Profissionalismo: “social medias” negam ideologia para atuar em eleições

Profissionalismo: “social medias” negam ideologia para atuar em eleições

Por Rafael Soares
Agência de Notícias CEUB

A duas semanas do primeiro turno das eleições deste ano, fazia muito calor fora do ar do escritório. A hora do almoço é a única disponível para conciliar uma conversa comigo, diversas demandas apitando no seu celular e um prato de comida.

No prato, peixe grelhado, verduras, grãos e um refrigerante zero para acompanhar.

De vez em quando, larga os talheres para abrir as mensagens no celular. Julia ficava sempre alerta às redes sociais para qualquer acontecimento que pudesse virar uma crise nas duas campanhas que ela atua como profissional de social media.. Qualquer ajuste urgente nos conteúdos que trabalhava ou qualquer ação que significasse mais votos na urna.

Fazia 29 °C de um mormaço quente quando nos sentamos às 12h30 para conversar e, consequentemente, almoçar em um restaurante , no Sudoeste, bairro nobre de Brasília (DF). 

Inicialmente, quem mais fala na mesa é Bernardo* , coordenador de campanhas da agência e amigo de Julia que nos acompanhou no almoço, mas que já havia passado por três eleições nessa função da comunicação profissional.  O trabalho deles buscacuidar da imagem do candidato no mundo digital através das redes sociais. 

Ambos têm menos de 30 anos, e não são inexperientes. Carol se veste em um estilo streetwear e, enquanto se ajeita na cadeira e começa a comer. Questiono quais são as dificuldades de trabalhar nesse ramo. 

“Todas”, responde. Os dois riem. Bruno descreve que um social media de político “vive e respira o digital do político. Tem que estar com olhos e ouvidos abertos às propostas do político”.

Em 2022, teve seu primeiro trabalho como social media, e ainda seria surpreendido, em pouco tempo e na mesma campanha, com uma promoção para coordenar a equipe. Nos outros dois períodos eleitorais em que trabalhou, de 2024 e de 2026, Bernardo* alternou entre coordenar equipes e cuidar diretamente das redes dos políticos. Ele relata já ter feito comunicação e “defendido” temas que é radicalmente contra.

No período de Carnaval deste ano de 2026, Julia entrou na empresa e começou a integrar a equipe com Bernardo em um conglomerado de agências que cuida desde áreas governamentais até campanhas políticas. Julia  tem 25 anos e faz faculdade e sonha em trabalhar em uma área diferente. Gostaria de atuar na área esportiva.. No entanto, desde seu 2° semestre na faculdade, ela viu a oportunidade de “crescimento profissional” nas agências de marketing, termo que ela tem como um norte nas decisões da vida.

Entre as garfadas e as checadas no celular, Julia recorda que passou por uma outra agência antes de integrar a equipe atual, coordenada por Bernardo. Quando entrou para as campanhas políticas, justamente em ano eleitoral, sua primeira oportunidade foi direto na campanha de um governador. 

Por sua facilidade e desenvoltura na frente das câmeras, a jovem goiana que mora na região administrativa de Samambaia, na periferia do Distrito Federal, virou uma das caras da campanha e admite que teve que correr atrás para conhecer mais sobre política e se adequar àquele novo ambiente.

“Era zoada por todo mundo porque eu passava pelo audiovisual, passava pela criação, passava por todas as áreas”, descreve. Mas Bernardo,  quando fala da parceira de trabalho, confirma a altivez da comunicadora que encontrou no conteúdo político seu campo de maior “crescimento profissional”. 

Dessa maneira, ela administra hoje duas campanhas nas redes sociais como social media, mas circula por todo escritório. .  

“Sempre Online”, Bernardo descreve o trabalho assim e Julia confirma. 

O dia dela começa cedo, às 6 da manhã em Samambaia quando Carol acorda, se arruma e sai para a faculdade. De metrô, ela chega na Asa Sul.  Está em sala de aula às 8h. . Quando a aula acaba, às 11h, Julia pega dois ônibus para chegar ao escritório da agência no Sudoeste. Fica lá até 19h e volta pra casa de metrô. Carol ainda acha tempo para praticar futevôlei perto de sua casa. Essa rotina se repete todos os sete dias da semana em períodos de campanha. 

Julia Ssustenta a casa e o irmão mais novo, de 23 anos. Ele paga a própria faculdade e conta com o apoio da irmã.. Nesse período de reta final de campanha, ela entende que tem que adaptar a vida à rotina dos políticos para quem trabalha. Diz isso com empolgação. 

Todas as atividades do dia estão sujeitas a interferências do trabalho. No futevôlei, por exemplo, entre um exercício e outro, sempre dá uma checada no celular. E, se preciso, Carol fica até tarde resolvendo demandas “urgentes”.

Sem ideologias

Ela garante que nunca se interessou por política e conta que as ideologias dos candidatos para quem trabalhava, mesmo que ela discorde, não a  incomodam. 

Apenas nas campanhas em que o candidato aparecia com uma ideia “mirabolante” ou o político representava ideias extremistas, Carol encontrava uma alguma dificuldade, mas reforça que o mais complicado é entender os clientes, o que eles realmente querem comunicar, qual imagem eles querem passar.

“A gente atende tanto a direita quanto a esquerda”, diz Bernardo. Essa é a mensagem que ambos reforçaram. Os dois contam que não falam detalhes do trabalho para seus círculos de convivência e tomam cuidado para não ficarem vinculados à imagem de um político. 

Julia entendeu isso muito rápido na vida e, se um político com quem ela está trabalhando fala um absurdo, que ela não concorda. “Quem está passando vergonha é ele”, diz. 

Já mais experiente nessa área, Bruno consegue afirmar que consegue separar as estações. “Hoje em dia, posso escrever pra extrema direita que não vai me afetar”.

T CSM

TRIBUNA LIVRE BRASIL

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