O Ministério das Relações Exteriores da Grécia convocou de volta ao país europeu a embaixadora Eleni Lianidou, que chegou ao Brasil em 16 janeiro e contra quem pesam denúncias de assédio moral e profissional. A convocação vem logo depois de reportagem do Jornal de Brasília mostrar a revolta de colaboradores que trabalharam com a mulher, que é tida por controladora e preconceituosa, além de alterar funções, horários e códigos de conduta sem consulta ou aviso prévio.
Já em junho, com apenas seis meses de Brasil, a experiente embaixadora – são 35 anos só na diplomacia – foi alvo de denúncia no Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Embaixadas, Consulados e Organismos Internacionais (Sindnações), que também acionou o Ministério Público do Trabalho (MPT). O Palácio do Itamaraty também tem ciência das movimentações. Naquele mês, o embaixadora da Grécia na Argentina, Efstathios Paizis Paradelis, veio ao país tomar depoimentos de forma oficial.
A vinda do diplomata foi noticiada na imprensa candanga. Pouco depois, com a debandada de funcionários e a continuação das agressões, Paradelis voltou ao país, já em agosto, para a oitiva de Lianidou, mas deu com a cara na porta: de acordo com fontes ouvidas pelo JBr., a embaixadora sequer sentou junto ao colega. Antes, ela já havia disparado e-mail para todas as representações europeias em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo no qual alegava ser vítima de perseguição e afirmava ter medo dos funcionários brasileiros.
Com a convocação para o retorno à Europa, Lianidou se torna uma das diplomatas que menos tempo ficou à frente da missão grega no Brasil. No cálculo que vai até a data da convocação de retorno (o “recall”, no jargão diplomático, que ainda carece de oficialização), foram oito meses e 21 dias. Um de seus antecessores, Kyriakos Amiridis, esteve como embaixador por sete meses e um dia, em 2016, quando foi morto pelo amante de sua esposa, no Rio de Janeiro. Ainda assim, pelos registros diplomáticos helênicos, é a menor permanência de Lianidou num país em 35 anos de diplomacia – tendo a mulher passado por países e organismos chave nas relações internacionais.
Conforme fontes da diplomacia grega, a chefe da Seção Consular da Grécia em São Paulo, Eleni Papagianni, já foi notificado da decisão, que se deu logo após o retorno do chanceler Giorgos Gerapetritis de um encontro que teve com Mauro Vieira, o ministro brasileiro, em Nova Iorque, nos EUA. Há a suspeita que a relação da embaixada Lianidou com os funcionários da embaixada tenha sido um dos temas da conversa. De acordo com essas mesmas fontes, Lianidou voltará a Atenas, capital grega.
“Embaixatriz, não embaixadora”
Uma funcionária que falou com o JBr. estava de licença maternidade quando teve de voltar para ajudar nos preparativos para receber a nova embaixadora, naquele já longínquo 16 de janeiro. Voltou, viu e decidiu: “Eu trabalhei com ela um dia e percebi que ela era louca e me afastei”. “O que eu vivi em 12 horas de trabalho com ela foi suficiente para para ver que não seria não seria possível voltar”, garante.
O Jornal de Brasília repetiu uma pergunta a todos os funcionários ouvidos para esta reportagem: com tantos afazeres “domésticos”, ligados à zeladoria da embaixada, como a embaixadora lidava com a agenda oficial e com eventos ligados à função que ela foi designada para exercer no Brasil? Uma das fontes, que trabalhou como motorista de Lianidou, confessa que os eventos oficiais – seja com representantes do governo brasileiro, grego ou mesmo com a comunidade grega no país – ocupavam a maior parte da semana em outras gestões; nesta, limitavam-se a, no máximo, três eventos semanais.
Outra colaboradora, que lidava também com a agenda de compromissos de Lianidou, resume: “Ela era embaixatriz, não embaixadora”. “E no discurso de que ela veio para botar as coisas no eixo, ela negligencia completamente o trabalho diplomático que ela teria que estar fazendo. A gente tem que lembrar que o Brasil e a Grécia têm relações bilaterais há 200 anos”, completa.