Uma expedição científica parte neste domingo, 20, de Fortaleza (CE) para mapear e explorar a Zona de Fratura Romanche, formação submarina de cerca de 1 mil quilômetros de extensão localizada entre a costa Nordeste do Brasil e o oeste do continente africano.
Batizada de The Gap, a iniciativa vai utilizar um rover e um submarino autônomo, operados a partir do navio de pesquisa Falkor (too), para mapear duas áreas distintas e coletar amostras de rochas e de vida em paredões que chegam a até 4,5 mil metros de profundidade.
A equipe investiga a ocorrência da ressurgência equatorial, fenômeno de elevação de águas mais frias e ricas em nutrientes para a superfície marinha. Segundo o professor José Angel Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que lidera a expedição, o principal foco é identificar e mapear a relação desse processo com as comunidades profundas, além de estudar a dinâmica das correntes e a morfologia dos habitats de fundo.
Perez afirma que conhecer esses mecanismos é importante porque a maior parte da crosta do planeta está em regiões de oceano profundo, área da qual, segundo ele, se conhece menos de 1%. A equipe também quer reunir evidências científicas sobre a riqueza desse ambiente e o impacto da ação humana, para subsidiar estudos futuros e reforçar a importância de áreas de preservação.
Outro ponto de atenção será a influência das mudanças climáticas sobre essas comunidades. Os pesquisadores observam alterações nos ventos da região, o que pode afetar toda a cadeia alimentar, somado ao processo de acidificação dos oceanos, que ameaça reservatórios de vida marinha como os recifes de corais.
O primeiro passo será o mapeamento da área com uma sonda acústica do navio, por cerca de dois dias. Com esse mapa, os cientistas descerão até os paredões usando o SuBastian, um robô operado remotamente, capaz de mergulhar até 4,5 mil metros e coletar amostras submarinas. A operação será transmitida ao vivo, com narração, no canal do Schmidt Ocean Institute, patrocinador da expedição que cedeu os equipamentos.
Para as áreas consideradas mais promissoras, a equipe usará ainda um submarino autônomo, capaz de se aproximar mais do fundo e produzir mapas com detalhamento de centímetros. A operação será repetida em uma segunda área, mais próxima da costa africana.
A expedição reúne outros cinco professores universitários brasileiros, sete estudantes, um pesquisador e a tripulação. Ao todo, 25 especialistas de cinco nacionalidades integram a equipe, que deve desembarcar em Gana em 26 de outubro. O navio Falkor (too) foi cedido pelo Schmidt Ocean Institute, que apoia pesquisas oceanográficas sem fins lucrativos e prevê outras oito expedições no Atlântico Sul e Caribe em 2026, com compromisso de divulgação pública dos resultados.
A expectativa da equipe é sistematizar os primeiros resultados em cerca de dois anos, embora Perez afirme que os trabalhos dos especialistas e dos estudantes a bordo possam render informações por cerca de uma década.