Por Amanda Karolyne
O julgamento dos cinco acusados de cometer os crimes da Chacina do DF chegou ao terceiro dia de oitivas.
Neste terceiro dia do julgamento do caso que chocou a população e ficou conhecido como “Chacina do DF”, os cinco acusados de assassinar dez pessoas de uma mesma família prestarão depoimento. O Júri Popular ocorre no Fórum de Planaltina e a previsão é que as audiências se estendam até o fim desta semana, marcando uma das etapas mais decisivas do processo.
O quinteto é acusado de cometer diversos crimes, entre eles: homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menores.
Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54 anos (patriarca); Renata Juliene Belchior, 52 (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira, 25 (filha do casal); Thiago Gabriel Belchior de Oliveira (filho do casal); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael, 6 anos, Rafaela, 6, e Gabriel, 7 (filhos de Thiago e Elizamar); Cláudia da Rocha Marques (ex-mulher de Marcos); e Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia), são as dez vítimas da chacina.
O cronograma de oitivas previsto para hoje seguirá uma sequência estratégica para os interrogatórios. O primeiro a ser ouvido no plenário é Gideon Batista de Menezes, que está sendo ouvido pela manhã. Depois dele, orá depor Horácio Carlos Ferreira Barbosa e Carloman dos Santos Nogueira. Na sequência, o tribunal colherá o depoimento de Fabrício Silva Canhedo, encerrando a fase de interrogatórios com a fala de Carlos Henrique Alves Silva. Durante esta etapa, os réus poderão exercer o direito constitucional ao silêncio ou apresentar suas versões sobre os fatos narrados na denúncia.
Gideon alega coação e detalha ferimentos em depoimento
Durante o depoimento de Gideon, ele alegou ter sido coagido a realizar algumas ações criminosas, mas disse não ter praticado os crimes. “Não pratiquei esses crimes. Fui obrigado. Muitas coisas eu participei sim, mas fui obrigado pelas pessoas que estavam lá”, declarou. Ao juri, o réu também relatou ter se ferido gravemente durante a desova dos corpos de duas das vítimas, Renata e Gabriela.
Na versão contada por ele, Gideon teria sido vítima de uma emboscada no momento em que ateavam fogo ao veículo. “Me mandaram colocar o corpo no carro. Quando coloquei, senti um calor e uma dor muito forte. Me joguei no impulso e comecei a rolar no asfalto. Alguém tinha jogado gasolina e ateado fogo e possivelmente quem colocou o fogo queria me matar também”, afirmou.
Gideon também apresentou uma versão controversa sobre a participação de Thiago, uma das dez vítimas da chacina. De acordo com o réu, Thiago não era alvo no começo da trama criminosa, mas sim presente no momento em que os corpos de outras vítimas foram queimados. “Eu não estava lá quando mataram. No dia que ele morreu, eu não estava. Me liberaram no sábado para eu cuidar dos meus ferimentos”, declarou.
Gideon admitiu ter participado do momento em que os corpos de Renata Juliene Belchior e Gabriela Belchior foram descartados. Entretanto, negou firmemente ter executado as vítimas, já que estaria apenas cumprindo ordens. “Me mandaram colocar o corpo e eu e o Horácio colocamos. Elas já estavam mortas. Eu não estava lá quando mataram.”
Processo sem precedentes
Para a imprensa, antes do terceiro dia de julgamento começar, o promotor de Justiça Nathan da Silva Neto classificou o julgamento da “Chacina do DF” como um marco singular na história jurídica da capital. Ele destacou a complexidade sem precedentes do caso. “Não há precedentes de um processo com tamanha quantidade de vítimas e riqueza de detalhes cruéis”, afirmou. O promotor explicou que o julgamento entra agora na fase de interrogatórios, um momento decisivo onde os réus podem optar pelo silêncio ou apresentar suas versões, e ressaltou ainda que a duração dessa etapa é imprevisível, pois cada acusado tem o direito de utilizar o tempo que julgar necessário para sua autodefesa.
Após os interrogatórios, o juri segue para os debates entre Ministério Público e Defesa, podendo chegar a 10 horas de sustentações orais se houver réplica e tréplica. Nathan reforçou a magnitude da decisão final, descrevendo que os jurados deverão votar mais de 350 quesitos, uma tarefa que pode estender o julgamento por dezenas de horas antes da sentença. “Buscamos o que é possível aos homens executarem como justiça diante de um crime que não se pode punir ou perdoar, pois não há pena suficiente para tal maldade, nem se pode perdoar tamanha atrocidade”, salientou.