A Marinha dos Estados Unidos estuda um redesenho significativo de seus novos porta-aviões para atender às preferências do presidente Donald Trump, que quer que a nova frota se pareça com os navios da Segunda Guerra Mundial. A mudança pode custar bilhões e atrasar a entrega das embarcações, segundo reportagem do jornal The Washington Post publicada na manhã deste sábado (15).
A instituição analisa a viabilidade de deslocar a torre de comando — a “ilha” — para mais perto do meio do navio. A revisão, inédita, responde às preocupações de Trump com o “visual” da classe Ford, cuja ilha fica perto da popa.
O interesse do presidente pelo desenho dos navios de guerra é recorrente. No ano passado, ele apresentou planos para uma nova classe de encouraçados, a “Frota Dourada”. A proposta provocou críticas de analistas navais e parlamentares, que avaliam que os navios desperdiçariam a escassa capacidade de construção americana em um projeto que a Marinha não precisa.
O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), órgão apartidário, estimou que a “classe Trump” custaria cerca de US$ 275 bilhões em recursos públicos ao longo de 30 anos. O valor equivale a cerca de US$ 18 bilhões por navio, após a conclusão da primeira unidade.
Classe Ford: base aérea móvel de propulsão nuclear
Um porta-aviões da classe Ford é uma base aérea móvel gigante, movida a propulsão nuclear, que lança jatos por catapultas eletromagnéticas. Três unidades da classe estão em diferentes estágios de desenvolvimento. O USS John F. Kennedy passa por testes no mar e se aproxima da incorporação à frota. O USS Enterprise e o USS Doris Miller estão em construção.
O primeiro da classe, o USS Gerald R. Ford, já está em serviço e concluiu recentemente uma longa missão de combate no Oriente Médio.
O navio que dá nome à classe incorporou novas tecnologias que geraram atrasos — incluindo uma catapulta eletromagnética, recurso que a Marinha reconheceu como altamente eficaz. A construção levou 17 anos, conforme a reportagem. Os novos navios substituirão gradualmente a classe Nimitz, que é da década de 1960.
A Marinha posicionou a ilha na popa por eficiência e segurança. A localização cria mais espaço no convés para estacionar aeronaves perto das catapultas, o que reduz o tempo para lançar jatos e melhora a segurança dos pousos, ao diminuir a chance de turbulência. A explicação é de três oficiais familiarizados com o programa, ouvidos pelo The Post.
Os planos preveem até dez unidades da classe Ford nas próximas quatro décadas. Cada um custaria US$ 22 bilhões cada, conforme estimativas do CBO e do plano de construção naval mais recente da Marinha.
Mudança custaria bilhões e atrasaria o programa
Deslocar o centro de comando seria a segunda grande mudança de projeto impulsionada pelo presidente. Na quinta-feira (13), Trump emitiu um memorando de segurança nacional que determina que a Marinha elabore um plano para reverter as catapultas eletromagnéticas para o sistema a vapor.
A Marinha não detalhou o cronograma nem a abrangência da mudança. Autoridades atuais e antigas advertem que a instituição teme que ela exija tempo e dinheiro consideráveis.
A instituição já examinou o tema no primeiro mandato de Trump, disse um ex-alto funcionário americano. Um estudo concluiu que o reprojeto custaria bilhões de dólares e atrasaria significativamente o programa. “O que se concluiu é que o custo e o tempo necessários seriam simplesmente extraordinários”, afirmou o ex-funcionário.
Realocar a ilha seria “um redesenho de grande porte”, avaliou Bryan Clark, ex-oficial da Marinha que estuda a instituição no Hudson Institute, centro de estudos conservador em Washington. A alteração na disposição da embarcação afetaria a flutuabilidade e o peso, com custo significativo. “Você até poderia fazer a mudança, mas ela é extremamente disruptiva”, acrescentou.
Frota sob pressão na guerra contra o Irã
A pressão sobre a nova geração cresce num momento em que a frota em serviço dá sinais de exaustão. Em meio à guerra contra o Irã, os Estados Unidos mantêm dois grupos de porta-aviões no Oriente Médio, que sustentam os ataques e o bloqueio aos portos iranianos, segundo oWall Street Journal.
A esquadra sofre há anos com manutenções atrasadas e baixos índices de prontidão. Uma das causas é a frequência com que administrações passadas enviaram porta-aviões para enfrentar crises globais.
O USS Abraham Lincoln está na linha de frente desde dezembro, em missão de combate há mais de 250 dias consecutivos — recorde operacional. O navio soma mais de 200 dias sem escala em porto para descanso da tripulação. O USS George H.W. Bush chegou à região no fim de abril como reforço.
Crise a bordo do Lincoln chega ao Congresso
Parlamentares democratas pediram ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, que investigue relatos de rápida deterioração das condições a bordo do Lincoln, no Oriente Médio desde novembro. Familiares de marinheiros têm se manifestado com veemência, e a Marinha investiga um incidente de homem ao mar possivelmente ligado a problemas de saúde mental.
Hegseth classificou as denúncias como “completamente deturpadas”. Na sexta (14), Trump disse que o tempo do Lincoln no mar havia sido “nem de longe suficiente”.
O desgaste da tripulação, a falta de suprimentos e os casos de adoecimento mental, porém, levaram o Pentágono a ordenar o envio do USS George Washington. O navio já cruzou o estreito de Malaca e deve substituir o Lincoln nos próximos dias.