele período. Ninguém pode estabelecer uma equivalência entre os dois contextos. Mas toda ameaça de morte dirigida a um treinador ou a um jogador acende um alerta justamente porque a história já mostrou que palavras podem deixar de ser apenas palavras.

O futebol existe para provocar alegria, tristeza, discussões e até indignação. Faz parte do jogo. O que não pode fazer parte dele é a desumanização de quem está em campo ou à beira dele. Técnicos erram. Jogadores falham. Torcedores têm o direito de protestar. Mas, quando uma eliminação passa a justificar ameaças de morte, o problema já não é mais o futebol. É a sociedade olhando para o esporte e enxergando nele uma licença para perder a própria humanidade.

Porque Copas do Mundo terminam. A vida das pessoas, felizmente, deveria continuar muito depois do apito final.

T CSM

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