24/02/2024

“Mandaram matar os baianos”, diz resgatado de vinícola no RS

 Em depoimento, homens resgatados de
situação análoga à escravidão revelaram as condições insalubres nas quais
viviam em vinícola do RS


Pedro Almeida

 

Três homens resgatados de situação análoga à escravidão
em vinícola no Rio Grande do Sul prestaram depoimento ao Ministério Público do
Trabalho (MPT). Um deles informou ter escutado uma ordem de “matar os
trabalhadores baianos”. Ele relata que, na véspera da fuga, foi encurralado por
quatro seguranças, que o espancaram com cabo de vassoura, usaram spray de
pimenta e o morderam.

Nos relatos, o trio também descreve agressões, refeições
com aspecto estragado e jornada de trabalho exaustiva. As informações são do
jornal O Globo, que teve acesso ao documento.

Empregados pela empresa Fênix Prestação de Serviços, que
operava de forma terceirizada em vinícolas como Aurora, Salton e Cooperativa
Garibaldi, os três homens decidiram, no dia 21 de fevereiro, enviar um vídeo no
grupo de WhatsApp da empresa para denunciar as condições de trabalho. Na
gravação, o trio, encharcado, revela o prato de comida que haviam recebido:
arroz, feijão e frango com aspecto estragado.

No depoimento, os trabalhadores relatam mais do cotidiano
vivido na vinícola. Após a colheita, eles eram recebidos no alojamento por
seguranças do chefe da empresa. Agressões em formas de mordidas, choques, socos
e enforcamentos era o tratamento comum dado a eles.

Vindos da Bahia, os homens chegaram a Bento Gonçalves,
município do Rio Grande do Sul, para trabalhar nas vinícolas. O acordado em
contrato assinado foi de que eles trabalhariam durante 45 dias, com jornada
diária de 15 horas, por um valor de R$ 3 mil. O montante nunca foi pago.

O dono da empresa operava um pequeno mercado dentro da
vinícola, onde vendia itens básicos aos trabalhadores. Em posse de R$ 400, dado
pelo empregador, os homens poderiam comprar no local. O valor dos produtos,
contudo, estava muito acima do preço normal de mercado. Para ilustrar, um
pacote de biscoito de água e sal era vendido a R$ 15.

No que diz respeito à higiene, o alojamento tinha quatro
privadas para mais de 200 trabalhadores. Os quartos eram compostos por beliches
amontoados e não recebiam qualquer tipo de limpeza ou manutenção.

Relatos

Um dos homens, de 36 anos, conta que eles tinham de usar
a própria roupa de cama e travesseiro. Como alguns não dispunham, precisavam
improvisar com mochilas e outros objetos.

Outro trabalhador, de 20 anos, aponta que foi acordado
com choques. Sobre o trabalho, ele diz que os equipamentos de proteção se
resumiam a um par de luvas e botas. Os objetos, de baixa qualidade, rasgaram
com rapidez e não foram substituídos. Ele ressalta que o contrato previa a
cessão de óculos de sol e protetor solar, o que não aconteceu.

O terceiro homem, de 23 anos, completa que a marmita não
vinha acompanhada de talheres. Os trabalhadores que não tivessem, tinham de
usar a tampa da marmita de forma improvisada. Ele acrescenta que a água também
era responsabilidade dos empregados.

Nos relatos, um deles revela ter desmaiado durante o
trabalho. Um dos funcionários da empresa o levou de carro ao hospital. Na
volta, ele teve de caminhar por 4 km. Outro homem alega ter visto dois
trabalhadores se esfaquearem e, ainda assim, irem trabalhar no dia seguinte.

Os funcionários da empresa andavam sempre armados e
ameaçavam os empregados. “Fomos agredidos com uma cadeira de ferro na cabeça e
socos na cabeça e nos braços. Durante as agressões, fomos ameaçados de morte.”,
revela um dos homens.

A fuga ocorreu no dia 22 de fevereiro. O grupo pulou da
janela do alojamento para uma laje vizinha, que ficava a uma queda de 2 metros.
Dali, foram mais 5 metros em um pulo para um jardim à altura do chão. Com um
celular escondido, um dos homens pediu dinheiro à família e chamou um carro de
aplicativo.

O veículo os levou até um posto de gasolina em Garibaldi,
onde eles se esconderam no banheiro. Pouco tempo depois, acionaram outro carro
de aplicativo até a rodoviária local e partiram para Caxias do Sul. Durante a
viagem, contataram um agente da Polícia Rodoviária Federal em um posto situado
na estrada.

Repúdio

Em resposta, as vinícolas repudiaram os fatos relatados
pelos trabalhadores. Elas alegam ter exterminado o contrato com a empresa Fênix
Prestação de Serviços e anunciaram mudanças na fiscalização para que o evento
não se repita. Além disso, dizem estar colaborando com as autoridades para que
o caso seja devidamente investigado.

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