16/06/2024

Após seis meses de governo, Lula não vence resistência de evangélicos

Evangélicos cobram mais diálogo e representatividade na gestão do petista. Presidente deixou segmento fora do Conselhão, mas avalia estudar redução maior de isenção de impostos para igrejas

As vaias ao nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Marcha para Jesus, na quinta-feira, em São Paulo, recolocaram em evidência a resistência do setor a apoiar o governo petista. Convidado pela organização, o chefe do Executivo mandou uma carta, explicando que não poderia comparecer, mas enviou a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) e o advogado-geral da União, Jorge Messias, como representantes — ambos são evangélicos. Embora o gesto tenha sido bem recebido pelo presidente da Marcha, o apóstolo Estevam Hernandes, o público vaiou quando Jorge Messias citou o nome do presidente.

Lula enfrenta grande resistência do setor desde a campanha eleitoral. Os evangélicos apoiaram em peso o então presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), que se associou a lideranças como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo.

Apesar do episódio na capital paulista, pesquisa de popularidade realizada pelo Ipec mostrou que a aprovação de Lula entre evangélicos aumentou de 24% em abril para 29% em junho. A taxa, porém, é menor que a de março, de 31%. No segmento, 33% consideram o atual governo regular, e 34%, ruim ou péssimo.

Além da rejeição evangélica — grupo majoritariamente conservador — à agenda de esquerda, pesa contra Lula o fato de que, mesmo com os acenos feitos durante a campanha, não houve medidas concretas até o momento em prol dos religiosos.

Durante o governo de transição, foi articulada a criação de uma secretaria para os evangélicos no Planalto, destinada a assessorar Lula no trato com o grupo. O órgão seria chefiado pelo pastor Paulo Marcelo Schallenberger, mas sua criação não ocorreu. Tampouco Lula incluiu lideranças evangélicas no “Conselhão”, composto por empresários, sociedade civil e movimentos sociais, inclusive o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).

Parte da resistência à inclusão dos evangélicos é de setores do próprio PT. Nas discussões sobre a criação da secretaria, a presidente nacional da legenda, deputada Gleisi Hoffmann (PR), declarou publicamente ser contra a medida e enfatizou que o assunto nunca foi discutido.

Mesmo lideranças evangélicas progressistas criticam a falta de diálogo de alas mais radicais da esquerda com o setor e classificam a postura como preconceito.

Ainda assim, há expectativa de acenos efetivos do governo. Lula sinalizou a integrantes de seu governo a possibilidade de estudar uma redução maior da isenção de impostos para igrejas, mesmo tendo criticado, durante a campanha eleitoral, o fato de os templos terem privilégios. A medida pode ser discutida dentro da reforma tributária, em tramitação no Congresso.

O presidente também tem evitado entrar em discussões das chamadas “pautas de costume”, que poderiam causar grande atrito, não somente com os evangélicos, mas com outros setores conservadores também.

Entre elas, estão a liberação do aborto e a descriminalização de drogas — que deve entrar neste mês na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF).

Embora declarações de ministros causem desavenças para o governo — como o titular da pasta dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, defendendo a descriminalização da maconha —, não foram estipuladas políticas públicas que abordem esses temas até o momento.

Sem diálogo

Ao Correio, o bispo Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra, disse que ainda há uma preocupação com o que o governo planeja para as pautas de costume. Ele destacou que não houve a construção de uma ponte para o diálogo.

“O governo está fazendo gestos positivos em relação às igrejas. Sinalizaram a questão dos impostos, mas a gente não entendeu muito bem o que seria essa proposta”, frisou. “Mas o diálogo não aconteceu, nem sobre o que o governo pensa sobre os valores, medidas sobre aborto, ideologia de gênero, combate à pedofilia”, acrescentou o líder evangélico.

Rodovalho ressaltou, porém, que ainda são poucos meses de gestão. Apesar das divergências em relação à campanha eleitoral e aos governos anteriores do PT, ele vê espaço para diálogo. “Ajustar expectativas. Se possível, as diferenças. A grande maioria da sociedade brasileira é cristã e está muito bem pontuada no ponto de vista desses valores”, afirmou. “Nós esperamos que o governo faça um gesto, uma sinalização sobre o futuro das políticas de governo”, enfatizou o bispo.

Os evangélicos apoiaram em peso o então presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), que se associou a lideranças como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo.

(crédito: Nelson Almeida/AFP)

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